Mostrando postagens com marcador *Rio de Janeiro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador *Rio de Janeiro. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 29 de março de 2013

CINCO POEMAS DE OLGA SAVARY


CINCO POEMAS DE OLGA*    

Tranqüilidade na tarde
                    A Liene T. Eiten

Ah, derramar-me líquida sobre o mar
– ser onda indefinidamente –
esperar pela primeira estrela
e dela ser apenas
espelho.

Quero apenas


Além de mim, quero apenas
essa tranqüilidade de campos de flores
e este gesto impreciso
recompondo a infância.
Além de mim
– e entre mim e meu deserto –
quero apenas silêncio,
cúmplice absoluto do meu verso,
tecendo a teia do vestígio
com cuidado de aranha.

Água água

Menina sublunar, afogada,
que voz de prata te embala
toda desfolhada?
Tendo como um só adorno
o anel de seus vestidos,
ela própria é quem se encanta
numa canção de acalanto
presa ainda na garganta


Pedido
        A Manuel Bandeira

Quando eu estiver mais triste
mas triste de não ter jeito,
quando atormentados morcegos
– um no cérebro outro no peito –
me apunhalarem de asas
e me cobrirem de cinza,
vem ensaiando de leve
leve linguagem de flores.
Traze-me a cor arroxeada
daquela montanha – lembra?
que cantaste num poema.
Traze-me um pouco de mar
ensaiando-se em acalanto
na líquida ternura
que tanto já me embalou.
Meu velho poeta canta
um canto que me adormeça
nem que seja de mentira.

Liberdade
      A Carlos Scliar

Desligada
O vento morde meus cabelos sem medo:
Tenho todas as idades.
   ____________________________________________________________

*Olga Savary, escritora, tradutora e jornalista, mora no Rio de Janeiro.. Tem 20 livros de poesia e ficção, pessoais, e mais de 980 coletivos (centenas de antologias que organizou e integrou, no Brasil e no exterior).  Convidada, é a única escritora a constar da antologia Poesia da América Latina (entre apenas 18 poetas, entre os quais dois “Prêmios Nobel”: Neruda e Octavio Paz, editada na Holanda, em 1994). Integra as antologias Os Cem Melhores Contos do Século e Os Cem Melhores Poemas do Século (Rio de Janeiro, Objetiva, 2000). Recebeu mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de poesia, conto, romance, crítica, ensaio, tradução e jornalismo (3 “Jabuti”, vários “Prêmio UBE-RJ”, “UBE-SP”, vários “Prêmios da Academia Brasileira de Letras”, nas várias áreas literárias, inclusive o “Prêmio Machado de Assis para Conjunto de Obra”, o “Prêmio Internacional Brasil-América Hispânica para Poesia”, etc.). É pioneira em publicar haicais no Brasil, no início da década de 1940, menina ainda, e depois em divulgar e traduzir os clássicos japoneses do haicai. Pioneira também em publicar o considerado 1º livro todo em tema erótico no Brasil e em ter organizado a 1ª antologia de poesia erótica. E em utilizar palavras do idioma tupi em tudo o que escreve, seja poesia, conto, romance, crítica literária e de artes, e ensaio. Tem mais de 10 livros no prelo e a sair. Pelos editores com os quais trabalha no Brasil e no exterior, mais os apreciadores de sua obra, está colocada em mais de 300.000 sites.

_________________________
Nota: Os poemas acima foram copiados do site www. wikipedia e foto colhida na internete (google), por Francisco Miguel de Moura.
         

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

OSCAR NIEMEYER (1907/ 2012)

COM PRETEXTOS
                              
*Francisco Miguel de Moura 
 escritor
         

 Não há pretexto melhor para uma crônica do que a morte de um homem simples e genial, que tinha suas próprias convicções, mas nunca foi político nem escreveu livros, exceto “Minha experiência em Brasília”, depois de ter colocado na prancheta o projeto da cidade mais original e mais moderna que existe no mundo. A corrupção política não chegará ao cúmulo de corromper ou fazer ficar esquecida essa obra gigantesca da arte, no mundo contemporâneo. Editores, estão dormindo? Sonhando com vampiros? Acordem.
            Brincando comigo mesmo, digo que minha meta de vida é a do Niemeyer: viver muito e produzir mais e melhor. Bem que eu gostaria de escrever algo daqui para frente muito melhor do que já escrevi. Também fazer como o Oscar Niemeyer: Não misturar ideologia com arte. Pouca coisa se escreveu sobre ele, salvo as entrevistas, uma ou outra notícia que se tornaram manchetes de jornais e revistas. Mas o suficiente para ter uma ideia de sua biografia pode ser encontrado na internet/wikipedia. Neste país se escreve tanto sobre políticos e políticas que dá nojo. Até sobre uma Sra. Zélia de Tal (que não pode ser a escritora Zélia Gatai), e sim aquela que foi ministra do Color, rechassado do poder por causa da prepotência e da corrupção. Já escreveram livros até sobre o Lula, repetindo tolices publicadas na imprensa. Tem gente querendo que ele seja intocável, um ídolo, um santo, com uma estátua na praça, só porque ele disse “nunca ninguém antes, neste país...” como se o Brasil tivesse começado com ele e os petistas.  A frase, eu completaria apenas assim: “Nunca antes, neste país, um governante eleito conseguiu juntar tanta gente ruim na cúpula e na formação do governo como ele fez. Quem não assistiu e está assistindo até o último momento ao “julgamento do mensalão”? Graças ao Poder Judiciário, que, apesar de ter seus membros nomeados pelo Executivo, não se corrompeu”. Foram só alguns que deixaram rastros, outros ou muito mais poderiam ser enquadrados. E o próprio Lula, ficou de fora (até agora), porque “não sabia de nada, não viu nada”... Quem acredita nisto? 
    Fala-se mal de Fernando Henrique, que não foi tão ruim e não precisa ser “demonizado”. Mas ninguém fala em Juscelino Kubtschek, o construtor de estradas, o desbravador do Planalto Central, criador de Brasília para ser a nova Capital do Brasil, com a grande, imensa ajuda artística de Niemeyer. Foi assim: - Oscar Niemeyer e Juscelino tornaram-se amigos desde quando este era Prefeito de Belo Horizonte. Daí, praticamente começou a parceria artístico/política. Nosso Oscar Niemeyer já havia realizado o prédio do Ministério da Educação, no Rio, concluído em 1945, a primeira obra inovadora da arquitetura contemporânea. Nos anos 1940, sendo prefeito de Belo Horizonte o Dr. Juscelino Kubtschek de Oliveira (este que se tornaria, mais tarde, o melhor Presidente do Brasil), encomendou a Niemeyer o desenho do conjunto arquitetônico da Pampulha.  Começara ali a bela parceria cujo alto momento foi Brasília, nos anos 1960. “Niemeyer foi o arquiteto que inventou o Brasil na ponta dos dedos”, até mesmo alguns severos críticos admitem esta verdade, registra a revista VEJA (ed. de 12-12-2012).  Desde o início suas obras foram influenciadas por seu mestre franco-suíço Le Corbusier. A essa influência, o mestre Oscar Niemeyer acrescentou sabiamente a linha curva, em cuja direção fez milagres.
    “A vida pode mudar a arquitetura. No dia em que o mundo for mais justo ela será mais simples.” Esta frase representa bem sua ideologia política: o humanismo, justiça e liberdade.  No fundo, Kubitschek também queria a mesma a coisa, tinha os mesmos princípios aos quais aliava, à fé, a força e a ousadia. Queriam justiça, não por cima, nem por baixo, mas para todos, pelo meio. Basta olhar-se a igualdade dos prédios de apartamento do Plano Piloto, para que tenhamos a prova.  Para fazer o país mudar, em apenas CINCO anos, construiu estradas, rompeu com o FMI e levantou Brasília no barro vermelho do solitário Planalto Central. Empregou muita gente. Não deu esmolas. Era um homem simples, perdoava os seus perseguidores (e teve alguns): Mandava prendê-los hoje e amanhã já os soltava, perdoando a todos. Nunca mais tivemos um Presidente como ele. E talvez demore muito, por causa dos desmandos da era “petê”. Como também ninguém sabe quando virá um artista inventivo, genial, como Oscar Niemeyer, com suas linhas curvas. E aqui, eu, como um simples observador da natureza, não acredito que haja linha reta, todas são curvas no universo. O que chamam de linha reta são apenas pontos iguais, na mesma direção, como se fossem soldados em fila, de prontidão, ou mendigos em busca de alguma esmola. Todos os grandes artistas são curvos, tortos como o anjo de Drummond, também nosso maior poeta do século XX. 
    Eis a obra de Oscar Niemeyer, o mestre de toda uma geração: “Todos os mais de 600 prédios, palácios, residências, templos e monumentos assinados por ele, em 15 países. Ficarão como marcas indeléveis do que houve de belo no séc. XX, um tempo sangrento de duas guerras mundiais, do embate de morte entre duas concepções de mundo, o capitalismo e o comunismo defendidos ferozmente por arsenais nucleares de lado a lado que, combinados poderiam destruir o planeta Terra milhares de vezes. Niemeyer nunca teve dúvida qual era o seu lado. Sempre foi comunista” (Gabriela Carelli, VEJA, 12-12-2012). Ora, naquele tempo, quem não era comunista, sobrava a pecha de ser fascista, estar do lado de Hitler. O homem é sua vida, seu tempo e sua obra. Revolucionário na obra - na vida foi um cidadão pacato, comum, sem marcas que desmintam o homem direito que foi. Sabia distinguir as teorias, a política e a arte. Normalmente aqueles que assim não agem terminam por arrepender-se. Niemeyer não se perturbava com a rotineira pergunta da imprensa: “Você é comunista?” Desde os anos 1960 até a morte, respondia “sim” e acrescentava: “Estou velho demais para mudar”.
_________________
*Francisco Miguel de Moura – escritor, membro da Academia Piauiense de Letras, reside em Teresina, PI, e é também membro da IWA -International Writers and Artists Association - Estados Unidos.

terça-feira, 10 de julho de 2012

“O SOCIALISMO É UMA DOUTRINA TRIUNFANTE”

Antonio Candido de Mello*

Aos 93 anos, Antonio Candido explica a sua concepção de socialismo, fala sobre literatura e revela não se interessar por novas obras.

