quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O ASSASSINATO DO LEITOR E DA LITERATURA NOS CURSOS DE LETRAS




 Rosidelma Fraga*

Influenciada pela insônia que me toma sempre quando penso na morte e guiada pelo título ensaístico “O assassinato de Mallarmé”, de Silviano Santiago e da profecia poética de Stéphane Mallarmé “tudo existe, no mundo, para acabar em livro”, eu abri uma página para escrever um texto às avessas. Paradoxalmente ao que diz a frase célebre do poeta francês, descortino a palavra, a fim de ponderar um assunto que vem me perturbando desde o instante em que eu determinei ser professora de literatura, ao entrar para a Graduação em Letras e, paulatinamente vivenciar práticas pedagógicas na Educação Básica e no Ensino Superior. De forma brevíssima, meu objetivo fulcral aqui é dar algumas alfinetadas sobre o tema o assassinato do leitor e da literatura associado ao diploma conferido a um professor da área de Letras. Parece estranha a proposta, já que na própria envergadura e no corpo fônico da palavra LETRAS há o verbo LER. Por conseguinte, quem escolhe a licenciatura ou bacharelado em Letras será um leitor. Seria mais que óbvio se não fosse obtuso, diria meu amigo Roland Barthes.
Antes de tudo, assevero que não foi o Curso de Letras que me conduziu à literatura. Ao contrário, a poesia quem me levou a prestar vestibular para Letras que, por sorte celestial, havia a Universidade do Estado de Mato Grosso em minha terra-mãe. Mesmo almejando a Licenciatura em Música, diria que se eu tivesse que fazer outra graduação, em qualquer lugar do Brasil ou do exterior, eu escolheria Letras duplamente pela Literatura, apesar dos percalços e das pedras que vou encontrando no caminho para persistir na profissão desejada e amada.

Um leitor é assassinado sempre que as universidades e o MEC conferem o diploma a alguém que passou os quatro anos em busca da habilitação em Licenciatura Plena em Letras, sem ter se identificado com o curso, sem ser apaixonado por Literaturas e pela Língua Portuguesa roçando em nossa língua. É assassinado também sempre quando sai do curso sem compromisso com a formação do leitor, quando não vive o curso de corpo e alma. É assassinado desde o momento em que desejou cursar Medicina e, como não foi e nunca seria aprovado, resolveu prestar vestibular para Letras porque é o curso de menor demanda, não necessariamente o mais simplificado e de menos valor cultural ou com menos exigência de Leitura. Acredito que ser formado em Letras é mais que uma responsabilidade social, uma vez que a leitura legitima o homem. Em Vários escritos (2004, p.176), o professor Antonio Candido grafou: “a literatura confirma a humanidade do homem”. Ela contribui para “a formação da personalidade [por ser] uma forma de conhecimento do mundo e do ser”. Logo, a leitura deve estar adiante de todo e qualquer diploma, mormente o de Licenciatura Plena em Letras.

Assim, defendo que a exigência no mencionado curso deveria ser mais austera e a disputa pelo diploma deveria ser acirrada como jogar e ganhar na mega sena. Escrevo isso porque a nota de corte na seleção do vestibular para Letras nas regiões periféricas do país é insignificante em relação aos cursos de maior demanda. A maioria dos candidatos que passa para Letras normalmente lê resumo de obras literárias e redige muito mal. E isso não é uma metáfora, muito menos um discurso ficcional. O candidato aprovado passa o curso inteiro tentando se enganar e ludibriar alguns professores que, muitas vezes, se parecem mais com “padrinhos”, dando de presente sempre um “jeitinho de brasileiro” com oportunidades a certos alunos que estão muito mais preocupados com qualquer DIPLOMA DE CURSO SUPERIOR do que com a FORMAÇÃO DE LEITORES. 

Por causa de tal objetivo que diverge dos objetivos do Curso de Letras, eu fui me transformando numa sadista em matéria de exigência. A leitura deve ser prazerosa? Indubitavelmente. Mas para um professor, leitura por prazer e leitura por obrigação devem ter uma relação cordial de sinonímia, independente do que diz uma regra gramatical. Eu tenho consciência de que me tornei um ser humano antipático, já que nem sempre é possível despertar o prazer pela leitura em alguém que escolheu o curso errado. Aprendi que não há nada mais prazeroso para um professor do que apreciar um aluno não-leitor jubilando no curso. Seria mais ou menos que ver a queda do World Trade Center e rir liricamente em vez de chorar. Parece puro sadismo misturado a masoquismo que, em literatura pode até virar Katharsis. Ao ser jubilado, o ex-futuro professor estará salvando diversos leitores dos escombros sociais. Haverá menos um professor que lê pouco e lê mal para prejudicar uma sala de aula inteira depois de sua formação. 

Posteriormente a licenciatura em Letras, esse assassino da literatura jamais passará em concurso público para altos cargos federais. Quem não ama literatura irá amar leis e códigos? O certo é que o “habilitado” em Línguas e respectivas literaturas será um pobre, perdido e fracassado. Entre ser carregador de feira livre como o João Gostoso do “Poema tirado de uma notícia de jornal” e ser professor, a última opção será mais apropriada. Com o diploma na mão, lá vai o miserável assassinar leitores. Mesmo não sendo aprovado em concursos públicos para professor, abrirão vagas para contratação nas redes municipais e estaduais e o governo economizará a metade do salário nos cofres públicos porque a preocupação com a educação é uma falácia. E a partir desse momento inicia-se a “bola de neve” para o professor formador de professores. 

E o que uma bola de neve tem a ver com formação de leitor? Entendamos que o professor mal formado irá cultivar outros maus leitores que nem saberão a diferença desse mal com l e mau com u que usei propositalmente. E esses miseráveis que não são os mesmos miseráveis de Victor Hugo poderão entrar para o curso de Letras pelos mesmos pretextos de seu professor de português. Resultado: mais um leitor irá morrer de sede com tantos livros na biblioteca das faculdades de letras que vão se espalhando por todos os cantos periféricos do país. E o que o professor está fazendo se o problema sempre existiu? Cabe a cada um responder a si mesmo.

Como toda crítica, ainda que não hegemônica, deve seguir de uma presumível solução, a minha recomendação é mais que uma reflexão: “faça um bem para a educação, evite divulgar matérias com quantidade de formados em Letras. Priorize a qualidade do leitor que deve vir antes do professor graduado, especialista, mestre, doutor ou pós-doutor. Antes do nome de uma pessoa da educação seria mais interessante inserir Professor-Leitor fulano de tal em vez de Professor Doutor fulano de tal. Nunca apreciei essas exuberâncias e estrelismos pelo simples fator título ou altamente obrigatório e recomendável pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional.

