quinta-feira, 23 de março de 2017

ARREPIO E DOR - Ednaldo Borges

(Do livro “Tempo de Ser”,
de autoria de Ednaldo Borges)


Uma rosa com amor
Perto de ti: arrepio
Longe: tristeza e dor

Uma rosa com amor
E tudo lá fora
Se desmancha
Em gotículas
Em partículas
Das minhas sensações

Uma rosa com amor
Essa magia rústica que me transporta
Para dentro de ti
Nessa solução de pólen e néctar
Banhando-me na chuva.

_______

The. 04/01/2017

segunda-feira, 20 de março de 2017

BRASÍLIA, ALÉM DOS JABUTIS

Manoel Hygino*

Enganam-se redondamente os que apenas veem em Brasília a sede administrativa e política do país. É o que se depreende da antologia de “Nós poetas de 33”, organizada por Joanyr de Oliveira, autor mineiro nascido em Aimorés e que na sede do governo, viveu, por muitos anos, para ser sepultado cercado pelo carinho, a amizade e o respeito de quantos com ele conviveram.

A vitalidade literária da capital federal se pode aferir pela primeira coletânea de seus poetas em 1962. Era a pioneira obra no campo das letras ali editada, conforme Napoleão Valadares.

Em seguida, imaginou-se editar duas novas coletâneas, uma do próprio Joanyr, reunindo “Poetas de 33” (os nascidos naquele ano) e “Poetas dos Anos 20”, como concebera Fernando Mendes Vianna.

Ambos não puderam assistir ao resultado de seu projeto, pois falecidos respectivamente em 2009 e 2006.

Para resgatar a esplêndida contribuição dos escritores da capital federal, decidiu-se por lançar, em 2014, “Nós - poetas de 33”, ao ensejo do quinto aniversário de morte do idealizador da antologia. Nela, apresentam-se em plenitude Fernando Mendes Vianna, Francisco Miguel de Moura, Hugo Mund Júnior, Joanyr, José Jerônimo Rivera, Lupe Cotrim Garude, Maria José Giglio, Miguel Jorge, Murilo Moreira Veras, Octávio Mora, Olga Savary e Walmir Ayala, nomes expressivos de nossa poesia, embora alguns não tão conhecidos como se impõe.

A edição se tornou possível graças ao empenho de Kori Bolivia, ex - presidente da Associação Nacional de Escritores, e ao decisivo apoio da Editora Thesaurus, isto é, Victor Alegria, seu diretor. No empreendimento, ressalte-se a participação de Anderson Braga Horta, “grande vate de 1934, amigo de todos os poetas e o maior dentre todos nós que nos tornamos brasilienses”.

O volume lançado, já sem a presença física de autores notáveis na poesia, é uma relíquia a ser guardada em área nobre para consulta pelos amigos do bom e do belo, que existem, sim, em nosso país. E, antes que me escape o raciocínio, que se advirta para a exposição crítica de Anderson (filho de pais poetas), mineiro de Carangola com todas as honras, sobre a obra de Joanyr e Mendes Vianna, com observações da maior importância para avaliar o legado de ambos autores e que inspira o livro.

Embora não restrito a vates de Brasília ou lá residentes, agora e antes, o “Poetas de 33” resulta da dedicação de Anderson à produção dos autores nascidos no já distante 1933. Resume o sentimento do escritor carangolense com relação àqueles que fazem da cidade inventada por Juscelino uma metrópole muito acima do unicamente material.

As vozes do planalto central se sintetizam na expressão de três poetas maiores, Joanyr, Mendes Vianna e Ánderson, talvez saudoso dos “dias empoeirados dos pioneiros. Do luar, dos bichos, das sujas botas, dos tratores em guerra sem tréguas com o mundo desértico e esquivo que o homem veio dominar para todo o sempre”.

