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sexta-feira, 15 de março de 2024

 


POESIA, O QUE É?

         Francisco Miguel de Moura*

 

Poesia é uma flor que se apascenta,

Se o coração desdobra como a flor.

Como estrangeira, nasce e se apresenta

Sem passaporte, num papel sem cor.

 

Qual pétala de dor que se acalenta

Em palavrões, palavras do desgosto,

Pois se esconde no vaso, que dormenta,

Se não encontra o dia, já sol posto.

 

Diante de tudo, um pouco se ilumina

Em lágrimas vertidas, se domina

Num germinar de riso acolhedor.

 

E vai, e vem, morrendo, e depois nasce

No olhar, no sorriso, face a face,

Na esperança de um eterno amor.

  

        The, PI, 15-08-2024, um dia depois do Dia da Poesia.

____________

*Francisco Miguel de Moura, poeta brasileiro.

sábado, 12 de agosto de 2017

POEMA EM AZUL

Francisco Miguel de Moura
      (Chico Miguel)


É meio dia
O céu azul completa
A cor de meus olhos
A forma das asas
De voar, não vejo.

Sei que o céu é bonito,
Sei que o azul é meu.

O universo é Deus
Somos o infinito. 

sábado, 16 de julho de 2016

PALAVRAS Á ALVORADA

 Francisco Miguel de Moura*

Na noite, os pássaros cantam felizes,
antecipando alvoradas
das manhãs friorentas,
cobertos de pena e ar.

Amam, brigam, mas voam,
voar é ganhar liberdade
plena de todas as misérias:
- A fome vem com pouca sede.
E os desejos voltam aos ninhos,
debaixo das folhas verdes.

Pássaros crianças, meninos
brincalhões no belo que é seu canto,
no formoso que é seu voejo.

Ao calor do astro-rei se aquietam.

E nós?  Dormimos não para cantar,
mas sonhar sonhos de passarinhos,
reaprendendo a pular de tristeza.
                        .
______________
*Francisco Miguel de Moura, poeta brasileiro até morrer. Mora no Piauí, mas podia morar em qualquer lugar, desde que sendo e vivendo poesia.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

PAISAGÍSTICA - Poema




 Autor:
 Francisco Miguel de Moura



 
A paisagem e eu somos um.
       Cadê meus olhos?

O verde me envaidece... Vivo!
       Cadê meu pulmão?

Os sons assanham o jardim
        Dizem que ouço
              Canto
              Penso
              E amo.

Amo a réstia de lua
Através da nuvem
Arrumando os céus.

Amo o tudo que cerco
E nesse tudo me amo.
         Partícula.

Não sou Deus nem quero.

_________________
Francisco Miguel de Moura, poeta brasileiro, e-mail: franciscomigueldemoura@gmail.com 

sexta-feira, 6 de junho de 2014

POETA & POESIA - FranciscoMiguel de Moura

Francisco Miguel de Moura*



Os rios são paixões dos poetas,
as mulheres, os deuses e deusas,
os sonhos e suas visões elásticas.
O que existiu, o que existirá:
Somos a mentira verdadeira
com gosto de beijos e entalos
e a saliva sem o sal do mar.

Poetas têm cabelo de aranha,
as barbas vão para os profetas:
Estes conversam com Deus,
aqueles com os deuses
que falam
                aos profetas
                             e ao mundo.
Não falam, ciciam, escrevem,
o que não existe – inventam.
Às vezes falam consigo a esmo.

Escrever é pensar, chorar, rugir.
E, coitados, não fazem mal!...

Mas onde está o bem do poeta,
se as paixões fazem o homem
e a poesia, em cada linha curva,
que não vale um real amassado?

Poetas não existem, são mentiras
fora de sua alma, dentro de sua asma.