Crítico literário, professor, sociólogo, militante. Um adjetivo sozinho não consegue definir a importância de Antonio Candido para o Brasil. Considerado um dos principais intelectuais do país, ele mantém a postura socialista, a cordialidade, a elegância, o senso de humor, o otimismo. Antes de começar nossa entrevista, ele diz que viveu praticamente todo o conturbado século 20. E participou ativamente dele, escrevendo, debatendo, indo a manifestações, ajudando a dar lucidez, clareza e humanidade a toda uma geração de alunos, militantes sociais, leitores e escritores.
Tão bom de prosa como de escrita, ele fala sobre seu método de análise literária, dos livros de que gosta, da sua infância, do começo da sua militância, da televisão, do MST, da sua crença profunda no socialismo como uma doutrina triunfante. “O que se pensa que é a face humana do capitalismo é o que o socialismo arrancou dele”, afirma.

Brasil de Fato – Nos seus textos é perceptível a intenção de ser entendido. Apesar de muito erudito, sua escrita é simples. Por que esse esforço de ser sempre claro?

Antonio Candido – Acho que a clareza é um respeito pelo próximo, um respeito pelo leitor. Sempre achei, eu e alguns colegas, que, quando se trata de ciências humanas, apesar de serem chamadas de ciências, são ligadas à nossa humanidade, de maneira que não deve haver jargão científico. Posso dizer o que tenho para dizer nas humanidades com a linguagem comum. Já no estudo das ciências humanas eu preconizava isso. Qualquer atividade que não seja estritamente técnica, acho que a clareza é necessária inclusive para poder divulgar a mensagem, a mensagem deixar de ser um privilégio e se tornar um bem comum.

Brasil de Fato – O seu método de análise da literatura parte da cultura para a realidade social e volta para a cultura e para o texto. Como o senhor explicaria esse método?

Antonio Candido – Uma coisa que sempre me preocupou muito é que os teóricos da literatura dizem: é preciso fazer isso, mas não fazem. Tenho muita influência marxista – não me considero marxista – mas tenho muita influência marxista na minha formação e também muita influência da chamada escola sociológica francesa, que geralmente era formada por socialistas. Parti do seguinte princípio: quero aproveitar meu conhecimento sociológico para ver como isso poderia contribuir para conhecer o íntimo de uma obra literária. No começo eu era um pouco sectário, politizava um pouco demais minha atividade. Depois entrei em contato com um movimento literário norte-americano, a nova crítica, conhecido como new criticism. E aí foi um ovo de colombo: a obra de arte pode depender do que for, da personalidade do autor, da classe social dele, da situação econômica, do momento histórico, mas quando ela é realizada, ela é ela. Ela tem sua própria individualidade. Então a primeira coisa que é preciso fazer é estudar a própria obra. Isso ficou na minha cabeça. Mas eu também não queria abrir mão, dada a minha formação, do social. Importante então é o seguinte: reconhecer que a obra é autônoma, mas que foi formada por coisas que vieram de fora dela, por influências da sociedade, da ideologia do tempo, do autor. Não é dizer: a sociedade é assim, portanto a obra é assim. O importante é: quais são os elementos da realidade social que se transformaram em estrutura estética. Me dediquei muito a isso, tenho um livro chamado “Literatura e sociedade” que analisa isso. Fiz um esforço grande para respeitar a realidade estética da obra e sua ligação com a realidade. Há certas obras em que não faz sentido pesquisar o vínculo social porque ela é pura estrutura verbal. Há outras em que o social é tão presente – como “O cortiço” [de Aluísio Azevedo] – que é impossível analisar a obra sem a carga social. Depois de mais maduro minha conclusão foi muito óbvia: o crítico tem que proceder conforme a natureza de cada obra que ele analisa. Há obras que pedem um método psicológico, eu uso; outras pedem estudo do vocabulário, a classe social do autor; uso. Talvez eu seja aquilo que os marxistas xingam muito que é ser eclético. Talvez eu seja um pouco eclético, confesso. Isso me permite tratar de um número muito variado de obras.

Brasil de Fato – Teria um tipo de abordagem estética que seria melhor?

Antonio Candido – Não privilegio. Já privilegiei. Primeiro o social, cheguei a privilegiar mesmo o político. Quando eu era um jovem crítico eu queria que meus artigos demonstrassem que era um socialista escrevendo com posição crítica frente à sociedade. Depois vi que havia poemas, por exemplo, em que não podia fazer isso. Então passei a outra fase em que passei a priorizar a autonomia da obra, os valores estéticos. Depois vi que depende da obra. Mas tenho muito interesse pelo estudo das obras que permitem uma abordagem ao mesmo tempo interna e externa. A minha fórmula é a seguinte: estou interessado em saber como o externo se transformou em interno, como aquilo que é carne de vaca vira croquete. O croquete não é vaca, mas sem a vaca o croquete não existe. Mas o croquete não tem nada a ver com a vaca, só a carne. Mas o externo se transformou em algo que é interno. Aí tenho que estudar o croquete, dizer de onde ele veio.

Brasil de Fato – O que é mais importante ler na literatura brasileira?

Antonio Candido – Machado de Assis. Ele é um escritor completo.

Brasil de Fato – É o que senhor mais gosta?

Antonio Candido – Não, mas acho que é o que mais se aproveita.

Brasil de Fato – E de qual o senhor mais gosta?

Antonio Candido – Gosto muito do Eça de Queiroz, muitos estrangeiros. De brasileiros, gosto muito de Graciliano Ramos… Acho que já li “São Bernardo” umas 20 vezes, com mentira e tudo. Leio o Graciliano muito, sempre. Mas Machado de Assis é um autor extraordinário. Comecei a ler com 9 anos livros de adulto. E ninguém sabia quem era Machado de Assis, só o Brasil e, mesmo assim, nem todo mundo. Mas hoje ele está ficando um autor universal. Ele tinha a prova do grande escritor. Quando se escreve um livro, ele é traduzido, e uma crítica fala que a tradução estragou a obra, é porque não era uma grande obra. Machado de Assis, mesmo mal traduzido, continua grande. A prova de um bom escritor é que mesmo mal traduzido ele é grande. Se dizem: “a tradução matou a obra”, então a obra era boa, mas não era grande.

Brasil de Fato – Como levar a grande literatura para quem não está habituado com a leitura?

Antonio Candido – É perfeitamente possível, sobretudo Machado de Assis. A Maria Vitória Benevides me contou de uma pesquisa que foi feita na Itália há uns 30 anos. Aqueles magnatas italianos, com uma visão já avançada do capitalismo, decidiram diminuir as horas de trabalho para que os trabalhadores pudessem ter cursos, se dedicar à cultura. Então perguntaram: cursos de que vocês querem? Pensaram que iam pedir cursos técnicos, e eles pediram curso de italiano para poder ler bem os clássicos. “A divina comédia” é um livro com 100 cantos, cada canto com dezenas de estrofes. Na Itália, não sou capaz de repetir direito, mas algo como 200 mil pessoas sabem a primeira parte inteira, 50 mil sabem a segunda, e de 3 a 4 mil pessoas sabem o livro inteiro de cor. Quer dizer, o povo tem direito à literatura e entende a literatura. O doutor Agostinho da Silva, um escritor português anarquista que ficou muito tempo no Brasil, explicava para os operários os diálogos de Platão, e eles adoravam. Tem que saber explicar, usar a linguagem normal.

Brasil de Fato – O senhor acha que o brasileiro gosta de ler?

Antonio Candido – Não sei. O Brasil pra mim é um mistério. Tem editora para toda parte, tem livro para todo lado. Vi uma reportagem que dizia que a cidade de Buenos Aires tem mais livrarias que em todo o Brasil. Lê-se muito pouco no Brasil. Parece que o povo que lê mais é o finlandês, que lê 30 volumes por ano. Agora dizem que o livro vai acabar, né?

Brasil de Fato – O senhor acha que vai?

Antonio Candido – Não sei. Eu não tenho nem computador… as pessoas me perguntam: qual é o seu… como chama?

Brasil de Fato – E-mail?

