segunda-feira, 22 de maio de 2017

ANA KARENINA, ANOTAÇÕES DE LEITURA

Francisco Miguel de Moura*

Se queres ser universal, começa por pintar a tua própria aldeia.
LEON TOLSTÓI


Em 1886, quando Leon Tolstói escreveu o conto A Morte de Ivan Ilítch, considerado por Otto Maria Carpeaux como a obra prima de Tolstoi, segundo informação da Profa. Vera Lúcia Albuquerque, que escreveu um excelente ensaio sobre o dito livro do autor russo, na revista Literatura Universal, da Academia Cearense de Letras, Fortaleza, 2005, pg. 166), o autor passava por uma grande transição na sua vida e na sua arte, nesta sobretudo reformulando conceitos como moral, clareza, beleza e sinceridade. Autores, editores e críticos chamaram a obra de conto ou novela, em virtude do seu tamanho de cerca de cem páginas. Era moda na época escrever-se romances monumentais, e neste sentido o autor de Ana Karenina é um exemplo bem significativo. Talvez essa a razão da classificação de conto, novela ou romance pelo tamanho, pelo volume, páginas.
Escrever sobre qualquer assunto e em qualquer circunstância é sempre uma temeridade, digo inicialmente, pois a língua escrita é uma linguagem segunda e requer um longo aprendizado que nem todos podem adquirir, sem contar a tendência para a escrita e para o estudo, que não é tão comum nos dias correntes. Por que é difícil apenas sobre Tolstoi e seus romances e contos, como referiu, no início do seu trabalho acadêmico mencionado, a Profa. Vera Lúcia Albuquerque? De toda forma, escrever é arcar com a responsabilidade de poder formar opinião e, por esse caminho mudar o rumo das ações humanas. Escrever sobre A Morte de Ivan Ilítch e Ana Karenina, de León Tolstói, dobra esse temor; primeiro, porque foram muitas as pessoas categorizadas que os leram, comentaram, criticaram e o exaltaram, apresentando os mais diversos argumentos, os mais diferentes pontos de vista; depois, em virtude da profundidade e sinceridade do fazer artístico do autor, sua inteligência e doloroso sentimento de humanidade, apesar das crises existenciais que viveu.
Que dizer de novo, então, sobre esse autor e sua obra?
Nunca me atrevi a escrever nada sobre a literatura universal, salvo sobre alguns autores portugueses, sobre o francês Albert Camus (porque li toda sua ficção), ou ainda sobre o latino-americano Mário Vargas Llosa. Dostoiévski é meu autor preferido, mas não tive o cometimento de escrever nada sobre o que li do autor de Crime e Castigo. Nem, por exemplo, sobre Balzac, Flaubert, Tchecov, Thomas Hardi, Jorge Luís Borges, Gabriel García Márquez, etc. Por que escrever agora sobre León Tolstói? A leitura de Ana Karenina mexeu com meu silêncio, minha inércia. Algum motivo secreto me diz que posso trazer alguma contribuição. Não sei se é compulsão ou porque me identifiquei com o seu personagem Liêvin.
Já minha única leitura de A Morte de Ivan Ilítch é muito antiga, por isto não farei muitas alusões a ela e a ele, o romance. Prendo-me, como é do meu costume, quase que a Ana Kerenina – uma floresta onde me encontrei e me perdi. Mesmo quem não é leitor de Tolstói, já ouviu dizer ou leu em algum lugar a frase inicial de Ana Karênina: “Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira.” Pois não é somente essa diretiva que acredito ter sido formulada pelo Autor ao encerrar minha leitura. Inconscientemente, me parece, seus elevados esforços para construir uma obra imorredoura, guiaram-no para caminhos mais difíceis do que os leitores a princípio podem imaginar, a acreditar-se na sua própria informação, em outra parte, a propósito: “Em tudo, em quase tudo que escrevi, fui dirigido pela necessidade de reunir pensamentos encadeados entre si, para sua própria expressão, mas cada pensamento, expresso por meio de palavras isoladamente, perde o seu sentido, rebaixa-se tremendamente, quando tomado sozinho naquele encadeamento em que se encontra. E o próprio encadear não é formado pelo pensamento (creio eu), mas por algo diferente, e não se pode de modo algum expressar a base desse encadeamento diretamente por meio de palavras que descrevem imagens, ações, situações, etc.” Uma teoria de como escrever ficção para ser filósofo ou vice-versa?
Ninguém, depois da leitura de Ana Karenina, pode duvidar da sinceridade e do esforço realizado em torno da literatura. Sua escrita foi longe, para expressar o homem e o espírito inseridos na sociedade de então. Seus romances, este especialmente, e também Guerra e Paz, formam, além de desenvolverem personagens fortíssimos, o grande painel da sociedade russa do século XIX, e nesse sentido todos são históricos, épicos. Sobre o “epicismo”, vale citar aqui, artigo do Frei Beto, no “Jornal da UBE-SP”, junho de 2005: “As grandes narrativas favorecem a nossa visão histórica e criam o caldo de cultura no qual brotam as utopias. Pois sem utopia não há ideal e sem ideal não há valores nem projetos. A vida reduz-se a um joguete nas oscilações de mercado. A literatura é a arte da palavra. E como toda arte, recria a realidade, subvertendo-a, transfigurando-a, revelando o seu avesso. Por isso, todo artista é um clone de Deus, pois imprime ao real um caráter ético, superando a linguagem usual e refletindo, de modo surpreendente, a imaginação criadora”. Parece até que Frei Beto estava analisando Ana Karenina, de Tolstói.
É conhecida de todos os romancistas a dificuldade de começar uma obra romanesca, assim como o seu término, pois tudo quer bom começo e bom fim, ainda mais se se tem a consciência bem clara de que os meios não justificam os fins. Assim, toda boa obra deve compor-se com unidade, coerência, elegância e bondade, embora quase sempre mostrar a bondade não seja a finalidade da ficção. Não, custa, entretanto, uma purgação. Ou mesmo que custe, vale a pena. A frase inicial de Tolstói, em Ana Karenina é de chamamento ou de repulsa, um chamamento aos leitores. E Tolstói tem muitos bons leitores, sabe conduzi-los até o fim com unidade e variedade, sem cansar. Singular seu estilo – dom aperfeiçoado durante toda sua vida – dá para senti-lo, mesmo tão longe de nós como fica a língua russa, prova de que a arte é universal.