Evite uma tragédia brasileira. Promova o mesmo bem que Misael fez para Maria Elvira. Em som de paródia a Manuel Bandeira: tire uma Elvira da rua, trate-a com livros e folhas de papel couché. Dê um livro como abrigo, nem que ela descubra o prazer de ter como diversos amantes: José de Alencar, Machado de Assis, Guimarães Rosa, Fernando Pessoa, Drummond, Cecília Meireles, Gerardo Mello Mourão, Mia Couto, José Saramago, Lídia Jorge, Ezra Pound, Victor Hugo, Honoré de Balzac, Gustave Flaubert e tantos outros autores da literatura nacional e internacional. Faça cada leitor levantar pela manhã e ler Homero, Virgílio, Camões (lírico e épico), Petrarca, as obras fundamentais da literatura portuguesa e brasileira, incluindo a Literatura Africana de Língua Portuguesa, ainda que Maria Elvira (metonímia para leitor) seja uma lésbica apaixonada por Safo, a décima musa na ilha de Lesbos. Somente assim, a literatura será liberta e o leitor não ficará acorrentado como Sísifo. Lembre-se de Mário Quintana: “quem faz um poema salva um afogado”. Afinal, poetizou um artista pernambucano/goiano chamado Jamesson Buarque (2011) que considero como um professor realmente leitor: “Tudo sempre acaba em livro, Mallarmé: A história de uma pessoa é a história do planeta”.
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*Rosidelma Fraga é poeta e ensaísta brasileira, mora em Goiânia -GO, onde é professorauniversitária. 
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NOTA IMPORTANTE: Este ensaio também pode ser visto e apreciado no link abaixo, basta clicar. 

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

TURMA TEIXEIRA DE FREITAS - HISTÓRIA E SAUDADES

 Francisco Miguel de Moura*


Há acontecimentos editoriais que, não obstante tenham passado pela mídia sem perturbá-la, não deixam de ser até mais valiosos do que os badalados. Tudo por conta do conteúdo duradouro que produzem. Necessário é que se lhes ofereça uma opinião, uma notícia, algumas palavras de agradecimentos e de louvor aos seus organizadores/editores/autores. Falo da edição da “Revista Turma Teixeira de Freitas”, do Acadêmico Desembargador Nildomar da Silveira Soares, comemorando com sua turma da Faculdade Nacional de Direito, Rio de Janeiro, as bodas de ouro (1961-2011), do acontecimento. Trabalho muito bem elaborado e cuidado editorialmente, podemos dizer que é um monumento histórico da espécie – coisa que não é comum. Não é possível citar aqui o nome dos ilustres colegas de Nildomar da Silveira Soares, para nossa alegria, membro da Academia Piauiense de Letras. Por alto: a revista anota livros publicados por colegas e professores dele; foram colocadas homenagens aos maiores juristas da época como Evaristo de Morais Filho e Hermes Lima, por exemplo. A revista compõe-se de 139 páginas, em papel de primeira qualidade e apresentação gráfica impecável. Amplamente ilustrada com fotos das personalidades que faziam a Faculdade Nacional de Direito; monumentos, igrejas, ruas; cópia de preciosos documentos que testemunham os acontecimentos políticos, jurídicos e educacionais da época; fotos da Faculdade, da Biblioteca e outros onde a turma de 1961 (115 formandos ao todo, representando quase todos os Estados do Brasil),  viveram aqueles venturosos anos de estudo e festas da mocidade. A tudo isto, juntou os mais importantes e belos pronunciamentos dos paraninfos e demais figuras que participaram do acontecimento. A publicação conta também com belos poemas e canções de alguns dos colegas que eram dados às artes.

No frontispício da apresentação da Revista, Nildomar abre com esta frase lapidar: “A vida é construída nos sonhos e concretizada no amor”, que mostra muito bem a atmosfera de amizade, solidariedade e compreensão reinante naquela turma de Direito da Faculdade, comprovada durante cinco décadas. E isto só pode deixar muitas saudades. Saudades que Nildomar aqui faz muito bem em relatar.

Prosseguindo, o apresentador Nildomar da Silveira Soares comenta: “Com muito amor no coração, decidi realizar um sonho, editando no meu distante Piauí, para a festa dos 50 anos de formatura pela querida Faculdade Nacional de Direito, hoje com 120 anos de fundação da Universidade do Brasil, Turma 1961, no Rio de Janeiro, esta Revista comemorativa de tão significativa efeméride. Será ela distribuída a título de cortesia, aos colegas e familiares presentes ao encontro. Pretendi produzir este trabalho, resultado de cuidadosa compilação, não por dever ou por compromisso assumido, mas apenas por verdadeiro amor à Turma, imprimindo, na sua conclusão, certa pressa, pois sei que tenho mais passado que futuro, embora não me revolte com o envelhecimento, pois é ele o único meio de viver muito tempo. Durante estes 50 anos, Deus me ofereceu dias sem dor, riso sem tristeza, sol sem chuva, porém Ele, ouvindo minhas orações, prometeu e concedeu-me muita força para cada dia, consolo para as lágrimas e luz para o caminho. Não devo e não posso nada reclamar, como acredito seja, igualmente, o comportamento dos queridos colegas da gloriosa Turma de 1961”.

Aqui, por falta de espaço, encerro o pequeno trecho da apresentação da “Revista Turma Teixeira de Freitas”. Mas termino esta minha homenagem a Nildomar da Silveira Soares, amigo e colega do tempo de Banco do Brasil e da Academia Piauiense de Letras, repetindo a citação que fez do Padre Fábio de Melo: “Quem quiser levar a rosa para a sua vida, terá de saber que com ela vão inúmeros espinhos. Mas não se preocupe... A beleza da rosa vale o incômodo dos espinhos...”
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*Escritor, Membro da Academia Piauiense de Letras, da União Brasileira de Escritores e da International Writers and Artists Association (IWA - Estados Unidos)

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

A. B. MENDES CADAXA – POETA (1917-2011)

 NOTÍCIAS 
BIOBIBLIOGRÁFICAS




 Diego Mendes Sousa 
         de Parnaíba - PI, por e-mail 
      Francisco Miguel de Moura - Teresina-PI           