Antonio Candido – Isso! Olha, eu parei no telefone e máquina de escrever. Não entendo dessas coisas… Estou afastado de todas as novidades há cerca de 30 anos. Não me interesso por literatura atual. Sou um velho caturra. Já doei quase toda minha biblioteca, 14 ou 15 mil volumes. O que tem aqui é livro para visita ver. Mas pretendo dar tudo. Não vendo livro, eu dou. Sempre fiz escola pública, inclusive universidade pública, então é o que posso dar para devolver um pouco. Tenho impressão que a literatura brasileira está fraca, mas isso todo velho acha. Meus antigos alunos que me visitam muito dizem que está fraca no Brasil, na Inglaterra, na França, na Rússia, nos Estados Unidos… que a literatura está por baixo hoje em dia. Mas eu não me interesso por novidades.

Brasil de Fato – E o que o senhor lê hoje em dia?

Antonio Candido – Eu releio. História, um pouco de política… mesmo meus livros de socialismo eu dei tudo. Agora estou querendo reler alguns mestres socialistas, sobretudo Eduard Bernstein, aquele que os comunistas tinham ódio. Ele era marxista, mas dizia que o marxismo tem um defeito, achar que a gente pode chegar no paraíso terrestre. Então ele partiu da ideia do filósofo Immanuel Kant da finalidade sem fim. O socialismo é uma finalidade sem fim. Você tem que agir todos os dias como se fosse possível chegar no paraíso, mas você não chegará. Mas se não fizer essa luta, você cai no inferno.

Brasil de Fato – O senhor é socialista?

Antonio Candido – Ah, claro, inteiramente. Aliás, eu acho que o socialismo é uma doutrina totalmente triunfante no mundo. E não é paradoxo. O que é o socialismo? É o irmão-gêmeo do capitalismo, nasceram juntos, na revolução industrial. É indescritível o que era a indústria no começo. Os operários ingleses dormiam debaixo da máquina e eram acordados de madrugada com o chicote do contramestre. Isso era a indústria. Aí começou a aparecer o socialismo. Chamo de socialismo todas as tendências que dizem que o homem tem que caminhar para a igualdade e ele é o criador de riquezas e não pode ser explorado. Comunismo, socialismo democrático, anarquismo, solidarismo, cristianismo social, cooperativismo… tudo isso [Grifo AA]. Esse pessoal começou a lutar, para o operário não ser mais chicoteado, depois para não trabalhar mais que doze horas, depois para não trabalhar mais que dez, oito; para a mulher grávida não ter que trabalhar, para os trabalhadores terem férias, para ter escola para as crianças. Coisas que hoje são banais. Conversando com um antigo aluno meu, que é um rapaz rico, industrial, ele disse: “o senhor não pode negar que o capitalismo tem uma face humana”. O capitalismo não tem face humana nenhuma. O capitalismo é baseado na mais-valia e no exército de reserva, como Marx definiu. É preciso ter sempre miseráveis para tirar o excesso que o capital precisar. E a mais-valia não tem limite. Marx diz na “Ideologia Alemã”: as necessidades humanas são cumulativas e irreversíveis. Quando você anda descalço, você anda descalço. Quando você descobre a sandália, não quer mais andar descalço. Quando descobre o sapato, não quer mais a sandália. Quando descobre a meia, quer sapato com meia e por aí não tem mais fim. E o capitalismo está baseado nisso. O que se pensa que é face humana do capitalismo é o que o socialismo arrancou dele com suor, lágrimas e sangue. Hoje é normal o operário trabalhar oito horas, ter férias… tudo é conquista do socialismo. O socialismo só não deu certo na Rússia.

Brasil de Fato – Por quê?

Antonio Candido – Virou capitalismo. A revolução russa serviu para formar o capitalismo. O socialismo deu certo onde não foi ao poder. O socialismo hoje está infiltrado em todo lugar.

Brasil de Fato – O socialismo como luta dos trabalhadores?

Antonio Candido – O socialismo como caminho para a igualdade. Não é a luta, é por causa da luta. O grau de igualdade de hoje foi obtido pelas lutas do socialismo. Portanto ele é uma doutrina triunfante. Os países que passaram pela etapa das revoluções burguesas têm o nível de vida do trabalhador que o socialismo lutou para ter, o que quer. Não vou dizer que países como França e Alemanha são socialistas, mas têm um nível de vida melhor para o trabalhador.

Brasil de Fato – Para o senhor é possível o socialismo existir triunfando sobre o capitalismo?

Antonio Candido – Estou pensando mais na técnica de esponja. Se daqui a 50 anos no Brasil não houver diferença maior que dez do maior ao menor salário, se todos tiverem escola… não importa que seja com a monarquia, pode ser o regime com o nome que for, não precisa ser o socialismo! Digo que o socialismo é uma doutrina triunfante porque suas reivindicações estão sendo cada vez mais adotadas. Não tenho cabeça teórica, não sei como resolver essa questão: o socialismo foi extraordinário para pensar a distribuição econômica, mas não foi tão eficiente para efetivamente fazer a produção. O capitalismo foi mais eficiente, porque tem o lucro. Quando se suprime o lucro, a coisa fica mais complicada. É preciso conciliar a ambição econômica – que o homem civilizado tem, assim como tem ambição de sexo, de alimentação, tem ambição de possuir bens materiais – com a igualdade. Quem pode resolver melhor essa equação é o socialismo, disso não tenho a menor dúvida. Acho que o mundo marcha para o socialismo. Não o socialismo acadêmico típico, a gente não sabe o que vai ser… o que é o socialismo? É o máximo de igualdade econômica. Por exemplo, sou um professor aposentado da Universidade de São Paulo e ganho muito bem, ganho provavelmente 50, 100 vezes mais que um trabalhador rural. Isso não pode. No dia em que, no Brasil, o trabalhador de enxada ganhar apenas 10 ou 15 vezes menos que o banqueiro, está bom, é o socialismo.

Brasil de Fato – O que o socialismo conseguiu no mundo de avanços?

Antonio Candido – O socialismo é o cavalo de Troia dentro do capitalismo. Se você tira os rótulos e vê as realidades, vê como o socialismo humanizou o mundo. Em Cuba eu vi o socialismo mais próximo do socialismo. Cuba é uma coisa formidável, o mais próximo da justiça social. Não a Rússia, a China, o Camboja. No comunismo tem muito fanatismo, enquanto o socialismo democrático é moderado, é humano. E não há verdade final fora da moderação, isso Aristóteles já dizia, a verdade está no meio. Quando eu era militante do PT – deixei de ser militante em 2002, quando o Lula foi eleito – era da ala do Lula, da Articulação, mas só votava nos candidatos da extrema esquerda, para cutucar o centro. É preciso ter esquerda e direita para formar a média. Estou convencido disso: o socialismo é a grande visão do homem, que não foi ainda superada, de tratar o homem realmente como ser humano. Podem dizer: a religião faz isso. Mas faz isso para os que são adeptos dela, o socialismo faz isso para todos. O socialismo funciona como esponja: hoje o capitalismo está embebido de socialismo. No tempo que meu irmão Roberto – que era católico de esquerda – começou a trabalhar, eu era moço, ele era tido como comunista, por dizer que no Brasil tinha miséria. Dizer isso era ser comunista, não estou falando em metáforas. Hoje, a Federação das Indústrias, Paulo Maluf, eles dizem que a miséria é intolerável. O socialismo está andando… não com o nome, mas aquilo que o socialismo quer, a igualdade, está andando. Não aquela igualdade que alguns socialistas e os anarquistas pregavam, igualdade absoluta é impossível. Os homens são muito diferentes, há uma certa justiça em remunerar mais aquele que serve mais à comunidade. Mas a desigualdade tem que ser mínima, não máxima. Sou muito otimista. (pausa). O Brasil é um país pobre, mas há uma certa tendência igualitária no brasileiro – apesar da escravidão – e isso é bom. Tive uma sorte muito grande, fui criado numa cidade pequena, em Minas Gerais, não tinha nem 5 mil habitantes quando eu morava lá. Numa cidade assim, todo mundo é parente. Meu bisavô era proprietário de terras, mas a terra foi sendo dividida entre os filhos… então na minha cidade o barbeiro era meu parente, o chofer de praça era meu parente, até uma prostituta, que foi uma moça deflorada expulsa de casa, era minha prima. Então me acostumei a ser igual a todo mundo. Fui criado com os antigos escravos do meu avô. Quando eu tinha 10 anos de idade, toda pessoa com mais de 40 anos tinha sido escrava. Conheci inclusive uma escrava, tia Vitória, que liderou uma rebelião contra o senhor. Não tenho senso de desigualdade social. Digo sempre, tenho temperamento conservador. Tenho temperamento conservador, atitudes liberais e ideias socialistas. Minha grande sorte foi não ter nascido em família nem importante nem rica, senão ia ser um reacionário. (risos).

Brasil de Fato – A Teresina, que inspirou um livro com seu nome, o senhor conheceu depois?

Antonio Candido – Conheci em Poços de Caldas… essa era uma mulher extraordinária, uma anarquista, maior amiga da minha mãe. Tenho um livrinho sobre ela. Uma mulher formidável. Mas eu me politizei muito tarde, com 23, 24 anos de idade com o Paulo Emílio. Ele dizia: “é melhor ser fascista do que não ter ideologia”. Ele que me levou para a militância. Ele dizia com razão: cada geração tem o seu dever. O nosso dever era político.

Brasil de Fato – E o dever da atual geração?

Antonio Candido – Ter saudade. Vocês pegaram um rabo de foguete danado.

Brasil de Fato – No seu livro “Os parceiros do Rio Bonito” o senhor diz que é importante defender a reforma agrária não apenas por motivos econômicos, mas culturalmente. O que o senhor acha disso hoje?