Em Ivan Ilítch, comovente e assustador, considerada por outros críticos e não somente por Otto Maria Carpeaux sua obra prima, Tolstói nos apresenta o personagem em sua situação-limite e as reações desconcertantes das pessoas conhecidas, colegas, amigos, subalternos ou não, em redor. Aqui, em Ana Karenina, trata da vida familiar da Rússia naqueles tempos, do que ainda subsiste como resquício em meio a tantas transformações modernas. No fundo, a vida a dois, como casal, continua a mesma forma quotidiana de “conviver separado”. A alma das pessoas não muda tanto, “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”... A alma muda em face de suas circunstâncias, porém muda sem mudar completa nem abruptamente. Essas mudanças superficiais que acontecem no tempo e no espaço e o núcleo que permanece como identidade do ser e do indivíduo são a matéria prima deste grande romance de Tolstói.
Para uniformização deste rascunho de leitura, colocarei os nomes dos personagens com a acentuação brasileira, ou seja, sem aqueles acentos diacríticos nas sílabas anteriores à antepenúltima, para nós impronunciáveis. É bom que se diga que uma das dificuldades da leitura dos russos é esta: dos nomes estranhos; a outra é o costume dos autores de chamar seus personagens ora pelo próprio nome, ora por um sobrenome ou por outro, ora por um apelido. Portanto, primeiramente tentemos enumerar um elenco dos personagens principais do romance Ana Karenina, de León Tolstói (1828-1910), um dos maiores escritores russos e da literatura universal no século XIX: Com o casal Stiepan Arcadievicht (Stiva, Oblonski) e Dária Alieksandrovna (Dolly) Tolstói abre o seu (nosso) romance, visto que tão atual. Depois vem Ana Karenina, irmã de Oblonski, apaixonada pelo conde Vronski e casada com Alieksei Alexandrovitch (este e Ana formavam a família Karenin). Um terceiro casal também tem grande participação na vida do romance: é o formado por Liêvin e Kitty (apelido familiar de Catarina), irmã de Dolly. E comparecem suficientemente bem, isto é, com ação prolongada, os irmãos Liêvin, Sérgio e Nicolau, tal como outros parentes das mencionadas famílias: as princesas Varvara (tia de Obslonski) e Betsy (prima de Vronski), a condessa Lívia e o conde Vronski (este por sua ligação posterior, embora ilegal, com Ana Karenina), pois que desde o começo tem presença marcante no romance, logo nos primeiros capítulos como rival de Liêvin na conquista de Catarina (Kitty). Considero secundários os demais, porém não desimportantes, e podem ou não serem citados nesta leitura, conforme a necessidade.
Na verdade, o casal Ana x Vronski é a espinha dorsal da trama maior, do interesse a que qualquer leitor não se furtará, sob pena de perder-se no imenso volume de 749, páginas corpo 10, da Editora Abril, com licença da Editora José Aguilar Ltda., Rio, 1971, e tradução de João Gaspar Simões. Mas diga-se a quem ainda não o conhece e deseja lê-lo: Ana Karenina é uma saga e não deixa de ser uma epopéia, como é a maioria dos romances do Autor. Feita romance, é de agradabilíssima leitura, capítulos curtos, entrelaçando as histórias dos referidos casais e seus componentes com os movimentos sociais do século e filtrando-os pelos olhos do filósofo Tolstói. Alguns críticos já se referiram à sabedoria e propriedade do Autor na construção de metonímias que logo, no logos, se transformam em metáforas eloqüentes como aquela bolsa que é jogada ou cai nos trilos do trem, muito mais visível, mais significativa do que mesmo os lances outros da morte trágica de Ana. É a metonímia que se transforma em metáfora, desviando a atenção do crítico para uma análise muito mais hermenêutica do que formalista, eis que, “colocando-se em oposição a uma postura epistemológica”, segundo Luzia Lobo, em “Estética da Repetição” (Manual de Teoria Literária, obra coletiva org. por Rogel Samuel, Editora Vozes, Rio, 2001, 14ª edição), a nova corrente moderna originada das doutrinas de Dilthey, Heidegger e Gadamaer, entre outros, “substitui a tarefa analítico-descritiva por um trabalho de interpretação que parte do texto e se encaminha para uma reflexão sobre a essência humana.” Assim já pensava, antes de iniciar este trabalho, e não sei como se poderia melhor conhecer Tolstói nesse romance do que por esta trilha, onde só o tempo tridimensional (passado, presente e futuro) dará compreensão e sentido.
Ana Karenina, bonita, simpática, vivaz, instável, passional, convenhamos que do ponto de vista dela própria sofre um relacionamento infeliz e sem amor – já que é a personagem central – casada com Alieksiei Alexandrovitch, pessoa da alta burocracia do governo, com influência na sociedade, graças às benesses da família e ao seu trabalho sempre em favor, nunca contestando, sempre aprovando os grandes e os chefes imediatos. Exemplo de forma de poder daquele tempo e de homem autoritário por força das convenções embora não o fosse de alma, não admitia ver arranhada sua honra perante a sociedade. Por isto e só por isto não concede o divórcio à mulher, pois para tanto, na Rússia daquele tempo, Ana teria que confessar publicamente sua infidelidade. Alieksiei Alexandrovicth então aparece como um homem frio e calculista, mas aparentemente liberal, a suportar a traição de Ana com o conde Vronski em seu nariz. Não aceita o divórcio proposto pela mulher para não ficar mal entre seus amigos, colegas e chefes e, talvez, prevendo o fato vir a rebaixá-lo profissionalmente. A vida de Ana se torna um inferno. Personalidade forte, diferente do comum das mulheres do seu tempo, dir-se-ia que iniciou na Rússia o pensamento e a prática que levariam, no futuro, à emancipação da mulher. Ao mesmo tempo, tudo leva a crer que a sua paixão desvairada pelo conde Vronski, no início, teria sido também uma concorrência com Kitty pela posse dele e não por amor de verdade. Convivência recolhida a sua casa, sem mostrar-se, ela resolve deixar marido e filho para viver com Vronski. Mas a vida a dois resvalou para ciumagens e exigências descabidas, por viverem excluídos da boa/alta sociedade, apenas visitados pelos mais íntimos e sem freqüentar sítios que os casais normais freqüentavam.