CONSIERAÇÕES
SOBRE
A VIDA E A OBRA
A. B. MENDES CADAXA


Por correspondência, privei da agradável amizade de A. B. Mendes Cadaxa (Armindo Branco Mendes da Cadaxa. Trocávamos livros, poemas e cartas, regularmente. A poesia de Cadaxa é uma das melhores feita por poetas brasileiros, aqui e no exterior. De uma imaginação fértil, inesgotável, com as sutilezas de suas mensagens até poderia ser considerado um poeta hermético. Mas não era. O que ele não fazia era o poema fácil, brincalhão, de ocasião. Homem de uma sinceridade a toda prova, escrevia o que sentia, com a influência do que ouviu e leu, e não foi pouco, como mostra sua vida bastante movimentada de diplomata. Foi uma das grandes perdas da literatura. Com toda sua cultura não deixou de ser simples - e é difícil ser simples. Por esta razão é que o seu desaparecimento não causou nenhum rebulício, foi assim como viveu: no silêncio do dia-a-dia do que há de mais belo nas artes, para mim: a poesia. Cabe agora aos editores e comunicadores dar-lhe a dimensão maior que não se propôs nem quis durante sua passagem por este planeta.
Repetindo as palavras do poeta Diego Mendes Sousa: "Sempre tive uma profunda admiração por Gerardo Mello Mourão (Ceará, 1917 - 2007) e por Armindo Branco Mendes Cadaxa ( São Paulo, 1917-2011).  São escritores caudalosos carregados de filosófica poesia e, de certa maneira, injustiçados pela mídia e pouco conhecidos pelo público em geral.
O motivo desta conversa é a passagem pela vida de Armindo Branco Mendes Cadaxa ou, simplesmente,  A. B. Mendes Cadaxa, recentemente falecido".
A. B. Mendes Cadaxa, diplomata, serviu nos Consulados do Brasil na Itália, nos Estados Unidos, na Argentina, na Suíça, na Alemanha, na Rússia, na Polônia, na Jamaica, no Uruguai, no Haiti e na Inglaterra, onde foi co-editor da Revista Envoi, de poesia, fazenda as mais belas traduções de diversos poetas brasileiros para a Língua Inglesa.

Poeta, é conceituadíssimo, na opinião da mais acreditada crítica brasieira. Transcremos pedaços de apreciação de André Seffrin, Ivo Barroso e Marco Lucchesi:
André Seffrin:
"Poesia de ritmos largos, oceânicos, afinidade com a poesia inglesa, gosto por alusões míticas e pela reconstituição do mosaico humanista, sugere algo à Pound e Eliot".
Ivo Barroso:  
"Poesia poundiana, eliotiana, rilkeana, manjar de poetas e de estetas".
Marco Lucchesi:
"Uma pluralidade textual que encanta: penso em Eliot, Toynbee, Spencer, enquanto Weltanschaung que atravessa toda a sua poesia".

Pois é, "A. B. Mendes Cadaxa é a velocidade da linguagem, poeta glorioso como poucos, um autêntico! Alta pureza verbal, poeta de erudição e conhecimentos amplos, simbólico, hermético", por sua vez, afirma o poeta parnaibando Diego Mendes Soua, que recentemente lançou 50 Poemas Escolhidos pelo Autor, pelas Edições Galo Branco, Rio de Janeiro, 2010.

Com o livro Perspectiva Desde a Rocha, A. B. Mendes Cadaxa recebeu o Prêmio Nacional de Poesia do PEN Clube do Brasil, em 1997. Em seguida, o Prêmio Jabuti com o livro Promontório, com a presença da genialidade.
A. B. Mendes Cadaxa é o responsável pela tradução dos poetas chineses em Língua Portuguesa, no livro Escadaria de Jade, mérito reconhecido pela União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro com a medalha Paulo Rónai.
Recebeu o Prêmio Jorge de Lima da Academia Carioca de Letras, sob o comando da poetisa Stella Leonardos, em 2000. Em 2010, foi agraciado com o Prêmio Joaquim Noberto da mesma Academia, devido ao sucesso de Poemas Tardios, com traduções da poesia de Meng Chiao.
A. B. Mendes Cadaxa é autor de peças teatrais e de romances de cordel em belíssimo estilo clássico.
"Privei de sua valorosa amizade nos dois últimos anos de sua vida (2009-2011), já na casa de seus noventa e tantos anos, mas pleno e lúcido, em que trocávamos correspondências intelectuais. Eu, na Parnaíba, no Piauí; ele, em Nova Friburgo, no Rio", acrescenta Diego  M. Sousa.
No seu rol de companheiros de viagens literárias estão João Cabral de Mello Neto, Dora Ferreira da Silva, Alberto da Costa e Silva, Lauro Escorel, Ivan Junqueira, Fernando Py, Per Johns, Antônio Miranda, César Leal, Affonso Romano de Sant'Anna, Stella Leonardos, José Mendonça Teles, dentre outros.
A. B. Mendes Cadaxa era membro do PEN Clube do Brasil.

Alguma poesia: 
 
CHEGA DE FALAR EM FLORES

Chega de falar em flores
já te custa distinguir
Matizes, cores

Mal reconheces
O penetrante olor do cravo

Há que colher uma braçada
Para a sala perfumar

 *  *  *

Sei haver coisas mais profundas
Neste mundo
Devastado pelos três ginetes
Do que flores, nuvens
Lages flutuantes

Reprovam-me
Por não dar sentido social
Ao que hoje escrevo

* * *

Na volta à fazendola
A estrada é bordejada
De açucenas
Os regatos de lilazes

Na baixada junto à pontizela
Framboesas, amoreiras

Contrastando
Com o verde intenso
Abrem-se rosas

Da cerejeira colho orquídeas
Sob o peso
Ramos estalavam

Tomam na jarra
O lugar
Das violetas

Fragrância redolente
Volúpia
De formas e tons
Qual Mulher que se desnude
à meia luz

E me desdigo nestes versos.



BEEN FORNIDA
Cantiga de maldizer

Dicem-me que Ruy Sanos
Anda ahy de mulher nova
´Staa tan preso em seos allares
No mas donnea nem trova.
No mas freqüenta esta corte
Ela lhe poz redea curta
Tem o pulso firme y forte
Morde o freio ela o encurta.
Queem é ela, Martin Vaz?
Tu a coñeces muy beem
De teos tempos de rapaz,
La donneaste tambeem.
Filha do meirinho-mor
Dorotea, a beem fornida
Generosa em seo favor
Insolente y deslambida.
De hũa feita engravidou
Côo hũ nobre sem vintém
O bõo meirinho a casou
Foi viver a Santarém. Faz hũ anno enviuvou
Mas gorda que hũa balea
Ruy por amante tomou
Da-lhe casa y bolsa chea. Se ela é hũa balea
Y como sempre arde em fogo
Nosso Ruy hũa lamprea
Como se arranjam no jogo?
Muyto simples, caro amigo
Como o frade de Bocaccio,
Mas non posso dar testigo,
Ella em cima, el en baixo.
Creo o cõopadre se engana,
Cõo hũa tal mulheraça
Sôo pode ser aa romanna
Do contraario ella o amassa.