Antonio Candido – Isso é uma coisa muito bonita do MST. No movimento das Ligas Camponesas não havia essa preocupação cultural, era mais econômica. Acho bonito isso que o MST faz: formar em curso superior quem trabalha na enxada. Essa preocupação cultural do MST já é um avanço extraordinário no caminho do socialismo. É preciso cultura. Não é só o livro, é conhecimento, informação, notícia… Minha tese de doutorado em ciências sociais foi sobre o camponês pobre de São Paulo – aquele que precisa arrendar terra, o parceiro. Em 1948, estava fazendo minha pesquisa num bairro rural de Bofete e tinha um informante muito bom, Nhô Samuel Antônio de Camargos. Ele dizia que tinha mais de 90 anos, mas não sabia quantos. Um dia ele me perguntou: “ô seu Antonio, o imperador vai indo bem? Não é mais aquele de barba branca, né?”. Eu disse pra ele: “não, agora é outro chamado Eurico Gaspar Dutra”. Quer dizer, ele está fora da cultura, para ele o imperador existe. Ele não sabe ler, não sabe escrever, não lê jornal. A humanização moderna depende da comunicação em grande parte. No dia em que o trabalhador tem o rádio em casa ele é outra pessoa. O problema é que os meios modernos de comunicação são muito venenosos. A televisão é uma praga. Eu adoro, hein? Moro sozinho, sozinho, sou viúvo e assisto televisão. Mas é uma praga. A coisa mais pérfida do capitalismo – por causa da necessidade cumulativa irreversível – é a sociedade de consumo. Marx não conheceu, não sei como ele veria. A televisão faz um inculcamento sublimar de dez em dez minutos, na cabeça de todos – na sua, na minha, do Sílvio Santos, do dono do Bradesco, do pobre diabo que não tem o que comer – imagens de whisky, automóvel, casa, roupa, viagem à Europa – cria necessidades. E claro que não dá condições para concretizá-las. A sociedade de consumo está criando necessidades artificiais e está levando os que não têm ao desespero, à droga, miséria… Esse desejo da coisa nova é uma coisa poderosa. O capitalismo descobriu isso graças ao Henry Ford. O Ford tirou o automóvel da granfinagem e fez carro popular, vendia a 500 dólares. Estados Unidos inteiro começou a comprar automóvel, e o Ford foi ficando milionário. De repente o carro não vendia mais. Ele ficou desesperado, chamou os economistas, que estudaram e disseram: “mas é claro que não vende, o carro não acaba!”. O produto industrial não pode ser eterno. O produto artesanal é feito para durar, mas o industrial não, ele tem que ser feito para acabar, essa é coisa mais diabólica do capitalismo. E o Ford entendeu isso, passou a mudar o modelo do carro a cada ano. Em um regime que fosse mais socialista seria preciso encontrar uma maneira de não falir as empresas, mas tornar os produtos duráveis, acabar com essa loucura da renovação. Hoje um automóvel é feito para acabar, a moda é feita para mudar. Essa ideia tem como miragem o lucro infinito. Enquanto a verdadeira miragem não é a do lucro infinito, é do bem-estar infinito.
______________

Antonio Candido de Mello* e Souza nasceu no Rio de Janeiro em 24 de julho de 1918, concluiu seus estudos secundários em Poços de Caldas (MG) e ingressou na recém-fundada Universidade de São Paulo em 1937, no curso de Ciências Sociais. Com os amigos Paulo Emílio Salles Gomes, Décio de Almeida Prado e outros fundou a revista Clima. Com Gilda de Mello e Souza, colega de revista e do intenso ambiente de debates sobre a cultura, foi casado por 60 anos. Defendeu sua tese de doutorado, publicada depois como o livro “Os Parceiros do Rio Bonito”, em 1954. De 1958 a 1960 foi professor de literatura na Faculdade de Filosofia de Assis. Em 1961, passou a dar aulas de teoria literária e literatura comparada na USP, onde foi professor e orientou trabalhos até se aposentar, em 1992. Na década de 1940, militou no Partido Socialista Brasileiro, fazendo oposição à ditadura Vargas. Em 1980, foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores. Colaborou nos jornais Folha da Manhã e Diário de São Paulo, resenhando obras literárias. É autor de inúmeros livros, atualmente reeditados pela editora Ouro sobre Azul, coordenada por sua filha, Ana Luisa Escorel.

__________________
*Fonte: Fundação Lauro Campos, disponível em http://socialismo.org.br/portal/filosofia/154-entrevista/2147-qo-socialismo-e-uma-doutrina-triunfanteq. [Publicado originalmente na edição 435 do Brasil de Fato.]


sexta-feira, 18 de maio de 2012

FUNCIS.BANCO DO BRASIL - NECESSIDADE DE SOLUÇÃO

P-220: PEDEM SOLUÇÃO URGENTE
     
 Gilberto Santiago - Funci. BB-Aposentado
      (gilbertomsantiago@terra.com.br)

É inconcebível o que está ocorrendo com milhares de funcionários aposentados do Banco do Brasil, que recebem suas aposentadorias no contracheque da PREVI, pela verba P-220, sob título "Complemento BB". Isto é, não conseguem saber, pelos canais competentes, qual a sua real situação, em face do não recebimento do BET (Benefício Especial Temporário), desde janeiro de 2011.

Não se trata de fato corriqueiro ou de pequena importância. Pelo contrário, é uma questão que afeta a vida de 7 mil aposentados e pensionistas que não foram contemplados com a distribuição mensal da Reserva Especial do Plano de Benefícios 1 - acumulada até dezembro de 2009, com pagamento previsto  para ocorrer enquanto durar o Fundo Especial constituído para esse fim.

Esse Grupo ( P-220) é composto por colegas que, por motivos diversos, têm o Banco do Brasil como responsável por suas aposentadorias, não sendo, portanto, participantes do Plano  1. Desta forma, à primeira vista, não teriam direito à distribuição do superavit excedente acumulado.

Tudo isto seria compreensível se a PREVI não tivesse efetuado descontos mensais em cima dessas aposentadorias, sob alegação,  segundo informou,  de que se destinavam ao pagamento futuro das pensões, benefícios sobre os quais o Banco não tinha responsabilidade. Além de não ter sido formada reserva específica para esse fim, os descontos se incorporaram aos recursos do Plano 1, contribuíndo, portanto, para o resultado superavitário excedente acumulado, objeto da distribuição do BET.

Não conformada com a absoluta falta de informação oficial sobre a matéria, a AAFBB dirigiu correspondência à PREVI, em 13/7/2011, solicitanto esclarecimentos. As respostas que nos foram dadas - após três meses de demora - não nos convenceram.

Em meio a todas essas controvérsias, nenhuma das entidades (PREVI e Banco do Brasil) se pronuncia oficialmente. É importante ressaltar que, no relacionamento com o participante,  a comunicação não pode se resumir apenas aos aspectos técnicos dos ativos e à política de investimentos. Ele também quer saber de outras questões que afetam, de alguma maneira, o recebimento de seus proventos de aposentadoria, tudo dento dos princípios de transparência e efetiva comunicação, fundamentos básicos de uma boa governança corporativa.

Em 1/2/2012, encaminhei carta ao presidente do Banco do Brasil, em nome da AAFBB, solicitanto, com urgência,  o esclarecimento dos fatos e o estabelecimento da verdade.

Não há mais tempo a perder. Esgotadas as tratativas administrativas, não restará alternativa senão o recurso imediato ao Judiciário.

_____________________________
Gilberto Santiago é funcionário do Banco do Brasil apoesentado, presidente da AAFBB (Associação dos Aposentados do Banco do Brasil, sede no Rio, e candidato a Conselheiro da PREVI, naturalmente ara defender os aposentados. Este artigo foi publicado, inicialmente, no Jornal da AAFBB, de jan/fev/2012.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

A. B. MENDES CADAXA – POETA (1917-2011)

 NOTÍCIAS 
BIOBIBLIOGRÁFICAS




 Diego Mendes Sousa 
         de Parnaíba - PI, por e-mail 
      Francisco Miguel de Moura - Teresina-PI           




CONSIERAÇÕES
SOBRE
A VIDA E A OBRA
A. B. MENDES CADAXA


Por correspondência, privei da agradável amizade de A. B. Mendes Cadaxa (Armindo Branco Mendes da Cadaxa. Trocávamos livros, poemas e cartas, regularmente. A poesia de Cadaxa é uma das melhores feita por poetas brasileiros, aqui e no exterior. De uma imaginação fértil, inesgotável, com as sutilezas de suas mensagens até poderia ser considerado um poeta hermético. Mas não era. O que ele não fazia era o poema fácil, brincalhão, de ocasião. Homem de uma sinceridade a toda prova, escrevia o que sentia, com a influência do que ouviu e leu, e não foi pouco, como mostra sua vida bastante movimentada de diplomata. Foi uma das grandes perdas da literatura. Com toda sua cultura não deixou de ser simples - e é difícil ser simples. Por esta razão é que o seu desaparecimento não causou nenhum rebulício, foi assim como viveu: no silêncio do dia-a-dia do que há de mais belo nas artes, para mim: a poesia. Cabe agora aos editores e comunicadores dar-lhe a dimensão maior que não se propôs nem quis durante sua passagem por este planeta.
Repetindo as palavras do poeta Diego Mendes Sousa: "Sempre tive uma profunda admiração por Gerardo Mello Mourão (Ceará, 1917 - 2007) e por Armindo Branco Mendes Cadaxa ( São Paulo, 1917-2011).  São escritores caudalosos carregados de filosófica poesia e, de certa maneira, injustiçados pela mídia e pouco conhecidos pelo público em geral.
O motivo desta conversa é a passagem pela vida de Armindo Branco Mendes Cadaxa ou, simplesmente,  A. B. Mendes Cadaxa, recentemente falecido".
A. B. Mendes Cadaxa, diplomata, serviu nos Consulados do Brasil na Itália, nos Estados Unidos, na Argentina, na Suíça, na Alemanha, na Rússia, na Polônia, na Jamaica, no Uruguai, no Haiti e na Inglaterra, onde foi co-editor da Revista Envoi, de poesia, fazenda as mais belas traduções de diversos poetas brasileiros para a Língua Inglesa.