______________
*Francisco Miguel de Moura, poeta jenipapeirense, picoense, piauiense, brasileiro, mesmo assim escreveu: “Eu não tenho pátria, nem aqui nem no distante”.

domingo, 13 de abril de 2014

POEMA POLUÍDO

http://franciscomigueldemoura.blogspot.com
 Francisco Miguel de Moura*

Vindo ou ido, zumbindo ou calado
Nenhum poema subexiste:
- O mundo está findo,
Se envergonha de nós
Nada se reproduz, morrem as eras.
Secam ares, mares, águas,
Areias  riem, ringem, raiam.

Agonizam os céus de poeira,
Um raio descomunal parte a esfera,
Sem norte nem sul, sem leste ou oeste.


Passaram os dinossauros,
Passarão os homens, sem nenhuma ação,
Sujeitos pensantes que queriam-se deuses.

Formigas formigarão,
Correm baratas a blaterar
Cupins discutem a fórmula de combate:
- Como ser o menor dos menores,
Sem sexo e sem cabelos?
Todos criarão asas sem espírito
E cairão...

Dói não saber como chegar ao fim!

_____________________
*Francisco Miguel de Moura, nascido em Jenipapeiro (logo picoense e piauiense), morou na Bahia, interior e capital, no Rio e voltou, fixando em Teresina, a cidade mais bela do mundo, sua cidade mais amada. Membro da APL(Academia Piauiense de Letras-Teresina-PI) e da IWA (International Writers and Artists Association – Estados Unidos)

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

DERROTA OU VITÓRIA?

Francisco Miguel de Moura*




Quem de si se liberta será alguém
Que invoca a Deus e denega a razão?

Não se faz arte ingênua ante a matéria.
O artista ama as substituições do ferro
Pelo barro, pelo berro, pelos gritos.
Como os santos fizeram, há que chorar
Pelas dores que os outros vão vestir.

Há de descer aos limites sem limte,
Há que sorrir pelo que está de fora.
Sentidos, sons, cheiros  e cores lavra:
Menos que a cor, melhor a diferença;
Se mais som menos música, surdo ser;
Se mais forma vê, vê as deformações.

Não iludir que o mal não é tão mau;
Nem que eterno é o belo ou o parecer;
Mostrar mais diferenças do que o feio
Que pode ser mais belo que o espelho
Se for visto por lentes sem contexto

Se arte é ajuda, o viver transforma,
Vencer é não gritar “vim, vi, venci”:
Em cada rota há uma parede envolta.

Libertar é  vencer milhões de monstros.

_________
*Francisco Miguel de Moura, poeta brasileiro, mora em Teresina, PI, Brasil,  trabalha as palavras, mas sabe que muitas vezes o grito é necessário.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

BALADA DO ESQUECIMENTO

Francisco Miguel de Moura*


Esquece, por enquanto o mundo não te conhece,
Não há razões para abraçá-lo com tanta força.

Esquece que nasceste como milhões por dia,
Esquece quem te amou perdidamente um instante,
Pra depois esquecer-te e dizer: “para sempre”.

Esquece que te quero, mas não sei até quando,
Esquece tudo que cantaste e que o outro chorou:
Lágrimas não valem nada, nem o rosto que molha.

Senta-te no batente de tua casa e vê nascer o sol,
Quando levanta quente e forte, com força e luz.

Senta-te à tarde e vê que ele se põe no horizonte
E, ao contrário da vinda, nem te viu... Ofuscou.

Mas não te esqueças da lua quando vem cheia
Apaga tua sonolência e depois enche-te os olhos...
Com a madrugada fria, quando pela primeira vez
Bebeste um gole de tristeza, de saudade e dor,
Por aquela que te disse: “Amo-te eternamente”!...
E depois desapareceu... Morta ou viva, que importa?

Não importa: O tempo não corroe, o tempo corre
E é sempre o mesmo que te assanha a cabeleira
E sibila ao teu ouvido: - “Esquece, esquece tudo,
             Que eu não volto mais”!...