GÓRGONAS

Alfombra de areia branca
Corais rosados, lacre
Negros, como os do Índico
Acoris azulados

Alcionárias, leques de pólipos
Flores carnívoras

Ervas verde esmeralda
Coleiam com a corrente
Quais apsarás em um friso védico

Górgonas avançam
Cardumes inteiros
Mesmerizam

Envolvem
Carcaças de estrelas do mar
Antozoários
De alvacentos crânios

Medusa fita-me
Antes que me petrifique
Esmago seus filamentos

* * *

Sei de outros seres
Inda mais horrendos

Rematam cornijas góticas
Esculpidas
Por mestres canteiros
Em nuvens de pó envoltos

Idênticas
Às que recobrem
Em campas rasas
Nossos esqueletos

Esses artífices talharam
Gárgulas de catedrais
Em mármore
Hoje cinéreo

Lepra as invadiu

Bocarras desfiguradas
Pelas chuvaradas
Por tetos de ardósia
Escorrendo sempre

Faces brocadas
Pescoços
Grossos, tauríneos
Deles pendentes
Tranças de limo

É mesmo limo
Ou são fiapos
Cordas, baraços
De enforcados?



Nota Importante: 
Esta postagem só foi possível porque recebi um e-mail do poeta Diego Mendes Sousa, informando a morte do grande poeta Mendes Cadaxa, no ano passado. Jovem de Panaíba - PI, Diego Mendes Sousa está indo muito bem na poesia, já com três livros publicados. Vejam a data do seu nascimento: 15 de julho de 1989.  Antes dos 50 Poemas Escolhidos pelo Autor, que vale por uma antologia, sairam outros dois: Divagações, 2006, e Metafísica do Encanto, 2008.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

DISCURSO DE CÍCERO ( 63 a.C) - a CATILINA


O "PRIDIE KALENDAS" APRESENTA:
DISCURSO DE CÍCERO ( a.C)
Primeiro discurso contra Catilina de Marco Túlio Cícero, cônsul de Roma, recitado no Templo de Júpiter em 8 de Novembro de 63 a.C.
 Lúcio Sérgio Catilina, patrício romano, nasceu em 109 a.C., morreu em 62 a.C. Corajoso e ousado, mas sem escrúpulos, fomentou contra o Senado uma conjuração, em que entravam os cidadãos mais depravados e endividados de Roma; esta conjuração foi denunciada por Cícero em 63. Morreu com as armas na mão, em Pistóia. Por proposta de Catão, os conjurados foram condenados à morte. Catilina ficou a ser o tipo do conspirador, e o nome dele, emprega-se para designar os que desejaram reconquistar a sua fortuna sobre as ruínas da própria pátria.
Conjuração de Catilina, obra histórica de Salústio, modelo de eloqüência concisa, a despeito de certa obscuridade na exposição dos fatos.
Caio Salustio Crispo, historiador latino, nasceu em Amitermo (Sabina) (86-=35 a.C), autor da Vida de Jugurta e da Conjuração de Catilina; um dos escritores mais concisos e mais profundos da literatura romana. Espírito claro, metódico, criou em Roma a história filosófica à maneira de Tucídides. A sua carreira política foi infinitamente menos recomendável que os seus escritos. Governador da África, acumulou escandalosas riquezas que lhe permitiram construir um magnífico palácio cercado de jardins célebres.
Fonte: Lello Universal
PRIMEIRA CATILINÁRIA
A etimologia da palavra CATILINÁRIA tem a sua origem de uma acusação violenta, como a que Cícero fez a Catilina.
Primeiro discurso contra Catilina de Marco Túlio Cícero (106 a.C. - 43 a.C.), cônsul de Roma, recitado no Templo de Júpiter em 8 de Novembro de 63 a.C., local para onde tinha sido convocado o Senado de Roma.
Oh tempos, oh costumes! Uma das mais famosas frases de todos os tempos, foi pronunciada há mais de 2000 anos por Cícero, ao discursar perante o Senado de Roma começando a destruir um tentativa de golpe de estado contra a República. Cícero tinha confirmado os seus dotes oratórios quando sete anos antes, em 70 a.C., tinha conseguido que o corrupto governador da Sicília Caio Verres fosse impugnado (demitido do seu cargo) mas agora enquanto cônsul de Roma o caso era mais grave.
A conspiração contra o Senado dirigida por Lúcio Sérgio Catilina, candidato vencido ao cargo de cônsul nas eleições de Julho de 64 a.C. assim como nas de 63, lugar-tenente de Sila durante a ditadura deste, antigo governador da província de África, amigo de Júlio César e de Crasso, os dois dirigentes do Partido Popular em Roma, tinha começado em Setembro de 63 a.C., após a realização das eleições e já tinha provocado reacções de Cícero e do Senado, mas o chefe da conspiração tinha conseguido até aí não ser incriminado. 
Na noite de 6 para 7 de Novembro Catilina reuniu novamente os dirigentes da conspiração para tomarem as últimas decisões antes da nova tentativa de golpe, mas Cícero foi informado da reunião e das decisões aí tomadas e decidiu convocar o Senado para o Templo de Júpiter Estátor para o dia seguinte. Quando o chefe da conjura apareceu na reunião, Cícero ficou tão indignado que se dirigiu directamente a Catilina, acusando-o violenta e directamente, no primeiro de quatro célebres discursos - as Catilinárias -, que acabaram por convencer o incrédulo Senado da existência da conspiração e das culpas de Catilina. Mas neste primeiro discurso Cícero sabia que por lei não poderia condenar, nem mesmo mandar desterrar, Catilina e por isso tentou que este saísse voluntariamente da cidade, o que de facto conseguiu. Em meados de Novembro Catilina entrou em revolta aberta e acabou por ser condenado à morte pelo Senado em princípios de Dezembro, após um discurso de Cícero - a quarta Catilinária - mas tendo recusado entregar-se foi morto em Janeiro de 62 a.C. no campo de batalha de Pistóia, o que lhe valeu um elogio de Floro: «Bela morte, assim tivesse tombado pela Pátria.»
Este discurso, o mais famoso de Cícero, foi usado como exercício escolar no ensino da retórica durante séculos, como é exemplo em Portugal a tradução do padre António Joaquim que teve três edições e que tem uma componente pedagógica muito importante.