Poeta, é conceituadíssimo, na opinião da mais acreditada crítica brasieira. Transcremos pedaços de apreciação de André Seffrin, Ivo Barroso e Marco Lucchesi:
André Seffrin:
"Poesia de ritmos largos, oceânicos, afinidade com a poesia inglesa, gosto por alusões míticas e pela reconstituição do mosaico humanista, sugere algo à Pound e Eliot".
Ivo Barroso:  
"Poesia poundiana, eliotiana, rilkeana, manjar de poetas e de estetas".
Marco Lucchesi:
"Uma pluralidade textual que encanta: penso em Eliot, Toynbee, Spencer, enquanto Weltanschaung que atravessa toda a sua poesia".

Pois é, "A. B. Mendes Cadaxa é a velocidade da linguagem, poeta glorioso como poucos, um autêntico! Alta pureza verbal, poeta de erudição e conhecimentos amplos, simbólico, hermético", por sua vez, afirma o poeta parnaibando Diego Mendes Soua, que recentemente lançou 50 Poemas Escolhidos pelo Autor, pelas Edições Galo Branco, Rio de Janeiro, 2010.

Com o livro Perspectiva Desde a Rocha, A. B. Mendes Cadaxa recebeu o Prêmio Nacional de Poesia do PEN Clube do Brasil, em 1997. Em seguida, o Prêmio Jabuti com o livro Promontório, com a presença da genialidade.
A. B. Mendes Cadaxa é o responsável pela tradução dos poetas chineses em Língua Portuguesa, no livro Escadaria de Jade, mérito reconhecido pela União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro com a medalha Paulo Rónai.
Recebeu o Prêmio Jorge de Lima da Academia Carioca de Letras, sob o comando da poetisa Stella Leonardos, em 2000. Em 2010, foi agraciado com o Prêmio Joaquim Noberto da mesma Academia, devido ao sucesso de Poemas Tardios, com traduções da poesia de Meng Chiao.
A. B. Mendes Cadaxa é autor de peças teatrais e de romances de cordel em belíssimo estilo clássico.
"Privei de sua valorosa amizade nos dois últimos anos de sua vida (2009-2011), já na casa de seus noventa e tantos anos, mas pleno e lúcido, em que trocávamos correspondências intelectuais. Eu, na Parnaíba, no Piauí; ele, em Nova Friburgo, no Rio", acrescenta Diego  M. Sousa.
No seu rol de companheiros de viagens literárias estão João Cabral de Mello Neto, Dora Ferreira da Silva, Alberto da Costa e Silva, Lauro Escorel, Ivan Junqueira, Fernando Py, Per Johns, Antônio Miranda, César Leal, Affonso Romano de Sant'Anna, Stella Leonardos, José Mendonça Teles, dentre outros.
A. B. Mendes Cadaxa era membro do PEN Clube do Brasil.

Alguma poesia: 
 
CHEGA DE FALAR EM FLORES

Chega de falar em flores
já te custa distinguir
Matizes, cores

Mal reconheces
O penetrante olor do cravo

Há que colher uma braçada
Para a sala perfumar

 *  *  *

Sei haver coisas mais profundas
Neste mundo
Devastado pelos três ginetes
Do que flores, nuvens
Lages flutuantes

Reprovam-me
Por não dar sentido social
Ao que hoje escrevo

* * *

Na volta à fazendola
A estrada é bordejada
De açucenas
Os regatos de lilazes

Na baixada junto à pontizela
Framboesas, amoreiras

Contrastando
Com o verde intenso
Abrem-se rosas

Da cerejeira colho orquídeas
Sob o peso
Ramos estalavam

Tomam na jarra
O lugar
Das violetas

Fragrância redolente
Volúpia
De formas e tons
Qual Mulher que se desnude
à meia luz

E me desdigo nestes versos.



BEEN FORNIDA
Cantiga de maldizer

Dicem-me que Ruy Sanos
Anda ahy de mulher nova
´Staa tan preso em seos allares
No mas donnea nem trova.
No mas freqüenta esta corte
Ela lhe poz redea curta
Tem o pulso firme y forte
Morde o freio ela o encurta.
Queem é ela, Martin Vaz?
Tu a coñeces muy beem
De teos tempos de rapaz,
La donneaste tambeem.
Filha do meirinho-mor
Dorotea, a beem fornida
Generosa em seo favor
Insolente y deslambida.
De hũa feita engravidou
Côo hũ nobre sem vintém
O bõo meirinho a casou
Foi viver a Santarém. Faz hũ anno enviuvou
Mas gorda que hũa balea
Ruy por amante tomou
Da-lhe casa y bolsa chea. Se ela é hũa balea
Y como sempre arde em fogo
Nosso Ruy hũa lamprea
Como se arranjam no jogo?
Muyto simples, caro amigo
Como o frade de Bocaccio,
Mas non posso dar testigo,
Ella em cima, el en baixo.
Creo o cõopadre se engana,
Cõo hũa tal mulheraça
Sôo pode ser aa romanna
Do contraario ella o amassa.



GÓRGONAS

Alfombra de areia branca
Corais rosados, lacre
Negros, como os do Índico
Acoris azulados

Alcionárias, leques de pólipos
Flores carnívoras

Ervas verde esmeralda
Coleiam com a corrente
Quais apsarás em um friso védico

Górgonas avançam
Cardumes inteiros
Mesmerizam

Envolvem
Carcaças de estrelas do mar
Antozoários
De alvacentos crânios

Medusa fita-me
Antes que me petrifique
Esmago seus filamentos

* * *

Sei de outros seres
Inda mais horrendos

Rematam cornijas góticas
Esculpidas
Por mestres canteiros
Em nuvens de pó envoltos

Idênticas
Às que recobrem
Em campas rasas
Nossos esqueletos

Esses artífices talharam
Gárgulas de catedrais
Em mármore
Hoje cinéreo

Lepra as invadiu

Bocarras desfiguradas
Pelas chuvaradas
Por tetos de ardósia
Escorrendo sempre

Faces brocadas
Pescoços
Grossos, tauríneos
Deles pendentes
Tranças de limo

É mesmo limo
Ou são fiapos
Cordas, baraços
De enforcados?



Nota Importante: 
Esta postagem só foi possível porque recebi um e-mail do poeta Diego Mendes Sousa, informando a morte do grande poeta Mendes Cadaxa, no ano passado. Jovem de Panaíba - PI, Diego Mendes Sousa está indo muito bem na poesia, já com três livros publicados. Vejam a data do seu nascimento: 15 de julho de 1989.  Antes dos 50 Poemas Escolhidos pelo Autor, que vale por uma antologia, sairam outros dois: Divagações, 2006, e Metafísica do Encanto, 2008.

domingo, 19 de setembro de 2010

A ESCOLHA DE SOFIA - ARTIGO DE OPINIÃO

Rodrigo Constantino*
"O maior castigo para aqueles que não se interessam por política
é que serão governados pelos que se interessam."
                                                                      (Arnold Toynbee)


"A escolha de Sofia" é a história que acontece no campo de concentração nazista de Auschwitz, vivida por uma mãe judia, que é forçada por um soldado alemão a escolher entre o filho e a filha - qual seria executado e qual seria poupado. Se ela se recusasse a escolher, os dois seriam mortos. Ela escolhe o menino, que é mais forte e tem mais chances de sobreviver, porém nunca mais tem notícias dele. A questão é tão terrível que o título se converteu em sinônimo de "decisão quase impossível de ser tomada".
  
Agora, praticamente é oficial: José Serra e Dilma Rousseff são as duas opções viáveis nas próximas eleições. Em quem votar? Esse é um artigo que eu não gostaria de ter que escrever, mas me sinto na obrigação de fazê-lo.
  
Os antigos atenienses tinham razão ao dizerem que assumir qualquer lado é melhor do que não assumir nenhum?
  
Mas existem momentos tão delicados e extremos, onde o que resta das liberdades individuais está pendurado por um fio, que talvez essa postura idealista e de longo prazo não seja razoável.
  
Será que não valeria a pena ter fechado o nariz e eliminado o Partido dos Trabalhadores Nacional - Socialista, em 1933, na Alemanha, antes que Hitler pudesse chegar ao poder? Será que o fim de eliminar Hugo Chávez justificaria o meio deplorável de eleger um candidato horrível, mas menos louco e autoritário? São questões filosóficas complexas. Confesso ficar angustiado quando penso nisso.
  