____________________
* Francisco Miguel de Moura, poeta brasileiro. Mora no Piauí. Trata-se de um poema feito de repente, sem rima, e a inspiração é aquela que todos sentem: nenhum tempo volta, tudo é eterno, menos o que não o é.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

REBELIÃO DA COISAS

Francisco Miguel de Moura*

Começou no seio do show,
Boate de classe improvisada,
Bilhete a prestação, pelo cartão.
Por quase nada - um favor de quem
Ninguém sabe, mas alguém entrou.

Começado o barulho lá por dentro,
Um cheio enorme e só falta de ar
Silenciava a rua lá por fora.

Os cartões saltaram no palco,
Vestidos, sapatos, calcinhas,
Cuecas... E até de camisinhas
Encheu-se o recinto.

Diante do levante:
- Ninguém dança, ninguém toca.
Ninguém se toca, abriram-se os casais.
Todos corriam, ninguém se abraçava.

Os instrumentos voaram pelo ar:
Trombones, zabumbas, guitarras,
Feito andorinhas que se espantaram
Da torre da igreja dos pecados.

Em seguida, como um relâmpago,
Veio a bomba que consumiu a todos,
De tal forma a cinza era tão cinza
Que não foi possível identificar os corpos.

Depois, impossível saber
Quem era sombra de gente ou de roupa.

E as pessoas que ali entraram,
E não saíram, onde estão?
Quem sabe se lá no céu
Aonde sobem todas as fumaças?

____________________
*Francisco Miguel de Moura, poeta das pessoas e das coisas, amando as primeiras e suportando as últimas.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

O JARDIM DOS JOVENS

O
JARDIM
DOS 
JOVENS


Francisco Miguel de Moura*

                      I                     

jardins de folhas caídas, murchas,
sem lágrimas pra chorar o anoitecer
são depósitos de formigas picadoras,
de abelhas pecadoras,
de borboletas que morrem antes
de morrer, enquanto esperam chuvas
e se escondem no sono do serenado,
pois foram-se os jardins bons,
os que davam rosas às mãos ávidas
dos moços que levavam pras janelas
namoradas -  gente viva,
ofertas românticas voltando
às mãos das moças que as plantavam.

II
hoje nem jardins secos nem frescos,
nem luas, nem brinquedos de crianças,
o mundo ficou triste desde que noel
passou de pai a rei – o velho rei-momo.
desde que os papais perderam o nome.

as moças morrem de sede,
os moços morrem nas  fontes.
são todos afogados nos castigos
que a natureza prega, sem mágoas,
ouvindo só músicas de gritos
esfarelados nos beijos-fritos,
no consumo alieno-desvairado.

jardins de folhas caídas, coitadas!
_______________
*Francisco Miguel de Moura, poeta, membro da APL, da ALERP, da UBE-SP e PI, mora em Teresina. Sócio da IWA- International Writers and Artists Association – Toledo, OH, Estados Unidos

sábado, 11 de maio de 2013

A QUINTA FORMA


Francisco Miguel de Moura*


Nunca almejei amor tão diferente
Das formas já pensadas pelos gregos
Filósofos e sábios - não labregos:
Pensei viver amor sem convenções.

Só queria a verdade, mas a mente,
No  olhar, no sorriso e na tristeza,
Na beleza do ser e na grandeza,
Não guarda vivamente os corações.

Só desejei viver o amor amante,
Corpo e alma gozar sem tradição,
Porém caí num fosso... Ai, breve instante!

Eis que a aventura trouxe-me um deserto:
Não rompi as correntes, não deu certo
Levar tão longe a grande aspiração. 

                      
_____________
 *Francisco Miguel de Moura é um poeta do mundo inteiro, justo por que
  poeta não tem pátria, sua casa é a imaginação: poetas têm sonhos e versos.

terça-feira, 7 de maio de 2013

FRUTOS VIRGENS
d. francisco m. de moura*

o quadro de teus olhos
aos meus rendidos
tenho em mim pintado
de prazer parado
em sereno espírito
de vida perdida
e a perder de vista.

meus frutos proibidos
ainda não perdidos
como pegá-los?

pecar é perdê-los
no gozo incendido

pecar é sofrer
mais que um dízimo
em chumbo diluído.

o quadro dos teus olhos
me elevam
relacham
até dormir para um sonho
perdido no infinito.
_________________________________

*francisco miguel de moura, poeta do brasil e do mundo.
              Observações : Imagens tiradas do filme do mesmo título, no site também do mesmo título, internet.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

CAMINHOS OU ESTRADAS?

