quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

A. B. MENDES CADAXA – POETA (1917-2011)

 NOTÍCIAS 
BIOBIBLIOGRÁFICAS




 Diego Mendes Sousa 
         de Parnaíba - PI, por e-mail 
      Francisco Miguel de Moura - Teresina-PI           




CONSIERAÇÕES
SOBRE
A VIDA E A OBRA
A. B. MENDES CADAXA


Por correspondência, privei da agradável amizade de A. B. Mendes Cadaxa (Armindo Branco Mendes da Cadaxa. Trocávamos livros, poemas e cartas, regularmente. A poesia de Cadaxa é uma das melhores feita por poetas brasileiros, aqui e no exterior. De uma imaginação fértil, inesgotável, com as sutilezas de suas mensagens até poderia ser considerado um poeta hermético. Mas não era. O que ele não fazia era o poema fácil, brincalhão, de ocasião. Homem de uma sinceridade a toda prova, escrevia o que sentia, com a influência do que ouviu e leu, e não foi pouco, como mostra sua vida bastante movimentada de diplomata. Foi uma das grandes perdas da literatura. Com toda sua cultura não deixou de ser simples - e é difícil ser simples. Por esta razão é que o seu desaparecimento não causou nenhum rebulício, foi assim como viveu: no silêncio do dia-a-dia do que há de mais belo nas artes, para mim: a poesia. Cabe agora aos editores e comunicadores dar-lhe a dimensão maior que não se propôs nem quis durante sua passagem por este planeta.
Repetindo as palavras do poeta Diego Mendes Sousa: "Sempre tive uma profunda admiração por Gerardo Mello Mourão (Ceará, 1917 - 2007) e por Armindo Branco Mendes Cadaxa ( São Paulo, 1917-2011).  São escritores caudalosos carregados de filosófica poesia e, de certa maneira, injustiçados pela mídia e pouco conhecidos pelo público em geral.
O motivo desta conversa é a passagem pela vida de Armindo Branco Mendes Cadaxa ou, simplesmente,  A. B. Mendes Cadaxa, recentemente falecido".
A. B. Mendes Cadaxa, diplomata, serviu nos Consulados do Brasil na Itália, nos Estados Unidos, na Argentina, na Suíça, na Alemanha, na Rússia, na Polônia, na Jamaica, no Uruguai, no Haiti e na Inglaterra, onde foi co-editor da Revista Envoi, de poesia, fazenda as mais belas traduções de diversos poetas brasileiros para a Língua Inglesa.

Poeta, é conceituadíssimo, na opinião da mais acreditada crítica brasieira. Transcremos pedaços de apreciação de André Seffrin, Ivo Barroso e Marco Lucchesi:
André Seffrin:
"Poesia de ritmos largos, oceânicos, afinidade com a poesia inglesa, gosto por alusões míticas e pela reconstituição do mosaico humanista, sugere algo à Pound e Eliot".
Ivo Barroso:  
"Poesia poundiana, eliotiana, rilkeana, manjar de poetas e de estetas".
Marco Lucchesi:
"Uma pluralidade textual que encanta: penso em Eliot, Toynbee, Spencer, enquanto Weltanschaung que atravessa toda a sua poesia".

Pois é, "A. B. Mendes Cadaxa é a velocidade da linguagem, poeta glorioso como poucos, um autêntico! Alta pureza verbal, poeta de erudição e conhecimentos amplos, simbólico, hermético", por sua vez, afirma o poeta parnaibando Diego Mendes Soua, que recentemente lançou 50 Poemas Escolhidos pelo Autor, pelas Edições Galo Branco, Rio de Janeiro, 2010.

Com o livro Perspectiva Desde a Rocha, A. B. Mendes Cadaxa recebeu o Prêmio Nacional de Poesia do PEN Clube do Brasil, em 1997. Em seguida, o Prêmio Jabuti com o livro Promontório, com a presença da genialidade.
A. B. Mendes Cadaxa é o responsável pela tradução dos poetas chineses em Língua Portuguesa, no livro Escadaria de Jade, mérito reconhecido pela União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro com a medalha Paulo Rónai.
Recebeu o Prêmio Jorge de Lima da Academia Carioca de Letras, sob o comando da poetisa Stella Leonardos, em 2000. Em 2010, foi agraciado com o Prêmio Joaquim Noberto da mesma Academia, devido ao sucesso de Poemas Tardios, com traduções da poesia de Meng Chiao.
A. B. Mendes Cadaxa é autor de peças teatrais e de romances de cordel em belíssimo estilo clássico.
"Privei de sua valorosa amizade nos dois últimos anos de sua vida (2009-2011), já na casa de seus noventa e tantos anos, mas pleno e lúcido, em que trocávamos correspondências intelectuais. Eu, na Parnaíba, no Piauí; ele, em Nova Friburgo, no Rio", acrescenta Diego  M. Sousa.
No seu rol de companheiros de viagens literárias estão João Cabral de Mello Neto, Dora Ferreira da Silva, Alberto da Costa e Silva, Lauro Escorel, Ivan Junqueira, Fernando Py, Per Johns, Antônio Miranda, César Leal, Affonso Romano de Sant'Anna, Stella Leonardos, José Mendonça Teles, dentre outros.
A. B. Mendes Cadaxa era membro do PEN Clube do Brasil.