Voltando à realidade brasileira, temos um verdadeiro monopólio da esquerda na política nacional. PT e PSDB cada vez mais se parecem. Mas também existem algumas diferenças importantes. O PT tem mais ranço ideológico, mais sede pelo poder absoluto, mais disposição para adotar quaisquer meios, os mais abjetos, para tal meta. O PSDB parece ter mais limites éticos quanto a isso. O PT associou-se aos mais nefastos ditadores, defende abertamente grupos terroristas, carrega em seu âmago o DNA socialista. O PSDB não chega a tanto.
  
Além disso, há um fator relevante de curto prazo: o governo Lula aparelhou a máquina estatal toda, desde os três poderes, passando pelo Itamaraty, STF, Polícia Federal, ONGs, estatais, agências reguladoras, tudo!
  
O projeto de poder do PT é aquele seguido por Chávez, na Venezuela; Evo Morales, na Bolívia; Rafael Correa, no Equador. Enfim, todos os comparsas do Foro de São Paulo. Se o avanço rumo ao socialismo não foi maior no Brasil, isso se deve aos freios institucionais, mais sólidos aqui, e não ao desejo do próprio governo.
  
A simbiose entre Estado e governo na gestão Lula foi enorme. O estrago será duradouro.
  
Mas quanto antes for abortado, melhor será: haverá menos sofrimento no processo de ajuste. Justamente por isso acredito que os liberais devem olhar para este aspecto fundamental, e ignorar um pouco as semelhanças entre Serra e Dilma. Uma continuação da gestão petista através de Dilma, é um tiro certo rumo ao pior. Dilma é tão autoritária ou mais que Serra, com o agravante de ter sido uma terrorista na juventude comunista,
lutando não contra a ditadura, mas sim por outra ainda pior, aquela existente em Cuba ainda hoje. Ela nunca se arrependeu de seu passado vergonhoso; pelo contrário, sente orgulho. Seu grupo Colina planejou diversos assaltos.
  
Como anular o voto sabendo que esta senhora poderá ser nossa próxima presidente?!Como virar a cara sabendo que isso pode significar passos mais acelerados em direção ao socialismo bolivariano? Entendo que para os defensores da liberdade individual, escolher entre Dilma e Serra é como uma escolha de Sofia. Mas anular o voto, desta vez, pode significar o triunfo definitivo do mal. Em vez de soco na cara ou no estômago, podemos acabar com um tiro na nuca.
  
Dito isso, assumo que votarei em Serra. Meu voto é anti-PT acima de qualquer coisa. Meu voto é contra o Lula, contra o Chávez, que já declarou abertamente apoio à Dilma.  Meu voto não é a favor de Serra.
  
No dia seguinte da eleição, já serei um crítico tão duro do governo Serra, como sou hoje do governo Lula.
  
Mas, antes é preciso retirar a corja que está no poder. Antes é preciso desarmar a quadrilha que tomou conta de Brasília. Só o desaparelhamento de petistas do Estado já seria um ganho para a liberdade, ainda que momentâneo.
  
Respeito meus colegas liberais, que discordam de mim e pretendem anular o voto. Mas espero ter sido convincente de que o momento pede um pacto temporário com a barbárie, como única chance de salvar o que resta da civilização - o que não é muito, mas é o que hoje devemos e podemos fazer!

----------------
Nota:  -  O artigo acima foi escrito no final de 2009, pelo economista.

_________________
*Rodrigo Constantino, escritor, é cronista político e autor de 5 livros.  Assina a coluna "Eu & Investimentos", do jornal “Valor Econômico”. Também é colunista do jornal “O Globo”. Além de ser membro-fundador do Instituto Millenium, é vencedor do prêmio “Libertas”, em 2009, no XII Forum da Liberdade. Seu curriculum vai muito além do que está listado aqui – é extenso e respeitável.          

"Tudo que é preciso para o triunfo do mal é que as  pessoas de bem nada façam." 
                                                                                                         Edmund Burke

quinta-feira, 27 de maio de 2010

POEMAS OU/TONAIS - POESIA MAIOR




chico miguel - 1991

Por Cunha e Silva Filho*

A criação literária, a produção ficcional e poética são fenômenos culturais nascidos na solidão, para os quais não há fronteiras. As restrições são apenas de natureza biológica, pois os autores envelhecem e morrem. A criação é, pois, um ato absolutamente solitário. A solidão artística nutre-se do intemporal, sua liberdade é maior, sua dimensão transcendental, infinita.

Foi pensando assim que me decidi a comentar esse livro de Francisco Miguel de Moura sob o título Poemas Ou/tonais (Gráfica e Editora Júnior Ltda., Teresina, 1991), uma coletânea de poemas selecionados pelo autor, com a colaboração de seus amigos, também poetas, Hardi Filho, Elmar Carvalho e Rubervam du Nascimento. A obra reuniu poemas do autor escolhidos a partir de 400 poemas escritos nos anos 80. Todos os poemas vêm sem título, excetuados os 9 traduzidos, respectivamente, para o espanhol (1 poema), o francês (4 poemas), o italiano (2 poemas) e o inglês (2 poemas).

sexta-feira, 26 de março de 2010

EM DEFESA DE AMARANTE

CRIME AMBIENTAL E CULTURAL

Alberto da Costa e Silva*




Chega-me a notícia de que se pretende afogar nas águas de uma represa a cidade piauiense de Amarante. O autor da desastrada idéia não deve saber o que é belo ou lhe ter horror. Assemelha-se a quem planejasse destruir, em Minas Gerais, Mariana ou Tiradentes, ou aterrar, no Rio de Janeiro, a enseada de Botafogo.

Amarante é um dos mais felizes matrimônios que conheço da natureza com as obras dos homens. Do alto da escadaria Da Costa e Silva, a visão é de tirar o fôlego. Um espetáculo inesquecível, como me repetem todos aqueles que, em minha companhia, de lá correram os olhos sobre o casario entrecortado de árvores, a descer para o rio Parnaíba e, na outra margem, a praia branca e os chapadões do Maranhão. Tampouco lhes sai da memória o passeio pelas ruas do centro histórico, com suas casas oitocentistas ou do início do século XX, algumas delas traduções sertanejas de estilos da belle époque, outras a nos mostrarem em sua simplicidade de linhas como pela via humilde se pode atingir a mais alta beleza.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

ADAILTON MEDEIROS - POETA


CRÔNICA DE SAUDADE

Cunha e Silva Filho*


De repente, o telefone toca. Minha mulher atende. Do outro lado da linha, alguém fala e, da voz da minha mulher, vem esta notícia que não queríamos tão cedo neste mundo receber: “Adailton faleceu”. Ao lado de Elza, tenho um sobressalto, fico, primeiro, calado, com a vista fixa em algum lugar distante e indefinido.

Depois da internação com problemas sérios no estômago, passando por uma cirurgia, Adaíiton Medeiros, poeta maranhense, da mesma cidade natal de um dos maiores poetas do Brasil, Gonçalves Dias, entra em coma nele permaneceu até hoje de madrugada, dia 9de fevereiro, quando veio a nos deixar para sempre. Ninguém o queria, era cedo, havia tanto ainda a fazer, reunir, como era de sua vontade, suas poesias num único volume e sobretudo viver. Adailton é de 16 de julho de 1938. Fico assustado, sem palavras. Penso de imediato no meu velho amigo desde o tempo em que o conheci. Eu, fazendo Letras na Faculdade de Letras da UFRJ, lá na Avenida Chile ou mesmo antes, não estou certo, na Rua 1º de Março, na então Faculdade Nacional de Filosofia, da Universidade do Brasil, depois, UFRJ.; ele, cursando o Mestrado em Ciência da Literatura. Adailton, antes, fizera Jornalismo na citada Faculdade Nacional de Filosofia. Estava ainda bem jovem. Creio que fui apresentado a ele por Elza.

sábado, 16 de janeiro de 2010

LITERATURA BRASILEIRA - OLAVO BILAC


POESIAS DE OLAVO BILAC


PÁTRIA






Olavo Bilac







Pátria, latejo em ti, no teu lenho, por onde
circulo! E sou perfume, e sombra, e sol e orvalho!
E, em seiva, ao teu clamor a minha voz responde,
e subo do teu cerne ao céu de galho em galho!

Dos teus liquens, dos teus cipós, da tua fronde,
do ninho que gorjeia em teu doce agasalho,
do fruto a amadurar que em teu seio se esconde,
de ti, - rebento em luz e em cânticos me espalho!

Vivo, choro em teu pranto; e, em teus dias felizes,
no alto, como uma flor, em ti, pompeio e exulto!
E eu, morto, - sendo tu cheia de cicatrizes,

tu golpeada e insultada, ¬ eu tremerei sepulto:
e os meus ossos no chão, como as tuas raízes,
se estorcerão de dor, sofrendo o golpe e o insulto!


LÍNGUA PORTUGUESA

Olavo Bilac


Última flor do Lácio, inculta e bela,
és, a um tempo, esplendor e sepultura:
ouro nativo, que na ganga impura
a bruta mina entre os cascalhos vela...

amo-te assim, desconhecida e obscura,
tuba de alto clangor, lira singela
que tens o trom e o silvo da procela,
e o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

em que da voz materna ouvi: “meu filho”,
E em que Camões chorou no exílio amargo,
¬o gênio sem ventura e o amor sem brilho!


NEL MEZZO DEL CAMIN...