 Francisco Miguel de Moura


Por que o poeta escolhe os caminhos
Onde deixa rastos de viagem,
Em busca do que quer e ama?

E o caminhante pode ir sozinho, à toa,
Passear entre as flores ao rés do chão,
Com os pássaros cantando nas ramadas...
E assim descansar suas canseiras
Da vida, que, às vezes, nos engana,
E traz venenos que precisam cura
Da natureza tão bem vinda, de graça.

Os caminhos de hoje são estradas sem fim,
Poluídas por carros de mau cheiro de fumaça
E deixam seu veneno em vez de flores,
E a música é de pneus raspando o asfalto,
E da estrídula buzina furando nossas oiças.

Caminhos e veredas eram de corpo franzino
E espíritos fortes, com seus frutos doces,
Que caíam, sem conta, a nossos pés,
Além do orvalho a lavar o nosso rosto.

Que saudade dos caminhos sem rótulos,
Sem placas, sem sinais, e, em cada árvore
Conhecida, a marca de singular lembrança
Da passagem, ida e volta, e a pretensão.

Importante não era chegar e voltar logo,
Era ir sempre em frente e em direção
De uma esperança, o futuro, uma emoção.

Estrada é preta, é morte, e caminho é salvação.

                                  Teresina, 27/02/2013

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

SIDERAÇÕES

Francisco Miguel de Moura*


O sentido das coisas paradas se enrolam
Na intenção das pessoas desencantadas.

Ninguém sabe viver sua hora,
Ou sua eternidade.
Ninguém aprende que melhor seria
Se nada soubesse.

E se o amor dá sentido à vida...
Qual vida e qual presente?  
E qual amor? Um siderante amor?

Andam em dupla por ondas salgadas,
Ou sonoras, atrás de corais e lodo
Tristes, na falta do sol e do vento.

O amor permanece na parte escura
Dos olhos da alma: o DNA das coisas
E das vidas unidas aos pedaços.

Estamos nessa nuvem perdida
Entre céus de cometas e asteróides.

Assim, quanto espero do amor:
Posso nem vê-lo, menos alcançá-lo?
Devo esperar não perder a espera
Mais a esperança.
Sem entender, e isto já eleva.

Todos deveriam estar contentes consigo
E o mundo jamais ia parar. Nem doer.

______________
*Poeta brasileiro, com vários livros publicados.
 Endereços:
 e-mail:franciscomigueldemoura@gmail.com
Av. Rio Poty, 1870 – Ap. 603
64049-410 – Teresina, Piauí - Brazil

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

SELEÇÃO DE POEMAS ESCOLHIDOS

*Francisco Miguel de Moura
                   
BORBOLETA

Desejos fulminantes despertaram
na hora em que o jardim se pôs:
Borboletear a sina,
beijar, sugando amáveis bordas,
sugar profundos cálices,
hímens deflorar.
Bela, bela...
Não há feio quando é fim.

Aqui estás... Aqui o prazo
de duas vidas contínuas:
Último vôo entre espinho
e flor!

Dormir, não acordar,
antegozando a dor da noite funda.

Mais uma vez uma esperança nasce.

SER BRASILEIRO

Quero ser brasileiro
me procuro no campo
de futebol e na pista de automóvel,
estou aqui, ali, acolá, além de lá,
mas não sou Deus nem diabo,
como o pão que ele amassou.
Sou vadio, não faço nada,
só samba e carnaval.
Samba, ora samba?
Carnaval, ora carnaval?
Eu queria encontrar-me brasileiro
na cor, no amor, na paixão.
No trabalho, neste não.
Brasileiro em todo lugar,
de todas as formas,
sem caráter nenhum.