Alguma poesia: 
 
CHEGA DE FALAR EM FLORES

Chega de falar em flores
já te custa distinguir
Matizes, cores

Mal reconheces
O penetrante olor do cravo

Há que colher uma braçada
Para a sala perfumar

 *  *  *

Sei haver coisas mais profundas
Neste mundo
Devastado pelos três ginetes
Do que flores, nuvens
Lages flutuantes

Reprovam-me
Por não dar sentido social
Ao que hoje escrevo

* * *

Na volta à fazendola
A estrada é bordejada
De açucenas
Os regatos de lilazes

Na baixada junto à pontizela
Framboesas, amoreiras

Contrastando
Com o verde intenso
Abrem-se rosas

Da cerejeira colho orquídeas
Sob o peso
Ramos estalavam

Tomam na jarra
O lugar
Das violetas

Fragrância redolente
Volúpia
De formas e tons
Qual Mulher que se desnude
à meia luz

E me desdigo nestes versos.



BEEN FORNIDA
Cantiga de maldizer

Dicem-me que Ruy Sanos
Anda ahy de mulher nova
´Staa tan preso em seos allares
No mas donnea nem trova.
No mas freqüenta esta corte
Ela lhe poz redea curta
Tem o pulso firme y forte
Morde o freio ela o encurta.
Queem é ela, Martin Vaz?
Tu a coñeces muy beem
De teos tempos de rapaz,
La donneaste tambeem.
Filha do meirinho-mor
Dorotea, a beem fornida
Generosa em seo favor
Insolente y deslambida.
De hũa feita engravidou
Côo hũ nobre sem vintém
O bõo meirinho a casou
Foi viver a Santarém. Faz hũ anno enviuvou
Mas gorda que hũa balea
Ruy por amante tomou
Da-lhe casa y bolsa chea. Se ela é hũa balea
Y como sempre arde em fogo
Nosso Ruy hũa lamprea
Como se arranjam no jogo?
Muyto simples, caro amigo
Como o frade de Bocaccio,
Mas non posso dar testigo,
Ella em cima, el en baixo.
Creo o cõopadre se engana,
Cõo hũa tal mulheraça
Sôo pode ser aa romanna
Do contraario ella o amassa.



GÓRGONAS

Alfombra de areia branca
Corais rosados, lacre
Negros, como os do Índico
Acoris azulados

Alcionárias, leques de pólipos
Flores carnívoras

Ervas verde esmeralda
Coleiam com a corrente
Quais apsarás em um friso védico

Górgonas avançam
Cardumes inteiros
Mesmerizam

Envolvem
Carcaças de estrelas do mar
Antozoários
De alvacentos crânios

Medusa fita-me
Antes que me petrifique
Esmago seus filamentos

* * *

Sei de outros seres
Inda mais horrendos

Rematam cornijas góticas
Esculpidas
Por mestres canteiros
Em nuvens de pó envoltos

Idênticas
Às que recobrem
Em campas rasas
Nossos esqueletos

Esses artífices talharam
Gárgulas de catedrais
Em mármore
Hoje cinéreo

Lepra as invadiu

Bocarras desfiguradas
Pelas chuvaradas
Por tetos de ardósia
Escorrendo sempre

Faces brocadas
Pescoços
Grossos, tauríneos
Deles pendentes
Tranças de limo

É mesmo limo
Ou são fiapos
Cordas, baraços
De enforcados?



Nota Importante: 
Esta postagem só foi possível porque recebi um e-mail do poeta Diego Mendes Sousa, informando a morte do grande poeta Mendes Cadaxa, no ano passado. Jovem de Panaíba - PI, Diego Mendes Sousa está indo muito bem na poesia, já com três livros publicados. Vejam a data do seu nascimento: 15 de julho de 1989.  Antes dos 50 Poemas Escolhidos pelo Autor, que vale por uma antologia, sairam outros dois: Divagações, 2006, e Metafísica do Encanto, 2008.

Um comentário:

Fátima Fontenelle A VENDEDORA DE SONHOS... disse...

Passando para te desejar um 2012 maravilhoso. Beijo.

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