O casal Oblonski x Dária também vive mal; estão juntos na mesma casa durante algum tempo, mas separados no amor, em virtude da não aceitação da infidelidade dele. São também da alta roda, mas por essa razão, se fecham, ele vivendo das suas amizades e amores; ela, para os filhos e para o governo da família. Nos primeiros dias dessa “separação de corpos”, em vista do flagrante de Dária à primeira (?) infidelidade do marido, estourou a enorme crise da qual, não obstante, a visita da irmã Ana, os cuidados e conselhos desta sua cunhada de tão simpática companhia, crise que continuaria até a final separação (sem divórcio).
Embora a ação do romance comece com a crise entre Oblonski e Dária, logo se passa para a de Ana e Alieksiei, enfocando especialmente a traição/namoro com Vronski, os sofrimentos pela retirada do filho de junto da mãe, imposta pelo marido enquanto Ana viveu dentro de casa – uma mansão com criados, mordomos, acompanhantes e governantas.
O terceiro casal, Liêvin x Kitty, tem uma participação das mais importantes no desenrolar da ação e na trama, aprofundada nos movimentos intelectuais, morais, científicos, sociais e filosóficos da época vivida, pois, de certa forma, Liêvin representa o alterego de Tolstói como veículo de suas idéias e ideais tanto humanitários quando de arte, sempre se indagando e contradizendo-se, mas mesmo assim lutando na construção de um livro que conteria a resolução dos problemas do campo na Rússia, contribuindo para que saísse do seu atraso em relação ao resto da Europa. Ele morava na fazenda, era agricultor, ao contrário dos demais mencionados, acompanhado de Kitty depois do casamento, com quem se unira apaixonado, mas não certamente convencido de ser correspondido no amor, talvez pela lembrança da desilusão que teve no início justamente por perdê-la durante algum tempo para Vronsk.
Liêvin vive uma vida tranqüila mas não muito feliz. Amor fogoso parece viver, por algum tempo, Ana – mulher cheia de encantos, feitiços, dominadora, porém que depois não conseguiria vencer seus medos e diferenças geradores de ódios, nem apascentar Vronski das suas conquistas, das suas pequenas ou supostas infidelidades. A gota d’água foi ele ter saído de casa sem aviso e ainda mandar-lhe um bilhete dizendo que chegaria “às 10 horas”, quando em verdade era esperado para antes, possivelmente por sua amada lhe ter pedido que “não saísse de casa naquela noite”. É o contraste. A felicidade nunca pode ser satisfatória na vida a dois, há infelicidades pelas coisas exteriores (a sociedade) ou interiores (a alma), como não seria de desejar, e pelo mínimo que se possa crer.
Mas a esperança na humanidade, na sua melhora, no seu aperfeiçoamento sobressai sempre do texto de Tolstói: simples, lírico às vezes, dramático outras, como na comovente morte de Ana:
De repente lembrou-se do homem atropelado no dia do seu primeiro encontro com Vronski e compreendeu o que tinha a fazer. Em passo ligeiro e rápido desceu as escadas do depósito de água para a via e deteve-se junto ao comboio que passava. Tinha os olhos fitos na parte inferior dos vagões, nos pernes, nas correntes e nas altas rodas de ferro fundido do primeiro vagão, que rodava lentamente, como se procurasse determinar o centro ente as rodas dianteiras e as traseiras e calculasse o momento em que esse ponto devesse estar na sua frente. Ali! disse para si mesma, olhando a sombra do vagão e a areia misturada ao pó de carvão que se espalhava nas travessas. Ali mesmo no meio! Castigá-lo-ei e livrar-me-ei de tudo e de mim mesma.
Quis atirar-se para debaixo do vagão que nesse momento chegava junto dela, mas a maleta vermelha, de que procurava desprender-se, distraiu-a e não deu tempo: o centro do vagão já tinha passado. Era preciso espera o imediato. Uma sensação parecida com a que costumava experimentar ao entrar na água à hora do banho se apoderou dela, e persignou-se. Esse gesto familiar despertou-lhe na alma recordações da infância e da juventude. E, subitamente, desvaneceu-se a névoa que tudo cobria, e a vida exibiu-se-lhe por momentos em todas as suas radiosas alegrias passadas. Não apartava, porém, os olhos do vagão que se aproximava. No momento preciso em que o centro desse vagão lhe passava diante, jogou fora a maleta vermelha, e afundando a cabeça entre os ombros atirou-se-lhe para debaixo, caindo com o corpo em cima das mãos. Depois, com um ligeiro movimento, como se quisesse ainda levantar-se, quedou ajoelhada. Nesse instante sentiu horror do que fazia. ‘Onde estou eu? Que faço eu? Para quê?’, quis retroceder, atirar-se para trás, mas, entretanto, qualquer coisa enorme, inflexível, a apanhou pela cabeça, arrastando-a de costas. ‘Senhor meu Deus, perdoa-me tudo!’, pronunciou, sentindo que lhe era impossível lutar. Um homenzinho resmoneava, martelando uns ferros por cima dela. E a vela, à luz da qual Ana lera o livro da Vida com todos os seus tormentos, todas as traições e todas as suas dores, resplandeceu, de súbito, com uma claridade maior do que nunca, alumiando as páginas que até então haviam estado na sombra. Depois crepitou, estremeceu e apagou-se para sempre.” (Pg.704/5).
Aqui poderia terminar o romance? Talvez. Mas Tolstói continuou. A leitura é necessária. Então nosso ensaio continuará também. Foram-me emocionantes também as duas passagens que passo a ressaltar. A primeira, quando Liêvin, sozinho, solteiro, visita o irmão Nicolau, vivendo longe da família, junto com uma “mulher da vida”, que, de forma alguma seria boa para tornar-se sua esposa, de nome Maria Nicolaievna. A revolta. A vergonha. A falta de respeito ao irmão e ao “cunhado”. Tudo o que não podia desejar encontrara ali. E nada podia fazer para modificar as coisas, já que o mano teimava em viver bebendo e reclamando da sorte, e, mesmo naquela situação, achava que Maria Niicolaievna era seu amor e, a melhor mulher do mundo.