Corri mundo e não me encontro:
Europa, Oceania e África,
Ilhas do Pacífico e Ásia, fui até o Himalaia
e não encontrei Brasil nem brasileiro.

Disseram que ele se chama Washington,
foi pra América, falar inglês
e nunca voltará.

Como é difícil ser brasileiro!

CHEGA O TEMPO

chega o tempo de dizer-se
 o que não se ouviu.

mas as palavras são mistérios
           nem mais soam
           como os sinos
                       nos nossos ouvidos
                       sonolentos

chega um tempo de dizer-se o impossível
e o impossível já foi dito

chega um tempo de calar
e a gente inventa uma maneira triste
de dizer numa língua estranha
um silêncio amordaçado.

SÓ-SÓ-SÓ...

há tempo desci sem projeto
ao inferno de mim mesmo
e descobri-me
o terremoto das almas.

busquei a paz dos anjos coxos
de asas partidas, ventas quebradas.

e entre reticências e grifos
minha sofreguidão
comprazia os deuses.

o grito de minha carne
tomba lá embaixo:
face retorcida, olhos afogueados
dentes pelos cabelos.

não duvidei da eternidade:
foi tenra idade (e pouco siso?)
e o meu começo do fim.

e há minutos perdia o céu
quase de todo impossível.

ÊXTASE E SUOR

Sou perfume de mim e odor do mundo
para que a terra me cuspa.
O sopro que me der
me enterrará fundo,
frio de fazer corpo e alma se unirem.
E ao infinito e à luz,
que meu suor
jamais sirva de foice ou gume.

A dor com que me cortam
com  explosão
seja lembrada em mansa contramão.

Ao meu último perfume, o mundo furta
a cor e deita
maus bocados ao cão que ama.

Deito-me agora em êxtase de fé,
levando o vento limpo à pele e ao imo
pela mão.

 FEITIÇO CAPITAL

A máquina engole o ar da sala,
anula a persona
toma o espaço e a luz das palavras.

Séculos de poder, ciência, escravidão
e glória (talvez  prisão)
para não mais dizer-se.

O espectro é um silumacro,
nem oratório nem oráculo,
donde a voz de Deus não soará,
mas o tom  do mercado
e a sombra do dragão devorador.

Ditará a solidão aos homens,
às casas de um só,
às almas opressas na multidão.

TROVANDO O TEMPO

O tempo é meu grande apelo:
Não tem começo nem fim:
Enquanto eu passo sem vê-lo,
Ele me vê sempre a mim.

Posso fazer o que é dele
E ele vai passando assim:
Enquanto não penso nele,
Ele só pensa em meu fim.

A vida é morte, mas ele
Não tem começo nem fim.
Sem o meio – meu e dele,
O que seria de  mim?

Tudo isto é muito belo,
Vivendo tim por tintim,
Portanto, perder seu elo,
Seria muito ruim.

Porém se perco este anelo,
Faço o crime de Caím:
Enquanto o mato, ele é belo,
Mas, se me mata, ai de mim!

Vou terminar por aqui,
Pois que isto não tem fim:
Eu só vou até ali,
Mas ele diz: Sou assim!

Se és assim  ou  assado,
Tempo, faz algo por mim:
Sem presente nem passado,
Dá-me a lâmpada, Aladim!


TROCA D'OLHOS

              para fernanda

Estranhou meus olhos
Como eu sou estranho!
- “Quando morreres
Dá-me os teus azuis
De que tanto gosto
Em troca escolhe algo
Do que me aprecias
No meu jeito. E folgo”

Sem titubear disse:
- “Quero a tua boca
Para rir tão bem
Do que tanto gosto
Ficarás mais doce
Ficarei mais doce”

Se a morte  não veio
Somente no Além
Nós nos cobraremos:
-“ Cadê minha boca”?
- “E cadê meus olhos?
Quão estranha troca
Entre almas e corpos!