JÁ NÃO PODES VIVER MAIS TEMPO CONOSCO
 I
Até quando, ó Catilina, abusarás da nossa paciência? Por quanto tempo ainda há-de zombar de nós essa tua loucura? A que extremos se há-de precipitar a tua audácia sem freio? Nem a guarda do Palatino, nem a ronda nocturna da cidade, nem os temores do povo, nem a afluência de todos os homens de bem, nem este local tão bem protegido para a reunião do Senado, nem o olhar e o aspecto destes senadores, nada disto conseguiu perturbar-te? Não sentes que os teus planos estão à vista de todos? Não vês que a tua conspiração a têm já dominada todos estes que a conhecem? Quem, de entre nós, pensas tu que ignora o que fizeste na noite passada e na precedente, em que local estiveste, a quem convocaste, que deliberações foram as tuas?
Oh tempos, oh costumes! O Senado tem conhecimento destes factos, o cônsul tem-nos diante dos olhos; todavia, este homem continua vivo! Vivo?! Mais ainda, até no Senado ele aparece, toma parte no conselho de Estado, aponta-nos e marca-nos, com o olhar, um a um, para a chacina. E nós, homens valorosos, cuidamos cumprir o nosso dever para com o Estado, se evitamos os dardos da sua loucura. à morte, Catilina, é que tu deverias, há muito, ter sido arrastado por ordem do cônsul; contra ti é que se deveria lançar a ruína que tu, desde há muito tempo, tramas contra todos nós.
Pois não é verdade que uma personagem tão notável. como era Públio Cipião, pontífice máximo. mandou, como simples particular, matar Tibério Graco, que levemente perturbara a constituição do Estado? E Catilina. que anseia por devastar a ferro e fogo a face da terra, haveremos nós, os cônsules, de o suportar toda a vida? E já não falo naqueles casos de outras eras, como o facto de Gaio Servílio Aala ter abatido, por suas próprias mãos, Espúrio Mélio e, que alimentava ideias revolucionárias. Havia, havia outrora nesta República, uma tal disciplina moral que os homens de coragem puniam com mais severos castigos um cidadão perigoso do que o mais implacável dos inimigos. Temos um decreto do Senados contra ti, Catilina, um decreto rigoroso e grave; não é a decisão clara nem a autoridade da Ordem aqui presente que falta à República; nós, digo-o publicamente, nós, os cônsules, é que faltamos.
II
Decidiu um dia o Senado que o cônsul Lúcio Opímio velasse para que a República não sofresse dano algum. Pois nem uma noite passou. Gaio Graco, apesar da sua tão nobre ascendência, de pai, de avô e de seus maiores, foi morto por causa de certas suspeitas de revolta; juntamente com os filhos foi executado Marco Fúlvio, um consular. Com um mesmo decreto do Senado, foi a República confiada aos cônsules Gaio Mário e Lúcio Valério. Acaso adiaram eles mais um dia sequer a pena de morte, por crime de lesa-república, a Lúcio Saturnino, um tribuno da plebe, e a Gaio Servílio, um pretor?
Nós, porém, há já vinte dias que consentimos no enfraquecimento do vigor de decisão destes homens. Temos um destes decretos do Senado, mas está fechado nos arquivos como espada metida em bainha; e, segundo esse decreto senatorial, tu, Catilina, deverias ter sido imediatamente condenado à morte. E eis que continuas vivo, e vivo, não para abdicares da tua audácia, mas para nela te manteres com inteira firmeza. É meu desejo, venerandos senadores, ser clemente; é meu desejo, no meio de tamanhos perigos da República, não parecer indolente; mas já eu próprio de inacção e moleza me acuso.
Há acampamentos em Itália contra o povo romano. estabelecidos nos desfiladeiros da Etrúria, aumenta em cada dia o número dos inimigos; e, no entanto, o general desses acampamentos e o comandante desses inimigos, eis que o vemos no interior das nossas muralhas e dentro do próprio Senado, urdindo a cada instante algum atentado contra a República. Se. neste momento eu te mandar prender, Catilina, se eu decretar a tua morte, o que sobretudo terei de temer, tenho a certeza, é que todos os bons cidadãos me censurem por ter actuado tarde, e não que haja alguém a dizer que usei de crueldade excessiva.
A mim, porém, aquilo que já há muito deveria ter sido feito, fortes razões me levam a não o fazer ainda. Hás-de ser morto, sim, mas só no momento em que já não for possível encontrar-se ninguém tão perverso, tão depravado, tão igual a ti, que não reconheça a inteira justiça desse acto.
Enquanto houver alguém que ouse defender-te, continuarás a viver, e a viver como agora vives, cercado pelas minhas muitas e fiéis guardas, para não poderes sublevar-te contra o Estado. È até os olhos e os ouvidos de muita gente, sem disso te aperceberes, te hão-de espiar e trazer vigiado como até hoje o têm feito.

III
Que há, pois, ó Catilina, que ainda agora possas esperar, se nem a noite com suas trevas pode manter ocultos os teus criminosos conluios, nem uma casa particular pode conter, com suas paredes, os segredos da tua conspiração, se tudo vem à luz do dia, se tudo irrompe em público? É tempo, acredita-me, de mudares essas disposições; desiste das chacinas e dos incêndios. Estás apanhado por todos os lados. Todos os teus planos são para nós mais claros que a luz do dia, e importa que os recordes comigo nesta hora.
Não te lembras de eu dizer no Senado, no dia 12 antes das Calendas de Novembro, que, em dia determinado, dia esse que havia de ser o sexto antes das Calendas de Novembro , haveria de pegar em armas Gaio Mânlio, um lacaio e instrumento da tua audácia? Enganei-me, porventura, ó Catilina, não só quanto a um acontecimento tão importante, tão horroroso e tão incrível, como também. o que é muito mais para admirar, quanto ao próprio dia? Fui eu ainda que disse no Senado teres tu fixado para o dia 5 antes das Calendas de Novembro a chacina da aristocracia. justamente na altura em que muitas das altas personalidades do Estado fugiram de Roma, não tanto por motivo de segurança pessoal, como para reprimirem as tuas maquinações. Serás capaz de negar que nesse mesmo dia, estando tu cercado pelas minhas guardas e pela minha vigilância, te não pudeste insurgir contra a República, quando tu, perante o afastamento dos restantes, dizias no entanto que a morte de quem tinha ficado, que éramos só nós, bastava para te contentar?
Pois quê? Quando tu, nas próprias Calendas de Novembro, estavas plenamente seguro de que tomarias Preneste num ataque nocturno, não deste conta, porventura, de que tinha sido por ordens minhas que aquela colónia fora guarnecida pelos meus destacamentos, sentinelas e rondas nocturnas? Nada fazes, nada intentas, nada imaginas que eu não só não oiça, mas veja e disso tenha pleno conhecimento.


segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

ESCRITOS EM VERBAL DE AVE ou A POESIA DE MANOEL DE BARROS

Opinião de leitura
           Rosidelma Fraga
           Professora, poeta e ensaísta


Hoje, ao receber o mais novo livro de Manoel de Barros e saborear sua poesia, recordei-me das seguintes palavras: “Meu desejo ou ideia fixa é esmiuçar a alma de Bernardo e o melhor de mim sou ele”, disse-me o poeta na conversa por escrito que tivemos anos atrás. Depois da visita às páginas de Livro de pré-coisas (1985), O guardador de águas (1989) e Menino do mato (2010), o leitor mais assíduo da poesia barreana, ao tocar os olhos deslumbrados em cada página colorida de Escritos em verbal de ave (2011), concordará que Bernardo, finalmente, passa da imanência à transcendência depois de sua sepultura:

“Deixamos Bernardo de manhã
em sua sepultura
De tarde o deserto já estava em nós”.
(EVA, 2011)

Bernardo marca seus escritos em murmúrios e cantos na tessitura dos trinta e dois escritos poéticos em voz de ave, alçando o voo das palavras que, em relações homológicas, se assemelham com desenhos. A escrita é representativa, icônica, metafórica, sinestésica e plástica:

“Desenho da voz
na areia
é verbal de ave”
(EVA, 2011)


Efetivamente, Bernardo era um guardador de águas em matéria de encurtamento de suas experiências e vivências com o rio. Nos verbais de sua morte, a voz é verbo, é força criadora porque instaura a comunicação entre o ser e a natureza, formando uma comunhão sagrada entre o homem e a poesia:

“Acho uma coisa
cândida
conversar com as águas”.
(EVA, 2011)

E na comunhão espiritual da poesia, Bernardo, o dementário e visionário de palavras ou o escritor de absurdez, transfigura-se como a imagem de Narciso no espelho, pois Bernardo, agora sem sobrenome, conversa com as águas e nela é refletido, tanto na poetização do discurso verbal de ave como na memória eterna do leitor. Curiosamente, o poeta Manoel de Barros já havia profetizado que Bernardo depois de virar árvore, entraria para o “Patrimônio Nacional da Humanidade”. Paulatinamente a morte do personagem, a memória dessa herança poética seria guardada nos inutensílios ou nos quinze desobjetos de seu acervo, último poema de Escritos em verbal de ave (2011), os quais podem ser lidos também em diálogo com Exercícios de ser criança, O fazedor de amanhecer e outras obras.
Em Livro de pré-coisas (1985), especificamente no poema NO TEMPO DE ANDARILHO, Bernardo era imitado pelos hippies e a pureza e inocência eram inatas a sua condição humana. Em Escritos em verbal de ave, Bernardo é tão somente ave, é símbolo da natureza da própria linguagem poética transfigurada ao nível da sensibilidade que o sujeito lírico barreano lhe confere:

“Palavra abençoada
pela inocência
é ave”
(EVA, 2011).

As insignificâncias, o abandono e as coisas minerais (o chão, a terra, a pedra) eram próprios do andarilho Bernardo em Livro de pré-coisas:

“Esse Bernardão é coisa indefinida. Igual um caramujo irrigado. Anda na terra como quem desabrocha” (LPC, p. 241).

Do aspecto telúrico emana a veia imagética do caramujo desabrochando em LPC. Intratextualmente, a imagem de Bernardo é revisitada no reino mineral em EVA:

“Vi uma lesma pregada
na existência
de uma pedra”
[...]
“Concha fechada
na beira do rio
só se abre no amanhecer”
(EVA, 2011).

OS PASSOS PARA A TRANSFIGURAÇÃO DE BERNARDO, subtítulo de poemas, foram poetizados em O guardador de águas (1989), por meio de murmúrios recitados sobre tarde. Curiosamente o leitor haverá de constatar que ao final de O guardador de águas há um desenho, supostamente Bernardo voando, que é retomado ipsis litteris em Escritos em verbal de Ave, e um questionamento: ELE CONCLUIU O AMANHECER? Na capa final dessa última obra, há um epílogo-resposta para a explicação sobre a transcendência do ser já citada algures: “Deixamos Bernardo de manhã em sua sepultura/De tarde o deserto já estava em nós”.
À guisa de comprovação do enxerto proposto por Jacques Derrida e realizado pelo poeta Manoel de Barros, vamos ao diálogo de versos entre O guardador de águas (1989) e Escritos em verbal de ave (2011):


1
“Borboletas o adotam
por Petúnias” (GA).
2
“Privilégio do vento
semear
as borboletas” (AVE).

[...]
1
“Formigas carregam suas latas
Devaneiam palavras” (GA).
2
“Formigas
de bunda principal entram em casa
de fastos” (EVA).
[...]
1
“Um rio esticado de ave o acompanha” (GA).
2
“Os rios gostam
de entardecer
entre pássaros” (AVE).
[...]
1
“Pedras aprendem silêncio nele” (GA).
2
“Silêncio das pedras
é o início
das palavras” (EVA).
[...]
1
Bernardo “prende o silêncio com fivela” (GA).
2
Bernardo guarda no acervo “presilha de prender silêncios” (EVA).
[...]
1
“No achamento do chão também foram descobertas as origens do voo” (GA).
2
Bernardo tem “um gosto elevado para o chão” (EVA).
[...]
1
E “no falar com as águas rãs o exercitam” (GA).
2
Bernardo viu “uma rã sentada nos braços da tarde”
“Profetas nasciam
de uma linguagem
de rãs” (EVA).

Por fim, em O guardador de águas, Bernardo se inventou e os passarinhos aveludaram seus cantos quando o viram. Em Escritos em verbal de ave, o desejo de Bernardo foi pintado nas palavras finais de sua morte:

Queria que um passarinho
escolhesse minha voz
para seus cantos” FIM (AVE, 2011).