A segunda foi a situação vivida por Liêvin e Kitty, na antevéspera da morte de Nicolau (o irmão/cunhado pobre, beberrão, e agora doente). Foram estes recebidos à porta por Maria Nicolaievna (“era exatamente a mesma de Moscou: vestia o mesmo vestido, com os braços e o colo desnudos, e tinha a mesma expressão, pouco inteligente e bondosa, no rosto picado de bexigas, apenas um pouco mais cheio do que então.” (p. 455) – pensara Liêvin. E logo quis explicar a Kitty que aquela aparência, não era a de uma mulher certa para o irmão. Não obstante, em respeito à dor de Liêvin, Kitty surpreendeu: Demonstrou coração e alma sensíveis, cheia de bondade, ternura, humanidade, sacrifício e comunhão com o sofrimento alheio (que no caso era da família). Diante da situação-limite, a já esperada morte de Nicolau (tuberculoso?), Liêvin: “não podia olhar para o irmão com serenidade nem mostrar-se natural e tranqüilo na sua presença”, enquanto Kitty, ao entrar no quarto do semimorto, iluminava-o com o seu olhar e seu discreto sorriso. Como lhe era possível, o doente algumas vezes pode corresponder aquela gentileza da alma. Kitty, então, lembra vagamente de ter estado com o irmão de Liêvin nalgum lugar, querendo dizer-lhe que de fato não eram estranhos. E lhe pergunta se naquele encontro antigo “não lhe passara pela cabeça que ainda viria a ser sua irmã”. O doente, para surpresa dela, ainda abriu-se num murcho sorriso e foi o último de sua vida.
Minha tentação é transcrever algo mais de Tolstói, porém ele é tão caudaloso, sem ser repetitivo, nem inútil, nem prolixo, que me parece cansaria muito o leitor. Ademais, tudo o que estas notas de leitura valem é apenas uma orientação modesta para os que se aventurarem por aquelas plagas, nas quais se embevecerão como me aconteceu.
Desta forma, trato de encaminhar-me para o fim, pois cada sofrimento era diferente e também o mesmo, cada problema era o de cada um e daquelas famílias, todas entrelaçadas por sangue ou por afinidade. Ana, creio, e Liêvin, por razões diferentes, são os personagens que mais sobressaem na ação, e mais tempo se oferecem ao leitor, e assim, as mais complexas, fascinantes. Ana, pela sua vida descontrolada nos sentimentos, desconhecida por si e pelos outros (inclusive Vronski, que termina indo pra guerra e lá morrendo), isto depois que Ana se suicida nos trilhos do trem como foi evidenciado acima em belíssimas páginas.
Fazem-nos pensar, e às vezes até sofrer, os prazeres auferidos por Liêvin em sua vida no campo, tão contraditórios e confusos o era seu agir, ou sua inércia, diante dos citadinos quanto junto aos camponeses pobres (mujiques) que trabalhavam sua terra, e também seu constante pensar em como melhorar a situação deles, ao mesmo tempo em que, na prática, pouco ou nada fazia nesse sentido. Pensava grande, numa forma do alevantamento da Rússia, na modernização do campo, em terminar de escrever um livro partindo de suas anotações e suas teses sobre agricultura. E também suas indecisões, perguntas e respostas espirituais: em torno de Deus, da alma, da vida, do amor, de tudo. Um intelectual. “Uma idéia justa não pode ser estéril. Por um objetivo tão grandioso valem a pena todos os esforços. Ora, que o autor desta revolução seja este pateta do Liêvin, habituado a ir ao baile de gravata preta e a quem a Princesa Tchierbatskaia (leia-se Kitty, Catarina Tchierbatskaia) negou a mão, isso não tem importância absolutamente nenhuma.” (pg. 729). Isto é muito conforme com as idéias de Tolstói, que pregava em tudo um humanismo cristão ateu, isento, portanto, dos dogmas religiosos. Citei Liêvin como poderia ter transcrito idéias e reflexões de outros, principalmente as de Kitty e, aqui e acolá, de uma outra princesa, de um ou outro conde, do que está cheia a história de Ana Karenina.
Ana e Liêvin carregam por toda vida o estigma da rejeição, do não reconhecimento. Enfim, convive-se com muitas lições de vida e de sentimento, filosofia e beleza, na leitura de Tolstói, pelo que vale a pena. Uma riqueza indiscutível.
Não precisamos citar nada que não seja da filosofia de Tolstói, acreditamos que ele, como romancista superou muitos e muitos filósofos nas suas confusas interpretações do mundo e do homem. Nossa crítica é expressionista. A expressão do que se leu e sentiu e não a repetição de idéias alheias ou o mau enquadramento da literatura dentro de outro conhecimento que não é o seu, fora do seu caminho.
O final de Ana Karenina é melancólico. Destinou-o Tolstói aos heróis (ou anti-heróis) como Vronski. Este tenta suicídio, vai pra guerra, como tantos outros moços da sua época: uma guerra sem sentido e sem empolgação, na qual voltam sem saber o fim, ou morrem. E à purgação lenta de Liêvin, que pode muito bem ser sentida do começo ao fim, pretendendo conhecer sempre e melhor os escaninhos da alma humana, sem nunca saber aonde chegaremos, ou se não iremos a lugar nenhum.
A última cena do romance mostra um Liêvin quase a encontrar-se com a luz que o iluminaria para sempre. Pois é quando vai saindo do quarto, aonde tinha ido ver o filho e prestar-lhe cuidados, a mando de Kity, que lhe surgem estas lentas elucubrações:
Continuarei, sem dúvida, a impacientar-me com o meu cocheiro Ivan, a discutir inutilmente, a exprimir mal as minhas próprias idéias. Sentirei sempre uma barreira entre o santuário da minha alma e a alma dos outros, mesmo a da minha própria mulher. Sempre tornarei Kitty responsável dos meus terrores. Arrependendo-me logo em seguida. Continuarei a rezar sem saber por que rezo. Que importa? A minha vida não estará mais à mercê dos acontecimentos, cada minuto de minha existência terá um sentido incontestável. Agora possuirá o sentido indubitável do bem que eu lhe sou capaz de infundir.”
Por que Liêvin vem a desentranhar tais elucubrações, justo quando vem de volta do quarto, onde vê seu filho pequeno e dele cuidou a mando de Kitty?
Leitor, encontrei-me nas dúvidas, na insegurança do personagem centro, que é o próprio Tolstoi, e no seu desejo de ser feliz, fazer o mundo feliz, e quando não, pelo menos suportável. Muitos se encontrarão ainda.
Isto é que é ser clássico. Isto é que ser literatura Seu valor social? Ela se constitui num instituto ao mesmo tempo fechado e aberto, pelo qual mantém uma vigilância subliminar sobre a sociedade. Ninguém, hoje, tem dúvida de que os escritores clássicos como Tolstói, Dostoievski, Gorki, Tchecov e tantos outros, cada um a seu modo, contribuíram enormemente para as transformações da Rússia imperial (nobre), como fariam, depois, com muito maiores dificuldades, os que viveram o regime socialista como Pasternack, Maiakovski, Soljenitzin, para citar apenas os mais conhecidos...