O OLHO E O SÊMEN

O sêmen nascente
é quando o ver fêmeo
sobrevoa o mundo.

Só o  olhar-pássaro,
em vôo cortante,
enxerga a semente.

E o pássaro, a um  passo
do  praça, vê os laços:
Menino, semente e fio.

A pomba enlarguece
as penas, e sorri,
enlanguece, dormir...
No prato, abelha e mel,
o olho do macho nasce
voa, revoa –  zumbi.

Branco, amarelo, cinzento,
o céu do sêmen se  embaça
quando a força do olho se exila.

LEMBRANÇA

No cheiro do café daquela manhã
havia um beijo ainda vermelho,
com gosto de beiju e carne,
arrepiando a língua e a suavidade da pele.
Agora é só lembrança de desejos,
frenesi, captura do ar... arr...
de quando teus olhos se fechavam
para o mundo
e os meus se abriam
a tão passageiro amor.
As folhas já caíram, todas as folhas caem,
mas logo renascerão com o cheiro de antes
nem que só por um instante.

DO VÁRIO SENTIR

Ouvir sem olhos abertos,
saber da pele sem mão,
achar a língua sem dente,
ver pelo espelho da mente
onde a fé nunca se extingue.

Viver carícias passadas,
olhos secos ou magoados,
gozos santos, gostos mil...
Castigos na calma noite?
Só havendo dois amigos
para a dor não ser açoite.

Nas distâncias e no perto
a luz que ajunta, separa.
Claro do claro inda é cor.
No escuro, quem não se ampara?

Ah se as idéias e idades
fossem nossas, de verdade,
e unidas no tom da vida!

Carne e sangue em desalinho
venceriam descaminhos
nas horas desimpedidas.
                                               
LOAS A TRÊS AMORES
             
              I   

Vinha andando rua acima,
vi um pé de bogari,
a flor branquinha sorria.
Com o olhar azul do céu.
cheiro tão grande senti.
Lembrei-me de Mariana,
minha neta da Bahia,
cheirei tanto e de cheirar
quase que me entonteci.
Mariana é a beleza
do Piauí à Bahia
Para mim já é a misse
que quer o meu coração.
Se  for coroada um dia,
vão ver que eu tinha razão.
          
          II

Aqui lembrei de Davi,
menino mais buliçoso,
inteligente e magrelo,
mas amigo e carinhoso.
Sei, é um poeta do amor,
igual ao outro da Bíblia,
pra consolar com seus salmos
nossas angústias aqui.
Quem sabe, Nosso Senhor,
através do seu amor,
ajudará as conquistas
de tudo quanto a mãe sonha,
de tudo que o pai sonhou.
                   III

Não esqueci o Luquinha,
nem podia me esquecer,
que é sempre um mensageiro
de boa vontade e valor.
Já falei noutro poema
Dele – “um gato”, sim senhor,
Gosta dos pais e resolve
tudo  no computador.
Escoteiro aprende muito,
tem muita força e vigor,
E será sempre bonzinho.
Neto querido do avô.

A PARTIDA

Na partida os adeuses, gume e corte
dos prazeres do amor, quanto tormento!
Cada qual que demonstre quanto é forte,
lábios secos mordendo o sentimento.

Do ser brotam soluços a toda hora,
as faces no calor do perdimento,
olhos no chão, no ar, por dentro e fora,
pedem aos céus a força e o alimento.

Ninguém vai, ninguém fica, e se reparte
no transporte que liga e que desliga,
confusão de saber quem fica ou parte.

Não se explica tamanha intensidade
amarga e doce, e errante, que desliga
os corações perdidos de saudade.

____________________
*Francisco Miguel de Moura, poeta brasileiro, mora em Teresina, PI, Brasil, onde construiu e publicou a maioria de suas obras, em torno de 33, a partir de "Areias", 1966, até  "O Menino quase perdido", 2011.

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