______________________

*Manoel Hygino, jornalista mineiro, responsável pelo site “Hoje em dia”, de onde tiramos o presente artigo publicado em 04/06/2015. sobre o livro “Nós, poetas de 1933”, antologia organizada por pelo poeta Joanyr de Oliveira, publicada em Brasília-DF

sábado, 11 de fevereiro de 2017

APRESENTAÇÃO DO LIVRO POESIA (IN)COMPLETA DE F. M. MOURA

                                                                                                                            Miguel Júnior*

Sr. Presidente da Academia Piauiense de Letras, Nelson Nery Costa, autoridades presentes, senhoras e senhores acadêmicos, meus familiares, amigos e demais convidados, minhas senhoras e meus senhores, peço a permissão, inicialmente, para dividir minha alegria, como apresentador, com todos aqui presentes, que me concedem o prazer da companhia e a honra do comparecimento a esta solenidade de lançamento do livro: Poesia (in) Completa, 2ª edição, revista e aumentada, de Francisco Miguel de Moura, da Coleção Centenário da Academia Piauiense de Letras.
Quando recebi o convite para apresentar o lançamento do livro pensei que seria fácil, pois sou seu filho e cinquenta e dois anos de convivência me daria uma certa tranquilidade. Logo percebi que a imparcialidade seria uma barreira a ser vencida. Minha fala estaria cheia de subjetividades. Afinal, meu pai é referência em tudo em nossa família. Honesto, ético, amigo, responsável, sempre cultuou bons hábitos. Como escritor, obstinado! Francisco Miguel de Moura ama o que faz e por isso faz bem feito, com maestria. Respira e transpira literatura. Na maioria das vezes, se a conversa não for sobre livros, silencia. Para não se isolar do mundo, então, transforma tudo ao seu redor em arte, num processo de lapidação das impressões do meio exterior, imprimindo-lhe os sentimentos pessoais, através do seu estilo e criação. Na verdade, briga com as próprias escolhas, entre o feijão e o sonho, busca o equilíbrio. Sobreviveu como bancário e vive como escritor.
Todo escritor enfrenta pelo menos três problemas: escrever, publicar e ser lido. Escrever não é fácil, pois muitas vezes as palavras são frutos do sofrimento, marca inevitável da personalidade do artista. Não importa, por mais que se esquive, não consegue libertar-se totalmente do seu mundo conflitual. Todo esse processo é um trabalho árduo, onde o sucesso e o fracasso andam de mãos dadas. Escrever é, primeiramente, vencer a si mesmo, sem medo, resignado e apto a transferir os conflitos pessoais às personagens.
O segundo grande problema enfrentado pelo escritor é uma missão quase impossível no Brasil, publicar um livro. Não por falta de editores, mas por falta de leitores. Os custos da publicação e distribuição de um livro são extremamente altos e apenas uma pequena parcela da população possui renda para comprá-los com regularidade e uma parcela menor ainda possui o hábito da leitura. Parte dessa falta de hábito é cultural. Muitas escolas não incentivam a leitura, obrigam os alunos a ler apenas determinados livros, quando não resumos, para que possam ser aprovados em determinados exames.
O terceiro problema que o escritor tem que enfrentar é como fazer para ser lido. Talvez o maior medo do autor, em todos os tempos, é lidar com a ausência de leitores, principalmente, se for poesia. É na criação verbal que reside a genialidade. Não pode ser hermética. Encurtar a distância é que possibilita a realização completa do escritor, pois não basta escrever, é preciso ser lido.
Francisco Miguel de Moura soube enfrentar os três problemas e sem deixar o Piauí. Venceu os três desafios e outros mais impostos ao escritor. Saiu de um ambiente inóspito, rodeado de miséria e fome. Estudou em escola pública e leu à luz do candeeiro, sem os recursos que se tem hoje. Era para dar errado, mas não deu. Nunca deixou de escrever, publicar e ser lido. Aos 83 anos de idade, com mais de trinta livros publicados e esgotados, em sua grande maioria, tem fôlego para muito mais. Incansável, divulga suas obras na internet através do blog que idealizou e criou franciscomigueldemoura.blogspot.com.br.