*Francisco Miguel de Moura, escritor brasileiro, membro da Academia Piauiense de Letras, mora em Teresina, Piauí, e é um leitor dos clássicos. E-mail:franciscomigueldemoura@gmail.com




quarta-feira, 5 de abril de 2017

F. M. – Sinônimo de Literatura

Gilson Chagas*
 (...) Notei ainda que as pessoas mais sábias nem sempre têm o que comer e que as mais inteligentes nem sempre ficam ricas. Notei também que as pessoas mais capazes nem sempre alcançam altas posições. Tudo depende da sorte e da ocasião” (Ec 9.11b).



Em 1973, a publicação de meu primeiro livro me propiciava, entre outras alegrias, a chance de conhecer, em pessoa, alguns dos expoentes da imprensa e letras do meu estado natal, o Piauí. Com o encantamento do quase adolescente que se vê diante de seus mitos, pude, enfim, entrevistar-me, num plano favorável, com Carlos Said – o legendário “magro de aço” - que se tornara padrinho e divulgador de minhas colaborações ao seu programa “Poesias do Piauí”, na “Rádio Pioneira de Teresina”. Inestimável apoio recebi de Herculano Moraes, já poeta de renome e secretário de redação do jornal “O Estado”, concorrente de “O Dia” na liderança jornalística regional. Encontrei generosa acolhida em A. Tito Filho, ícone da cultura, emérito incentivador dos autores iniciantes e eterno presidente da Academia Piauiense de Letras. Conservo, ainda indeléveis, preciosas lições de Fontes Ibiapina, em nosso encontro de apresentação, na casa de seu irmão Pebinha, na cidade de Picos. Daquela primeira conversa que, ao lado do hoje destacado jurista e poeta Ozildo Barros, tive com o notável escritor, pincei a enfática afirmativa que ele ali fizera sobre Francisco Miguel de Moura. Este, a quem eu conhecia de Santo Antônio Lisboa e, à época, já com três livros na praça, era nome emergente na literatura do estado. Dentro de um contexto mais amplo, disse-nos Fontes Ibiapina, sem reserva: - “O livro de Chico Miguel, “Linguagem e Comunicação em O.G. Rego de Carvalho”, é tão bom quanto a própria obra por ele analisada”.