Em reflexão lírica, Bernardo transfigurou-se e sua imagem permaneceu na consagração incomensurável do instante. O leitor parece ser arrebatado pelo celestamento da poesia em formato de voz da natureza, instaurando a busca pela transcendência (vida após a morte). Bernardo era o “visionário nas origens da Terra” e a sua natureza, como requer os escritos de ave, não era ver, mas sim transver e, por excelência, transcender na própria linguagem da poesia.
E o que restou da alma de Bernardo em nós? Ora leitor, Bernardo, além do acervo de seus desobjetos, nos ensinou que o valor das coisas pode estar na completude das nossas próprias escórias existenciais, na ausência, no abandono do ser, na fragmentação do humano, no ser que estará sempre sendo, na incompletude do sujeito, na lembrança e no sonho. O valor da existência humana reina além do ver, está nas coisas que nossa alma não consegue tocar. Por conseguinte, “Quem não vê/o êxtase do chão/é cego” (EVA, 2011), já que “videntes não ocupam o olho para ver, mas para transver”. Assim, quem tem alma, ouça o que o espírito de Bernardo e a sua poesia dizem aos homens, tendo em vista que, “os poemas são realidades humanas; não basta referir-se a impressões para explicá-las. É preciso vivê-las em sua imensidade poética”, escreveu Gaston Bachelard (1974, p.492) em A poética do espaço.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

UMA CRÔNICA DE NATAL

Francisco Miguel de Moura
 Poeta, contista e cronista brasileiro

       
Natal é somente um dia por ano. É festa de presentes. Acontece que, neste tempo de consumismo brabo, não há somente um dia, mas um mês de Natal, para que o comércio venda mais, o governo arrecade o que não conseguiu durante todo o ano e as administradoras de cartão de crédito aumentem o assédio aos pobres e endividados. Deveria ser o dia de Confraternização Universal, do humanismo. Como no Brasil e, de resto, no mundo, o dia da Confraternização Universal é o 1º de Janeiro. Por causa das mudanças do calendário, que pouca gente sabe explicar, é que o ano cristão começa em 25 de dezembro e não no 1º de janeiro, em consonância com o ano civil. Restou conservá-lo no dia considerado do nascimento de Jesus de Nazaré. Em homenagem à família de José, Maria e Jesus, o Natal é o Dia da Família.  Consta que Jesus nasceu numa manjedoura e vieram algumas pessoas visitá-lo, entre as quais os três Reis Magos, mas a tradição não diz de que países eles eram reis. José estava indo, com a família, para o recenseamento obrigatório que o governo realizava em Belém. Era um carpinteiro pobre, não tinha como descansar numa pousada. Chegando a hora de Maria dar a luz, foi parar numa estrebaria onde havia burros, jumentos, ovelhas, aves, pássaros e plantações. Só isto já é suficiente para uma confraternização com a natureza. E que fazemos nós, hoje, por nossa casa? É tempo de pensar na conservação do planeta. Também, a não ser um reduzido número de católicos, ninguém lembra de Jesus nem visita as igrejas ou as “lapinhas” que outrora se faziam, onde as pastorinhas cantavam, alegres, pelo nascimento de Deus Menino.  Quem reinventa um presépio? Quem se lembra dos animais? Quem olha o céu, a estrela, as estrelas? Poucos vão à missa, muitos vão aos shopping-centers para comprar bugigangas para os filhos, e também para os parentes e aderentes, por ocasião da Ceia de Natal. Produtos importados do oriente, da China, principalmente os mais baratos – o que significa que o falso sistema socialista, instalado lá, age como capitalista mesmo, pagando mal aos empregados para exportar mais barato, fazendo concorrência ao verdadeiro capitalismo – o de cá, do ocidente, onde o Papai Noel reina soberano - ele, o símbolo perfeito do capitalismo consumista.
             Natal moderno é tudo de mentirinha, menos a atmosfera comercial que o roi.
         Entrei numa dessas superlojas onde se vendem presentes para crianças e fiquei estupefacto. Como escritor e poeta, sensibilidade aguda, senti-me nervoso e doente vendo todo aquele amontoado de bonecas barby e personagens de toda natureza, inclusive os simbólicos como o homem aranha, a boneca  emília, o visconde de sabugosa, o saci, o lobisomem, dinossauros, astronautas  e não sei mais o quê, tudo empilhado, uns sufocando os outros, ou jogados nas prateleiras, aos montes, caídos estatelados e emborcados. O negócio é dar presentes materiais de pouca valia, e recebê-los. É de praxe, hoje, o “amigo oculto”, brincadeira de antes da ceia de Natal. Faz-se um sorteio de nomes do grupo para ver quem dá presente a quem. E os nomes ficam em segredo para que quem vai receber não saiba de quem receberá, mas quem vai oferecer saiba a quem vai oferecer. Todos oferecem e todos recebem um presente, e as despesas com o item natalino diminuem sensivelmente. Nada muito alegre. Diante da tevê ouvem-se músicas atuais e a conversa continua em tom alto, de maneira que ninguém entenda ninguém, bastando que fiquem com a impressão de que foram ouvidos. Alguns folheiam velhos álbuns de fotografias ou abrem um vídeo no computador para lembranças melancólicas do passado ou para mangar dos feios e das fotos mal feitas - enquanto comem e bebem.
             Eis a noite natalina, que começa com as saudações de "Feliz natal e Próspero ano novo".
            - “Mas todos os começos sãos flores!” - diria minha mãe.
            O dia seguinte é só pra curtir os excessos e a solidão. De tudo sobram algumas fotos de registro, cartões com dizeres sempre iguais recebidos e, no outro dia, jogados na cesta, ou o remoer pedaços de frases ditas por alguém, do que não gostou. Em família há diferenças que nem sempre são caladas, passados os primeiros momentos da chegada à festa.
            No começo, a casa estava cheia. Agora está vazia e, muitas vezes, os próprios corações. Festa de alegria? Nem sempre. Brigas, desgostos, notícias dolorosas de doença ou morte, tudo pode vir à flor da conversa.  Os egoístas não se incomodam com isto. Os poetas é que não se conformam e ficam a escrever o que sonharam – natais tão diferentes, com emoção, lirismo e memória. E chegam a inventar símbolos como o do peru, que, para não ficar triste, morre de véspera.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

MEMÓRIA: CULTURA É LIBERTAÇÃO

DEPOIMENTO
 por Francisco Miguel de Moura*


“A presença de um pensamento é como a presença  de quem se ama. Achamos que nunca esqueceremos esse pensamento e que nunca seremos indiferentes à nossa amada. Só que longe dos olhos, longe do coração! O mais belo pensamento corre o perigode ser irremediavelmente esquecido quando não é escrito, assim como a amada pode nos abandonar se não nos casamos com ela”.

Minha citação inicial é do filósofo Arthur Schopenhauer, o maior pensador depois dos "anos mais selvagens do pensamento ocidental", segundo suas próprias palavras, incluindo, entre os  representantes daquele grupo, Kant, Fichte, Shelling, Hegel, Feuerbach e o jovem Marx, dos quais discordou no todo ou em parte.                         

E como assim é, porque pensar é bom, e rememorar juntamente melhora a reflexão, iluminemos a nossa palestra com estas palavras: 

 - Aqui, neste Conselho, eu me casei com a cultura, definitivamente, como antes já me havia casado com a arte, a literatura, para usar o mesmo verbo usado pelo.