É fato que não podemos separar, na origem, o escritor de sua criação. Assim, apresento-lhes, de forma sintética, primeiramente, o criador. Francisco Miguel de Moura nasceu na fazenda “Curral Novo”, em Jenipapeiro, hoje Francisco Santos, que pertencia ao município de Picos, sertão do Piauí, aos 16 de junho de 1933. Técnico em Contabilidade, graduado em Letras pela Faculdade Católica de Filosofia do Piauí e pós-graduado em Crítica de Arte pela Universidade Federal da Bahia. Foi comerciário, funcionário do Banco do Brasil, escrivão de polícia, radialista, professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira. Aposentou-se para se dedicar, exclusivamente, à literatura. É poeta, romancista, ensaísta, cronista, contista e colabora em diversos jornais do país e do exterior. É sócio efetivo da União Brasileira dos Escritores e membro da Academia Piauiense de Letras.
Estreou na poesia, em 1966, com o livro Areias. Publicou em seguida: Pedra em Sobressalto, Universo das Águas, Bar Carnaúba, Quinteto em mi(m), Sonetos da Paixão, Poemas Ou/tonais, Poemas Traduzidos, Poesia in Completa, Vir@gens, Sonetos Escolhidos, Antologia de Poemas, Tempo contra Tempo (em coautoria com Hardi Filho), Arfogo – romance da revolução e Cinquenta Sonetos.
Em prosa é autor dos romances Os Estigmas, Laços de Poder, Ternura, e D. Xicote. Dos contos: Eu e meu Amigo Charles Brown, Por que Petrônio não Ganhou o Céu e Rebelião das Almas. Na crônica, é autor de E a Vida se Fez Crônica, A graça de cada dia e O menino quase perdido. Como crítico literário escreveu Linguagem e Comunicação em O. G. Rego de Carvalho, A Poesia Social de Castro Alves, Um Depoimento Pós-Moderno, Assis Brasil, Castro Alves e a Poesia Dramática e Moura Lima: do romance ao Conto. Escreveu ainda, Piauí: Terra, História e Literatura, Literatura do Piauí e Miguel Guarani, Mestre e Violeiro.
Francisco Miguel de Moura é um dos escritores mais produtivos do Piauí. Premiado em vários concursos literários, tem sua obra recebido manifestação positiva da crítica, vinda de escritores de todo o país, como João Felício dos Santos, Olga Savary e outros. Por isso não podemos deixar, neste momento, de registrar as impressões de alguns de seus ilustres leitores e que atestaram a sua importância no desenvolvimento da literatura do seu Estado.
Fontes Ibiapina revela, ao prefaciar Areias, “Impressiona pela simplicidade do termo, emprestando, numa comunicabilidade impressionante, muito de simpatia ao leitor bem avisado. Em todo o conteúdo da obra, encontra-se uma intimidade contagiante familiarizando e irmanando, na tela da padronagem do seu pano de fundo, - o poeta, o livro, a terra. ”
H. Dobal destaca “Li seu livro e não foi surpresa encontrar a boa poesia que eu esperava. A surpresa foi realmente uma questão de grau: os poemas são ainda melhores do que previa a minha expectativa. ”
O poeta e crítico Francisco das Chagas Val, assim delineou a personalidade e o talento de Francisco Miguel de Moura “é um escritor que exerce o seu ofício com bastante competência e, em qualquer página por ele escrita, lá estão as qualidades intrínsecas que são as marcas a destacá-lo como uma legítima vocação literária inconfundível, em meio aos outros escritores de sua geração. ”
Hardi Filho, em artigo publicado no jornal O DIA, se pronuncia: “Francisco Miguel de Moura, que, por via de sua arte de padrão tecnicamente elevado, tornou-se conhecido e considerado pelas elites culturais. ”
O. G. Rego de Carvalho ao ler a poesia de Francisco Miguel de Moura se rende ao talento e sentencia: “Poeta de corpo inteiro, senhor e não servo das palavras, conhecedor profundo e sofrido de nosso interior, mais telúrico de que Fontes Ibiapina na sua prosa, piauiense no assunto e universal na transfiguração do tema, Francisco Miguel de Moura cresceu na minha admiração e hoje o posso citar como um dos três maiores poetas do Piauí, ao lado de Da Costa e Silva e H. Dobal. ”
Gostaria de encerrar esta apresentação dizendo para aqueles que não são escritores ou que queiram apenas ser leitores, não se intimidem com as impressões dos doutos, apenas inspirem-se. Façam uma leitura atenta, analise os detalhes, demorando-se em cada palavra, saboreando lentamente o poema e por fim o livro. Não precisa procurar o que está por trás do texto, basta aquilo que está nele, que faz dele o que ele é. Então, será o despertar e a essência se mostrará.
_____________________________
*Miguel Júnior, brasileiro, baiano, escritor, advogado, bancário, mora em Teresina, filho de Francisco Miguel de Moura, discurso lido na solenidade de lançamento de “Poesia in Completa”, dia 12/11/2016, na Academia Piauiense de Letras.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