O veredicto de Fontes – doutor da lei e das letras - era apenas um minirretrato de uma carreira em começo - alvissareiro por excelência. No curso destas décadas subsequentes, a obra de Chico Miguel expandiu-se e aperfeiçoou-se. Cresceu em número e profundidade; abriu-se para variados gêneros; diversificou-se. Lançou ele até aqui (2012) 34 livros: 16 de poesias 4 romances, 3 volumes de contos, 2 volumes de crônicas, 7 de crítica ou história literária, 1 biografia, 1 memorial, sem contar opúsculos de crítica, depoimento e discursos. Além destes, há milhares de artigos espalhados por jornais e revistas do Brasil e do exterior. Como diria Zé da Luz, o poeta do absurdo, ele está na “Oropa, França e Brasil”.
Pelo esmero e densidade dos textos em prosa ou verso e de sua militância quase religiosa em favor da literatura, tem sido fartamente estudado e saudado pela crítica qualificada; lido e aplaudido pelos núcleos seletos aonde sua criação tem conseguido chegar Tornou-se, enfim, nesses anos, referencial e fonte para pesquisas, dentro e fora do Piauí. É também analista e prefaciador concorrido por autores novos e veteranos.

Infelizmente, contudo, por fatores abstratos - cuja existência e efeitos o bicho-homem - admita ou conteste - não pode controlar – a obra de Chico Miguel não tem recebido tratamento justo do grande mercado editorial brasileiro, quiçá, internacional. Juntam-se, por certo, a esses “fatores incontroláveis” algumas causas visíveis, como os históricos estigmas que, no curso dos séculos, operam e perduram contra as regiões e unidades federativas de menor expressão socioeconômica, que “a roda dos escarnecedores” (des)classifica como “longe demais das capitais”. Esses crônicos preconceitos, absurdos mas palpáveis - por um sistema perverso de transferência, acabam obscurecendo a arte produzida em estados como o nosso e limitam os horizontes dos talentos que, pelos vários motivos, neles permanecem. Raras foram até aqui as exceções que conseguiram “escapar” a esse cerco.

O fato é que, embora muito bem difundido nos domínios regionais, o nome de Chico Miguel, se não é exatamente inédito no restante do país – posto ter o respeito de grupos específicos - ainda não alcançou os grandes contingentes que consomem cultura além de suas habituais fronteiras. Precisa ser (urgentemente) “descoberto” pelas editoras ditas “top”, para ser “apresentado” à grande massa. Pois no segmento editorial que reina no mercado imperam alguns enigmas e paradoxos. Exemplo: embora o livro constitua a “matéria-prima” dessas empresas, a qualidade literária da obra não garante sua seleção. E – pasme-se! – às vezes, atrapalha. Há mais critérios e interesses entre o teto e o piso das engrenagens humanas do que supõe nossa vã filosofia. E esses descompassos têm gerado alguns mostrengos sociais. Exemplo disso é o JUQUINHA ASS (bumbum) MUSIC, santo do pau oco que vem “surfando numa onda”, arrasta multidões, fez escola e fortuna, virou celebridade. Enquanto isso, o genial Zé da Silva, que atravessou a vida real “num rabo de foguete”, deixou toneladas de grande ficção, mas nunca teve, nem terá um grama de reconhecimento. Melhor “sorte” mereceram João Sebastião e Vicente. Um músico, outro artista plástico. Ambos ouviram sonoros muxoxos dos contemporâneos, tocaram em brancas nuvens suas vidas quadradas, mas acabaram “consagrados” na posteridade.

Cabe, por fim, instar o empresariado do livro a abrir uma página de seu catálogo para autores como Francisco Miguel de Moura, escritor de nome simples, que é sinônimo de literatura no Piauí desde 1966. Este, o ano de “AREIAS”, sua poesia de estreia. A bibliografia de Chico, criada em padrões de excelência, teve, até aqui, seu potencial mercadológico subutilizado em edições independentes e pequenas tiragens de programas governamentais. Ela e ele aguardam apenas um “banho” de editora, distribuição e mídia, para ocuparem, afinal, o patamar literário que lhes é de direito.

Os leitores torcemos para que essa injustiça - que já está perpetrada – não se perpetue. E, “para o bem de todos e felicidade geral da nação”, que essa obra singular possa ter suas fronteiras rompidas, para tornar-se, afinal, legitimamente possuída e plenamente desfrutada por seus donos verdadeiros, a massa leitora desta geração.



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*Gilson Chagas é escritor e professor universitário em Brasília-DF, Artigo escrito em Brasília, em 13.06.2013, às 20:46 horas. Artigo publicado em vários blogues e saites, inclusive em o dia.portalodia.com /chicomiguel





quinta-feira, 23 de março de 2017

ARREPIO E DOR - Ednaldo Borges

(Do livro “Tempo de Ser”,
de autoria de Ednaldo Borges)


Uma rosa com amor
Perto de ti: arrepio
Longe: tristeza e dor

Uma rosa com amor
E tudo lá fora
Se desmancha
Em gotículas
Em partículas
Das minhas sensações

Uma rosa com amor
Essa magia rústica que me transporta
Para dentro de ti
Nessa solução de pólen e néctar
Banhando-me na chuva.

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The. 04/01/2017

segunda-feira, 20 de março de 2017

BRASÍLIA, ALÉM DOS JABUTIS

Manoel Hygino*

Enganam-se redondamente os que apenas veem em Brasília a sede administrativa e política do país. É o que se depreende da antologia de “Nós poetas de 33”, organizada por Joanyr de Oliveira, autor mineiro nascido em Aimorés e que na sede do governo, viveu, por muitos anos, para ser sepultado cercado pelo carinho, a amizade e o respeito de quantos com ele conviveram.

A vitalidade literária da capital federal se pode aferir pela primeira coletânea de seus poetas em 1962. Era a pioneira obra no campo das letras ali editada, conforme Napoleão Valadares.

Em seguida, imaginou-se editar duas novas coletâneas, uma do próprio Joanyr, reunindo “Poetas de 33” (os nascidos naquele ano) e “Poetas dos Anos 20”, como concebera Fernando Mendes Vianna.

Ambos não puderam assistir ao resultado de seu projeto, pois falecidos respectivamente em 2009 e 2006.