Olavo Bilac



Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E a alma de sonhos povoada eu tinha...

E paramos de súbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.

Hoje, segues de novo... Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.

E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo.


EM MIM TAMBÉM

Olavo Bilac

Em mim também, que descuidado vistes,
Encantado e aumentando o próprio encanto,
Tereis notado que outras cousas canto
Muito diversas das que outrora ouvistes.

Mas amastes, sem dúvida ... Portanto,
Meditai nas tristezas que sentistes:
Que eu, por mim, não conheço cousas tristes,
Que mais aflijam, que torturem tanto.

Quem ama inventa as penas em que vive;
E, em lugar de acalmar as penas, antes
Busca novo pesar com que as avive.

Pois sabei que é por isso que assim ando:
que é dos loucos somente e dos amantes
na maior alegria andar chorando


PRIMAVERA



Olavo Bilac


Ah! quem nos dera que isso, como outrora,
inda nos comovesse! Ah! quem nos dera
que inda juntos pudéssemos agora
ver o desabrochar da primavera!
Saíamos com os pássaros e a aurora,
e, no chão, sobre os troncos cheios de hera,
sentavas-te sorrindo, de hora em hora:
"Beijemo-nos! amemo-nos! espera!"
E esse corpo de rosa recendia,
e aos meus beijos de fogo palpitava,
alquebrado de amor e de cansaço....
A alma da terra gorjeava e ria...
Nascia a primavera...E eu te levava,
primavera de carne, pelo braço!


REMORSO


Olavo Bilac


Às vezes, uma dor me desespera...
Nestas ânsias e dúvidas em que ando.
Cismo e padeço, neste outono, quando
Calculo o que perdi na primavera.

Versos e amores sufoquei calando,
Sem os gozar numa explosão sincera...
Ah! Mais cem vidas! com que ardor quisera
Mais viver, mais penar e amar cantando!

Sinto o que desperdicei na juventude;
Choro, neste começo de velhice,
Mártir da hipocrisia ou da virtude,

Os beijos que não tive por tolice,
Por timidez o que sofrer não pude,
E por pudor os versos que não disse!


AO CORAÇÃO QUE SOFRE



Olavo Bilac



Ao coração que sofre, separado
Do teu, no exílio em que a chorar me vejo,
Não basta o afeto simples e sagrado
Com que das desventuras me protejo.
Não me basta saber que sou amado,
Nem só desejo o teu amor: desejo
Ter nos braços teu corpo delicado,
Ter na boca a doçura de teu beijo.
E as justas ambições que me consomem
Não me envergonham: pois maior baixeza
Não há que a terra pelo céu trocar;
E mais eleva o coração de um homem
Ser de homem sempre e, na maior pureza,
Ficar na terra e humanamente amar.


VELHAS ÁRVORES


Olavo Bilac


Olha estas velhas árvores, mais belas
Do que as árvores moças, mais amigas,
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas...

O homem, a fera e o inseto, à sombra delas
Vivem, livres da fome e de fadigas:
E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E os amores das aves tagarelas.

Não choremos, amigo, a mocidade!
Envelheçamos rindo. Envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem,

Na glória de alegria e da bondade,
Agasalhando os pássaros nos ramos,
Dando sombra e consolo aos que padecem!


OUVIR ESTRELAS


Olavo Bilac



"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muitas vezes desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas."




A BONECA

Olavo Bilac


Deixando a bola e a peteca,
Com que inda há pouco brincavam,
Por causa de uma boneca,
Duas meninas brigavam.
Dizia a primeira: "É minha!"
- "É minha!" a outra gritava;
E nenhuma se continha,
Nem a boneca largava.
Quem mais sofria (coitada!)
Era a boneca. Já tinha
Toda a roupa estraçalhada,
E amarrotada a carinha.
Tanto puxaram por ela,
Que a pobre rasgou-se ao meio,
Perdendo a estopa amarela
Que lhe formava o recheio.
E, ao fim de tanta fadiga,
Voltando à bola e à peteca,
Ambas, por causa da briga,
Ficaram sem a boneca ...


MEIA NOITE


Olavo Bilac


– Ó mamãe quando dormimos
Todos num sono profundo
Há mesmo almas do outro mundo
Que aos meninos aparecem?

– Não creias nisto, é tolice.
Fantasmas são invenções
Para dar medo aos poltrões
Não houve ninguém que os visse.

Não há gigantes nem fadas,
Nem gênios perseguidores,
Nem monstros aterradores,
Nem princesas encantadas.

As almas dos que morreram
Não voltam à terra mais,
Pois vão descansar em paz
Do que na terra sofreram.

Dorme com tranqüilidade,
Nada receia, meu filho,
Quem não se afasta do trilho
Da Justiça e da Bondade.


____________
BIOGRAFIA – Olavo Bilac

Do posfácio de "Poesias", denominado "O autor e a obra," por R. Magalhães Júnior, destacamos, nesta breve apresentação do Poeta, alguns tópicos:
Muitos de seus versos se tornaram proverbiais, citados até por pessoas que jamais os leram e só os conhecem de oitiva, de citações".
Carioca, nasceu em 1865 e faleceu em 28 de dezembro de 1918, no Rio de Janeiro. Seu nome - Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac, constitui um verso alexandrino perfeito.
“Atraído pelas letras e pelo jornalismo, abandonou os estudos
(primeiramente Medicina, no Rio, e depois Direito em São Paulo).
Rompeu com o pai, saiu de casa e começou vida independente, colaborando em precários jornais e revistas, associando-se a José do Patrocínio, Raimundo Correa, Coelho Neto, Pardal Mallet, Luís Murat e outros, da roda boêmia que vivia entre as redações e as confeitarias da Rua do Ouvidor e adjacências".

Em Paris, conviveu com Eça de Queirós, Domício da Gama, Eduardo Prado e outros. Era já autor de um volume de versos - "Poesias"- publicado em 1888, foi jornalista de renome e co-autor de romances-folhetins, um deles, "O Esqueleto", com Pardal Mallet.
Deixou, inéditos, o livro "Tarde", depois incorporado em suas "Poesias", e também um "Dicionário Analógico", que até hoje não foi publicado.
Sua prosa está um pouco esquecida, mas foi um cronista de muito bom gosto e preocupado com o estilo, tendo escrito e feito muitas conferências e dicursos.
Nos quadros do Parnasianismo brasileiro, nenhum outro poeta supera Olavo Bilac. E o retorno de sua obra às mãos dos leitores deve ser saudado com aplausos, pois vem fornecer aos estudantes de Letras valiosos elementos de nosso patrimônio poético que não mais estavam ao alcance de todos (1977).
Lutou para que o serviço militar fosse obrigatório e fez outras campanhas em favor da educação. É autor da letra do Hino da Bandeira. Aposentou-se como inspetor escolar, tendo escrito também muitos e belos poemas para as crianças e a juventude. Por reconhecimento dos seus contemporâneos, foi eleito Príncipe dos Poetas Brasileiros.

(De "Poesias", 28ª e 29ª. edições, Col. Vera Cruz (Literatura Brasileira), Livraria e Editora Civilização Brasileira, respectivamente, Rio, 1977)



sábado, 9 de janeiro de 2010

POEMAS CONSTRUTIVOS E OUTROS


Crítica

Fernando Py
Poeta e crítico literário

1

Poemas construtivos, de Sílvio Castro (Rio de Janeiro: Edições Galo Branco, 2007). Poeta e ensaísta de renome, Sílvio Castro apresenta seu novo livro sob o signo da “construção”. No texto de abertura, “Construção do poema” (pg.13), bem como nos poemas das séries “Construtura”, “Edificação do amor” e “Construção”, e em muito mais, está presente a preocupação com a estrutura e a formação dos versos e do poema. Não à maneira parnasiana, de que Bilac é o paradigma com a “Profissão de fé” e, principalmente com o soneto “A um poeta”. Mas de modo reflexivo, intimista, como se “ouvisse” de fora a construção dos versos, como se eles fossem formados independentemente de sua vontade. De todo modo, Sílvio Castro renova e revigora a metapoética de quem se debruça sobre as razões da formação e existência do objeto poema. Convém reparar que todos os poemas da série “Construtura” estão escritos em prosa, o que reafirma a intenção programática dos textos. E o poeta está sempre se referindo às noções de “construção”, “desconstrução”, “edificação”, “espaço”, e insiste na predominância do concreto sobre o abstrato. Assim, não apenas dedica um poema ao nosso grande Oscar Niemeyer, como se inspira livremente em poemas alheios (“O engenheiro” de João Cabral de Melo Neto, “Construção” de Chico Buarque), desde que lhe sirvam para confirmar seus propósitos construtivos. O livro de Sílvio Castro é de leitura atraente, uma pequena obra poética de alto valor. Parabéns.

2

Antologia: poemas escolhidos pelo autor, de Francisco Miguel de Moura (Teresina: Edições Cirandinha, 2006). Como indica o título, é uma recolha de poemas escolhidos. O autor é um dos maiores poetas piauienses vivos – senão o maior –, e esta avaliação se baseia principalmente no senso de construção dos poemas – sobretudo os de forma fixa como os sonetos –, bastante diversificados quanto à expressão, ao vocabulário e, principalmente, quanto às imagens. O poeta igualmente varia muito quanto aos temas, e quer verseje sobre o amor, o tempo, as indagações existenciais de todo tipo, não há dúvida de que demonstra seu extraordinário valor, fazendo com que seus textos sempre mereçam uma leitura cuidadosa e – por que não? – entusiasmada.