TEMPO E ETERNIDADE

Francisco Miguel de Moura*


Do tempo julgamos saber muito, pelo menos do tempo em que vivemos entre o nascimento e a morte. E o antes? E o depois? Do passado, somente através da história. E do futuro pelas premonições, profecias, etc. Aliás tem um ditado que proclama que “o futuro a Deus pertence”. Eu digo, sem nenhuma intenção de fazer trocadilho: “Se soubéssemos do nosso futuro, então o futuro não teria futuro nenhum”.

Do tempo em que vivemos é que deveríamos saber mais. Mas como, se a maioria da população, do mundo não sabe nada, ou quase nada? Quando você nasceu? Meus pais me disseram e me registraram como sendo em tal data, mês e ano. E eis que chega alguém e pergunta, de chofre, a você: quantos são hoje, qual o mês, qual o ano? Normalmente olha-se no calendário, para ter certeza. E quem fez o relógio? E o calendário? Por que foi feito? Para que o homem não se perdesse no tempo, que para a vida de cada um é limitado, e assim pudesse realizar alguma coisa. Observando o sol, a lua, as estrelas, daí nasceram todas as marcações do tempo que julgamos conhecer, pois há o tempo psicológico, o tempo interno da alma humano, do ego – este muito mais difícil de medir (impossível até), de perceber, de dominar.

Na minha filosofia de poeta, o homem (e a mulher também, é claro) é aquilo que faz. Se nada faz não é nada, se não faz nada não tem nada, não tem história pra contar, perde-se no tempo. É isto ou estou falando besteira?

Neste caso, os maiores homens seriam os poetas porque “poesia”, na sua origem grega, significa fazimento, ação criação. Ou seja, o homem primeiro fez sua casa, sua poesia, seja a caverna de ontem, seja o palácio de hoje. Nós humanos fizemos, no tempo, a língua, as línguas. O poeta usa a língua para fazer poesia. Os homens, em geral, usam a língua para se comunicarem e, assim, vencer a solidão e agarrar o seu tempo, entretendo-se, trabalhando ou pensando. O pensamento sem a palavra física (ouvida, falada, escrita) certamente fica limitado, por mais que os outros órgãos do sentido ajudem.

Entretanto, o homem ganhou consciência do tempo, após o fim do crescimento do cérebro e, através da linguagem e vivência, aprendeu que seu tempo é limitado. Vem a morte, é preciso fazer alguma coisa e deixar aos outros sua memória. Toda a civilização cresceu assim, fez-se dessa forma, em atos comezinhos para nós, hoje.

A marcação do que foi feito sobre o movimento dos astros é prática necessária. Resta saber do tempo da terra, dos planetas, do universo. Lá pelos confins o tempo se acaba, os planetas morrem e começa a eternidade. Como, sem o tempo?
A eternidade é o tempo sem fim. Será mais do que isto?

Aí vem as religiões. E proclamam que há eternidade, quando o homem falece. Mas, se os planetas, as estrelas, o universo se consomem e quando se consomem, para onde vamos nós? Ou a lei de Lavoisier está correta: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. O universo é só natureza ou é mais do que isto?

Se tudo se transforma, então o tempo se transforma, porque ele nada mais é do que a relação entre a matéria e o movimento. Então, a realidade existente se encerra em duas coisas: matéria e movimento. O tempo comum é ficção do cérebro humano, os cientistas sabem disto. Aliás, numa frase irônica, o sábio Albert Einstein, cientista que descobriu a lei da relatividade, encarregou-se de matar a eternidade. A frase é a seguinte:

“Somente duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. E não estou seguro quanto à primeira”.

Bem, creio nem devíamos mais seguir buscando o que é a eternidade, de Einstein. Mas, como sou estúpido, penso que a eternidade se resumo no tempo que gastamos, que também é velocidade, também é nossa relação com nosso corpo e todo o universo, que por sua vez não é eterno. Socialmente, o tempo são as nossas relações com os outros, todos diferentes de nós. Fazemos rotação em torno deles, mas não os invadimos – e quando invadimos é pecado, é crime.
Agora, meu leitor me acorda e cita Dostoiévski:

“Deus existe, porque, se ele não existisse tudo seria permitido”.

A eternidade está em Deus, aquele Deus que não conhecemos porque “somos uma parte infinitamente pequena dele, e a parte jamais conhecerá o todo”. Aqui tento concordar com outro filósofo: Spinoza, - se não me engano, pelo pensamento central de sua obra filosófica.