Para resgatar a esplêndida contribuição dos escritores da capital federal, decidiu-se por lançar, em 2014, “Nós - poetas de 33”, ao ensejo do quinto aniversário de morte do idealizador da antologia. Nela, apresentam-se em plenitude Fernando Mendes Vianna, Francisco Miguel de Moura, Hugo Mund Júnior, Joanyr, José Jerônimo Rivera, Lupe Cotrim Garude, Maria José Giglio, Miguel Jorge, Murilo Moreira Veras, Octávio Mora, Olga Savary e Walmir Ayala, nomes expressivos de nossa poesia, embora alguns não tão conhecidos como se impõe.

A edição se tornou possível graças ao empenho de Kori Bolivia, ex - presidente da Associação Nacional de Escritores, e ao decisivo apoio da Editora Thesaurus, isto é, Victor Alegria, seu diretor. No empreendimento, ressalte-se a participação de Anderson Braga Horta, “grande vate de 1934, amigo de todos os poetas e o maior dentre todos nós que nos tornamos brasilienses”.

O volume lançado, já sem a presença física de autores notáveis na poesia, é uma relíquia a ser guardada em área nobre para consulta pelos amigos do bom e do belo, que existem, sim, em nosso país. E, antes que me escape o raciocínio, que se advirta para a exposição crítica de Anderson (filho de pais poetas), mineiro de Carangola com todas as honras, sobre a obra de Joanyr e Mendes Vianna, com observações da maior importância para avaliar o legado de ambos autores e que inspira o livro.

Embora não restrito a vates de Brasília ou lá residentes, agora e antes, o “Poetas de 33” resulta da dedicação de Anderson à produção dos autores nascidos no já distante 1933. Resume o sentimento do escritor carangolense com relação àqueles que fazem da cidade inventada por Juscelino uma metrópole muito acima do unicamente material.

As vozes do planalto central se sintetizam na expressão de três poetas maiores, Joanyr, Mendes Vianna e Ánderson, talvez saudoso dos “dias empoeirados dos pioneiros. Do luar, dos bichos, das sujas botas, dos tratores em guerra sem tréguas com o mundo desértico e esquivo que o homem veio dominar para todo o sempre”.

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*Manoel Hygino, jornalista mineiro, responsável pelo site “Hoje em dia”, de onde tiramos o presente artigo publicado em 04/06/2015. sobre o livro “Nós, poetas de 1933”, antologia organizada por pelo poeta Joanyr de Oliveira, publicada em Brasília-DF