Foi numa tarde de setembro de 1982 que eu me adentrei neste Conselho, por indicação do Prof. Paulo Nunes, então Secretário de Cultura do Estado Piauí, sendo Presidente do Conselho Estadual de Cultura, o Prof. Benjamin do Rego Monteiro Neto. Entre um e outro papel do Banco do Brasil, umas e outras contas a lançar no “diário” ou no “caixa”, escapei do trabalho burocrático por algumas horas e vim assumir uma suplência. Fiz o meu discurso de assunção com palavras vibrantes, ousadas, prometendo trabalhar pela cultura piauiense, com aquela disposição dos meus ainda 49 anos.

Pouco tempo depois, o Prof. Wilson de Andrade Brandão, já Secretário de Cultura, vem à minha presença, numa sexta-feira, para solicitar-me um artigo para o primeiro nº da revista Presença: - um trabalho de crítica sobre literatura. No seu jeito meio autoritário, disse ante minha primeira objeção:

- “Pois que o faça no fim de semana, já que sua ocupação bancária não lhe dá folga”. 

Fiz o artigo, com a profundidade que meus conhecimentos permitiram, e tive a alegria de vê-lo estampado, com destaque, nas primeiras páginas da revista Presença inaugural.

Hoje, vejo que, daquele tempo para cá, tenho empregado minha vida útil com a cultura, a ponto de minha mulher dizer-me que eu só sei fazer isto: ler, escrever, ouvir e conversar sobre as atividades culturais. Aposentei-me do Banco do Brasil em 1983. Fui Conselheiro a partir de setembro de 1982 até fevereiro de 1990, sendo que nos cinco primeiros anos desse período como suplente sempre convocado a assumir e nos três últimos como titular. E, depois, continuei como membro efetivo, representando a Assembléia Legislativa, de l4.6.1995 a 30.6.1998, de 29.2.2000 a 29.2.2003, e ainda de março de 2003 a 30.6.2005.  Neste Conselho entrei com toda aquela liberdade de quem pode e quer fazer do seu tempo um trabalho social e ao mesmo tempo prazeroso: escrever, falar, comunicar, ler, cuidar das pautas do órgão, sempre pronto para aquelas tarefas a que fosse solicitado.  Aqui convivi com essa pessoa nobre e culta, conhecida de antes como referi acima, chamada Manoel Paulo Nunes, que assumiria a Presidência, depois de terminado o mandato do Prof. Benjamin do Rego Monteiro Neto.

Convivência mais proveitosa não poderia desejar, sempre nos encontrando nas quintas-feiras ou quando fosse necessário, discutindo os problemas que afligiam a cultura piauiense, desde os famosos tombamentos de prédios para o Patrimônio, até o cuidado com a manutenção das bibliotecas e arquivo público. Lembro-me de uma vez que fomos, eu e ele, Prof. Paulo Nunes, visitar a Biblioteca Pública Estadual, porque soubemos estar em péssimo estado de conservação, a fim solicitar do Governo a respectiva recuperação dos estragos e os cuidados com a manutenção do acervo.

Foram tantas coisas que falávamos e escrevíamos que já nem lembro da metade. Nas sessões, foram tantas as rememorações de datas públicas, de palestras sobre homens ilustres da terra e de fora. Muitos produtores de cultura e mestres em assuntos pertinentes foram convidados para palestras aqui, lembro da magistral fala do poeta-diplomata Alberto da Costa e Silva, dissertando sobre o patrimônio material e o patrimônio ideal das cidades do Brasil e do mundo. Entidades culturais aqui trouxeram suas paixões e problemas. Lembro-me, finalmente, da episódica tentativa de desmanche do Conselho Estadual de Cultura pelo recém-governo do PT.  Aí o Prof. Paulo Nunes, com seu jeito cordial e sincero, mas decidido, luta pela manutenção do nosso statu quo de órgão cultural independente. Levou o problema aos confrades da Academia Piauiense de Letras, contactou com deputados do governo e da oposição e, finalmente, conseguiu a situação de Conselho autônomo, na área da Secretaria de Educação e Cultura.

Lembrando dessas lutas e de algumas vitórias é que, hoje, falamos no palco deste Centro Cultural da Vermelha, justamente denominado “Prof. Manoel Paulo Nunes”, pois é obra do seu trabalho incansável de criador de espaços para o desenvolvimento cultural, assim como foi o revitalizador do próprio Conselho Estadual de Cultura e da revista Presença, ambos já existentes, porém com desempenho inferior ao desejado. Hoje a Revista e o Conselho são considerados os melhores e mais ativos do Brasil, com razão. Por isto e por mais algumas coisas é que João Cláudio, nosso grande humorista, declarou à imprensa que, daqueles tempos para cá, nós (da cultura) melhoramos, o Piauí – não. A quem atribuir a culpa?   Não nos cabe, neste momento, apontar este ou aquele, isto ou aquilo.

Nesta manhã, neste simpático espaço, diante do Presidente do Conselho Estadual de Cultura – lembro alguns companheiros que por aqui passaram: o poeta Luiz Lopes Sobrinho, o historiador e professor Camilo Filho, o médico Dr. Zenon Rocha, os professores Leopoldo Portela, Noé Mendes de Oliveira e Walda Neiva de Moura Leite, todos de saudosa memória, para citar apenas os falecidos. Os demais, sem dúvida, estão nomeados na história do Conselho de Cultura que o Prof. Paulo Nunes solicitou que a escrevesse – a mim, que nunca tinha sido historiador.          

Durante aqueles anos, a convivência foi tão boa que este “menino quase perdido” saiu quase a derramar lágrimas de saudade antecipada. Constato, pois, que daqui saí mais rico de vivência e de tudo o que vi, ouvi e li, de tudo que fiz e do que quis fazer e não pude.

Por tudo isto me considero pago. E faria tudo de novo, se idade, força e saúde me houvessem ainda, desde que com os dois por sustentáculos: – o Conselho Estadual de Cultura e o mestre Paulo Nunes, crítico literário dos mais cultos e percucientes, uma personalidade das mais íntegras que conheci.  

             http://abodegadocamelo.blogspot.com
             http://franciscomigueldemoura.blogspot.com  

Nota: O painel representa uma das famosas aulas do mestre Paulo Freire, e foi colhido na internet (wikipedia)
__________
*Palestra proferida no Conselho Estadual de Cultura – Centro Cultural da Vermelha, Teresina, PI, 13 de outubro de 2011, pelo ex-Conselheiro FRANCISCO MIGUEL DE MOURA, escritor e membro da Academia Piauiense de Letras,  a convite da entidade.
  
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