De forma que o saber vem a ser a acumulação dos conhecimentos da história, do passado no presente, e a eternidade – se é que ela existe mesmo – está onde não estamos e nem sabemos onde ela fica. Se é noutro universo, precisamos descobrir. A ciência não cessa de procurar, mas essa descoberta não vai ser para a gente saber tão cedo, nesta vida.

E há outras vidas? Ou apenas esta? Se somos carne (matéria) e (espírito), para onde vai este último, depois da morte que, como acreditamos, é a separação dos dois?

Não acredito que meus leitores tenham ficado satisfeitos com minha peroração filosófica. Mas, afinal, foi o que pude trazer. Espero continuar estudando o assunto, conhecendo mais, acreditando um pouco e duvidando outro tanto. Também receber as sugestões.

Será que os termos de que tratamos aqui são todos ficção e somente a vida é o que existe? A vida animal? A vida vegetal? E a vida mineral?

__________________
Francisco Miguel de Moura, escritor, membro da Academia Piauiense de Letras, e-mail: franciscomigueldemoura@gmail.com

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

O MELHOR POEMA

Manoel de Barros (1916-2014)

O livro sobre nada

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu queria ser lido pelas pedras.
As palavras me escondem sem cuidado.
Aonde eu não estou as palavras me acham.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.
Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
Por pudor sou impuro.
O branco me corrompe.
Não gosto de palavra acostumada.
A minha diferença é sempre menos.
Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
Não preciso do fim para chegar.
Do lugar onde estou já fui embora.


domingo, 18 de dezembro de 2016

A FLOR E O LIVRO

Francisco Miguel de Moura
Poeta e prosador


Acordei cedinho. Uma flor me viu,
Flor que me dera seu primeiro beijo.

O sol ia alto. Apressei pra livrar-me
Dos raios, e a flor dos meus dedos caiu.
Eu sou uma flor, esqueça meu cheiro”.
Mas ao lugar do crime a gente volta.

Na seguinte manhã, a mesma flor!
Pra meu espanto, solitária e triste.
E eu apanhei-a da beira do caminho,
E a beijei, e o fiz, sem reconhecer.

Ah! que maldade a natureza trouxe!
Enquanto os vegetais nos fazem o bem,
Nós animais - “tidos tão perfeitos” –
Tudo esquecemos... Até flor e beijo!

Ela chorou, chorou, lembrei seu cheiro
E me voltei em lágrimas e enleios.
E agora a guardo, para o meu carinho,
Quando voltar às páginas que leio.

Oh! Guardarei o livro para sempre
E o grande amor que a florzinha me deu!

Agora, todo dia, eu abro aquela página

E ela está me olhando. E lá estou eu.

(Poema inédito em livro)

sábado, 10 de dezembro de 2016

3 POEMAS (para um dicionário de Portugal):

CHEGA O TEMPO

Francisco Miguel de Moura

chega o tempo de dizer-se
o que não se ouviu.

mas as palavras são mistérios
nem mais soam
como os sinos
nos nossos ouvidos
sonolentos

chega um tempo de dizer-se o impossível
e o impossível já foi dito

chega um tempo de calar
e a gente inventa uma maneira triste
de dizer numa língua estranha
um silêncio amordaçado.

A HORA VAZIA

Francisco Miguel de Moura

silêncio sem boca nem fundo
esvazia-se no jarro partido.

a beleza da sala chora sem lágrimas
não tece preto nem branco.

cacos não preenchem o vazio,
são novos buracos cravados
no sangue da mão do menino.

e o vazio inquebrável
como qualquer desvio
da luz e do silêncio não se move.

nenhuma palavra.

palavras não enchem o vazio
nem a inutilidade dos desejos.


         A JOIA RARA

Francisco Miguel de Moura
      
Luz e sombra dão na mesma cor
dos olhos e do carinho.
Dizem que amor não some,
renasce do lodo, mansinho.
Mas preciso agora escutá-lo,
não abandono o que ganhei,
neste momento, sobretudo,
quando tentam riscar o passado.

Lábios e corações, ó, não se fechem,
os olhos têm a última esperança.
Que reste sempre um fio de cabelo
no tempo de cada um, nas entranhas.

Um vintém de qualquer aventura
para os que não conseguem
nessa margem se perder.



As.) Francisco Miguel de Moura
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