(in Jornal “Tribuna de Petrópolis”, 20-03-2009, Caderno “Lazer”, p.5).


POESIA
de Fernando Py

O BECO

a Carlos Drummond de Andrade

Que se passa naquele beco
onde nunca estive?
Vislumbro o muro de passagem:
sombras, manchas, rastros
de existência.
Quem o habita, se é que o habita
alguém, se é que o beco
existe como existem
seres e coisas que vejo?
Quem derrama nesse recanto do universo
o sinal de vida, a marca indelével
da matéria organizada?
O que existe fora do meu
alcance de vista? Quem brinca
de esconder quando relembro
o muro caiado, a rua esquecida?
O que não vejo, pressinto:
existe mesmo ou é extinto
para mim, ignorado
como esse beco aonde nunca fui?

O ESQUIZOFRÊNICO

No seu delírio vai compondo os gestos
diante da platéia inexistente;
ele próprio é a platéia, mas não sente
do espetáculo mais que os pobres restos
que a memória lhe acende nos esgares
da fisionomia descomposta.
No seu delírio a fala, sem resposta,
se resolve em grunhidos singulares,
num discurso arbitrário de fonemas
reduzidos à simples expressão
de sons primevos que de sempre estão
revelando carências, e as extremas
ruínas de seu cérebro em pedaços.
Os gestos multiplicam-se em algemas
e a platéia se cala, membros lassos.



Biografia:

Fernando Py de Mello e Silva - Nasceu no Rio de Janeiro em 13 de junho de 1935, de família gaúcha. Poeta, colunista, crítico literário, tradutor, fez o curso primário no Externato Coração Eucarístico, o ginasial no Santo Inácio e colegial no Colégio Mallet Soares, todos na cidade natal onde viveu até 1967, quando se mudou para Petrópolis, onde reside. Formou-se em Direito (UERJ), em 1960, porém nunca advogou. Funcionário da CAPES (Min. da Educação 1958-59), da Procuradoria do Estado do Rio Grande do Sul na Guanabara (1960-62) e metorologista (Inst. Nac. de Meteoroligia, Min. da Agricultura, 1962-94), quando se aposentou. Colaborou em diversos jornais do Rio, S. Paulo, B. Horizonte e Porto Alegre. Trabalhou com redator e tradutor da Grande Enciclopédia Delta-Larouse e a Mirador Internacional. Traduziu obras de autores importantes como Marcel Proust, Marguerite Duras, Honoré de Balzac, Saul Bellow e outros. Atualmente assina coluna do jornal "Tribuna de Petrópolis. Alguns livros publicados: "Aurora de Vidro", Rio, 1962; "A Construção e a Crise", Rio, 1969, "Sentimento da Morte & Poems Anteriores"(antologia), 2003, Goiânia - GO, entre tantos outros. Ganhou alguns prêmios literários importantes e recebeu (15-4-2003) o título de "Cidadão Petropolitano Honorário". É casado desde 1963 com Maria Soares de Mello e Silva e tem três filhos e quatro netos.







sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

TEMPO E POESIA EM 2 POETAS JUNTOS


Cunha e Silva Filho*



Da última vez em que estive em Teresina levei comigo alguns livros de autores piauienses. Entre esses livros, havia um, Tempo contra tempo, (Edições Cirandinha, Teresina, 2007 57 p., prefácio de Altevir Alencar), reunião de sonetos, 50 ao todo, escritos por Hardi Filho e Francisco Miguel de Moura. Desnecessário afirmar que a obra, pequena em número de páginas, é trabalho de dois competentes e calejados poetas, cada qual com uma considerável produção no gênero.De caso pensado, os dois poetas quiseram, pela amizade e pelo amor ao verso, testar até que ponto a poesia podia se realizar da seguinte forma: um escreveria um soneto sobre o mesmo tema, que, no caso, é a complexa categoria do tempo, e o outro daria continuidade através de uma gancho deixado pelo parceiro poético. O resultado foi esse conjunto de sonetos bem urdidos gravitando em torno daquele tema.

O fato me faz lembrar o caso de dois dramaturgos ingleses da Renascença, Francis Beaumont (1584-1616) e John Fletcher ( 1579-1625). Eram ambos tão amigos que, por escreverem juntos, o público ledor terminou por confundi-los, não sabendo, ao final, quem escrevia o quê. No caso de Hardi Filho e Francisco Miguel de Moura, não há essa confusão porque cada soneto leva o nome do respectivo poeta. A única coisa que os une são o tema e o recurso intertextual que, de soneto a soneto, vão sempre ligando um poeta ao outro. Não poderíamos defini-los com poemas feitos a quatro mãos justamente por essa diferença.

Na contracapa, há esta afirmação: “Com esta obra os poetas dizem adeus ao século XX e saúdam o novo milênio”. Não há, no entanto, indicação do autor dessa assertiva, mas tudo me leva a supor que também seja da autoria dos dois poetas.

Os autores nada dizem acerca da escolha dessa forma de poema, o soneto, forma fixa tradicional que, ao que me parece, não faz parte considerável dos modos de poetar nos dois autores. Hardi Filho e Miguel de Moura são poetas que não ficaram amarrados ao passado. A poesia em ambos enveredou-se para os caminhos do verso com potencial moderno. Não são, pois, poetas passadistas. Antes, são artistas do verso com o olhar no presente e no futuro. Sã poetas, em síntese, sintonizados com o presente, sobretudo Miguel de Moura. Mas, estabelecer em forma de soneto, um diálogo aberto e, muitas vezes, até irônico ou bem-humorado, com o tempo, não deixa de ser um salutar exercício de experimentação poética e de vigor diante do desafio a que se propuseram. Não vou aqui adentrar considerações em torno dos vários tipos de conceituação filosófica que o tempo tem propiciado aos estudos literários no tratamento da prosa de ficção e no domínio da poético. Tempo da durée réelle bergsoniana, tempo cronológico, tempo psicológico, ucronia, tempo triádico gilbertofreiriano (um presente combinando presente, passado e futuro) etc. O tratamento do tema propiciado pelos dois poetas piauienses (aliás, Miguel de Moura é piauiense, mas Hardi Filho o é por opção, já que escolheu viver no o Piauí embora sendo cearense de nascença) é de natureza mais simples e descomplicada., pois os poemas, em forma de soneto, não pretendem transformar-se em peças poéticas filosóficas. Nada disso. Tampouco suponho que os dois poetas tivessem em mira apenas aprofundar a questão do tempo em versos teórico-filosóficos O livro vale é pelo seu lado dominantemente literário, pela mera experiência lúdica de demonstrar que, à semelhança de outros poeta brasileiros, à frente Manuel Bandeira, o próprio Da Costa e Silva, um poeta contemporâneo, com domínio da técnica do verso tradicional, pode muito bem criar pelo talento as várias formas do verso clássico. Basta querer. Foi o que ambos fizeram nesse livro de leitura agradável e ao mesmo tempo feito com dignidade artesanal. Sairam-se bem da empreitada. Tanto num quanto noutro poeta a elaboração do soneto lembra até o modo dos desafios do repentista. Ou seja, de um aspecto do tema comum e constante de um soneto, mediante o gancho a que me referi atrás, passa a palavra poética para o outro, como no primeiro soneto “Retrato”(p.6). E é esse lexema-título que serve como deixa para o soneto seguinte de Miguel de Moura, “Que é de?”(p.7).

O tema, sempre voltado para a auto-referência de cada poeta, se manterá inalterável até o fim do livro. Aí então é que ambos os poetas se aproveitam do tema para circunscrevê-lo à sua individualidade de ser. Ao longo dos sonetos, os poetas, revezando-se, vão decantar uma espécie de desnudamento pessoal de cada um, com a sua visão particular de olhar para a passagem do tempo, em que a tônica são todos os sinais deixados pelo fluir do tempo em cada ser humano. Nesse sentido, os sonetos assumem uma dimensão universal e visões particulares extrapolam a subjetividade de cada poeta.

É inegável que ambos os poetas se utilizam do soneto para, além da discussão do tempo pessoal (ou universal), o tematizarem metapoeticamente, com neste exemplo de Francisco Miguel de Moura: “Antes que o tempo vença esta batalha/pela paz, pelo amor de cada dia, /vejo que a forma já não me atrapalha/para expressar o ser da poesia” Soneto “Como fazer”, p. 37). Ou est’outro de Hardi Filho: ‘Pois é. Embora a escrita às vezes trema,/ é prazeroso versejar em cima/de tão profundo e interessante tema”. (soneto “Sonetear”,p.34).

Confesso que, ora lendo, no revezamento da sequência, os dois poetas, embora sinta as diferenças de estilos e de perspectivas da visão do tema comum aos dois, sinto uma inequívoca unidade nas duas vozes poéticas que, nessa espécie de “contrato’ de criação literária, terminam por unificar diversidade de temperamentos de poeta numa unidade de harmonia de ritmos, de métrica e de rimas, dando a sensação lúdica de que estamos lendo um livro bem acabado e sobretudo realizado com seriedade e amor à Poesia.
_________________
*Cunha e Silva Filho, piauiense, escritor tradutor e crítico literário, professor do ensino universitário, no Rio de Janeiro, onde mora.
____
Copiado do blog http://as idéias no tempo

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...