sábado, 11 de fevereiro de 2017

APRESENTAÇÃO DO LIVRO POESIA (IN)COMPLETA DE F. M. MOURA

                                                                                                                            Miguel Júnior*

Sr. Presidente da Academia Piauiense de Letras, Nelson Nery Costa, autoridades presentes, senhoras e senhores acadêmicos, meus familiares, amigos e demais convidados, minhas senhoras e meus senhores, peço a permissão, inicialmente, para dividir minha alegria, como apresentador, com todos aqui presentes, que me concedem o prazer da companhia e a honra do comparecimento a esta solenidade de lançamento do livro: Poesia (in) Completa, 2ª edição, revista e aumentada, de Francisco Miguel de Moura, da Coleção Centenário da Academia Piauiense de Letras.
Quando recebi o convite para apresentar o lançamento do livro pensei que seria fácil, pois sou seu filho e cinquenta e dois anos de convivência me daria uma certa tranquilidade. Logo percebi que a imparcialidade seria uma barreira a ser vencida. Minha fala estaria cheia de subjetividades. Afinal, meu pai é referência em tudo em nossa família. Honesto, ético, amigo, responsável, sempre cultuou bons hábitos. Como escritor, obstinado! Francisco Miguel de Moura ama o que faz e por isso faz bem feito, com maestria. Respira e transpira literatura. Na maioria das vezes, se a conversa não for sobre livros, silencia. Para não se isolar do mundo, então, transforma tudo ao seu redor em arte, num processo de lapidação das impressões do meio exterior, imprimindo-lhe os sentimentos pessoais, através do seu estilo e criação. Na verdade, briga com as próprias escolhas, entre o feijão e o sonho, busca o equilíbrio. Sobreviveu como bancário e vive como escritor.
Todo escritor enfrenta pelo menos três problemas: escrever, publicar e ser lido. Escrever não é fácil, pois muitas vezes as palavras são frutos do sofrimento, marca inevitável da personalidade do artista. Não importa, por mais que se esquive, não consegue libertar-se totalmente do seu mundo conflitual. Todo esse processo é um trabalho árduo, onde o sucesso e o fracasso andam de mãos dadas. Escrever é, primeiramente, vencer a si mesmo, sem medo, resignado e apto a transferir os conflitos pessoais às personagens.
O segundo grande problema enfrentado pelo escritor é uma missão quase impossível no Brasil, publicar um livro. Não por falta de editores, mas por falta de leitores. Os custos da publicação e distribuição de um livro são extremamente altos e apenas uma pequena parcela da população possui renda para comprá-los com regularidade e uma parcela menor ainda possui o hábito da leitura. Parte dessa falta de hábito é cultural. Muitas escolas não incentivam a leitura, obrigam os alunos a ler apenas determinados livros, quando não resumos, para que possam ser aprovados em determinados exames.
O terceiro problema que o escritor tem que enfrentar é como fazer para ser lido. Talvez o maior medo do autor, em todos os tempos, é lidar com a ausência de leitores, principalmente, se for poesia. É na criação verbal que reside a genialidade. Não pode ser hermética. Encurtar a distância é que possibilita a realização completa do escritor, pois não basta escrever, é preciso ser lido.
Francisco Miguel de Moura soube enfrentar os três problemas e sem deixar o Piauí. Venceu os três desafios e outros mais impostos ao escritor. Saiu de um ambiente inóspito, rodeado de miséria e fome. Estudou em escola pública e leu à luz do candeeiro, sem os recursos que se tem hoje. Era para dar errado, mas não deu. Nunca deixou de escrever, publicar e ser lido. Aos 83 anos de idade, com mais de trinta livros publicados e esgotados, em sua grande maioria, tem fôlego para muito mais. Incansável, divulga suas obras na internet através do blog que idealizou e criou franciscomigueldemoura.blogspot.com.br.
É fato que não podemos separar, na origem, o escritor de sua criação. Assim, apresento-lhes, de forma sintética, primeiramente, o criador. Francisco Miguel de Moura nasceu na fazenda “Curral Novo”, em Jenipapeiro, hoje Francisco Santos, que pertencia ao município de Picos, sertão do Piauí, aos 16 de junho de 1933. Técnico em Contabilidade, graduado em Letras pela Faculdade Católica de Filosofia do Piauí e pós-graduado em Crítica de Arte pela Universidade Federal da Bahia. Foi comerciário, funcionário do Banco do Brasil, escrivão de polícia, radialista, professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira. Aposentou-se para se dedicar, exclusivamente, à literatura. É poeta, romancista, ensaísta, cronista, contista e colabora em diversos jornais do país e do exterior. É sócio efetivo da União Brasileira dos Escritores e membro da Academia Piauiense de Letras.
Estreou na poesia, em 1966, com o livro Areias. Publicou em seguida: Pedra em Sobressalto, Universo das Águas, Bar Carnaúba, Quinteto em mi(m), Sonetos da Paixão, Poemas Ou/tonais, Poemas Traduzidos, Poesia in Completa, Vir@gens, Sonetos Escolhidos, Antologia de Poemas, Tempo contra Tempo (em coautoria com Hardi Filho), Arfogo – romance da revolução e Cinquenta Sonetos.
Em prosa é autor dos romances Os Estigmas, Laços de Poder, Ternura, e D. Xicote. Dos contos: Eu e meu Amigo Charles Brown, Por que Petrônio não Ganhou o Céu e Rebelião das Almas. Na crônica, é autor de E a Vida se Fez Crônica, A graça de cada dia e O menino quase perdido. Como crítico literário escreveu Linguagem e Comunicação em O. G. Rego de Carvalho, A Poesia Social de Castro Alves, Um Depoimento Pós-Moderno, Assis Brasil, Castro Alves e a Poesia Dramática e Moura Lima: do romance ao Conto. Escreveu ainda, Piauí: Terra, História e Literatura, Literatura do Piauí e Miguel Guarani, Mestre e Violeiro.
Francisco Miguel de Moura é um dos escritores mais produtivos do Piauí. Premiado em vários concursos literários, tem sua obra recebido manifestação positiva da crítica, vinda de escritores de todo o país, como João Felício dos Santos, Olga Savary e outros. Por isso não podemos deixar, neste momento, de registrar as impressões de alguns de seus ilustres leitores e que atestaram a sua importância no desenvolvimento da literatura do seu Estado.
Fontes Ibiapina revela, ao prefaciar Areias, “Impressiona pela simplicidade do termo, emprestando, numa comunicabilidade impressionante, muito de simpatia ao leitor bem avisado. Em todo o conteúdo da obra, encontra-se uma intimidade contagiante familiarizando e irmanando, na tela da padronagem do seu pano de fundo, - o poeta, o livro, a terra. ”
H. Dobal destaca “Li seu livro e não foi surpresa encontrar a boa poesia que eu esperava. A surpresa foi realmente uma questão de grau: os poemas são ainda melhores do que previa a minha expectativa. ”
O poeta e crítico Francisco das Chagas Val, assim delineou a personalidade e o talento de Francisco Miguel de Moura “é um escritor que exerce o seu ofício com bastante competência e, em qualquer página por ele escrita, lá estão as qualidades intrínsecas que são as marcas a destacá-lo como uma legítima vocação literária inconfundível, em meio aos outros escritores de sua geração. ”
Hardi Filho, em artigo publicado no jornal O DIA, se pronuncia: “Francisco Miguel de Moura, que, por via de sua arte de padrão tecnicamente elevado, tornou-se conhecido e considerado pelas elites culturais. ”
O. G. Rego de Carvalho ao ler a poesia de Francisco Miguel de Moura se rende ao talento e sentencia: “Poeta de corpo inteiro, senhor e não servo das palavras, conhecedor profundo e sofrido de nosso interior, mais telúrico de que Fontes Ibiapina na sua prosa, piauiense no assunto e universal na transfiguração do tema, Francisco Miguel de Moura cresceu na minha admiração e hoje o posso citar como um dos três maiores poetas do Piauí, ao lado de Da Costa e Silva e H. Dobal. ”
Gostaria de encerrar esta apresentação dizendo para aqueles que não são escritores ou que queiram apenas ser leitores, não se intimidem com as impressões dos doutos, apenas inspirem-se. Façam uma leitura atenta, analise os detalhes, demorando-se em cada palavra, saboreando lentamente o poema e por fim o livro. Não precisa procurar o que está por trás do texto, basta aquilo que está nele, que faz dele o que ele é. Então, será o despertar e a essência se mostrará.
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*Miguel Júnior, brasileiro, baiano, escritor, advogado, bancário, mora em Teresina, filho de Francisco Miguel de Moura, discurso lido na solenidade de lançamento de “Poesia in Completa”, dia 12/11/2016, na Academia Piauiense de Letras.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

TEMPO E ETERNIDADE

Francisco Miguel de Moura*


Do tempo julgamos saber muito, pelo menos do tempo em que vivemos entre o nascimento e a morte. E o antes? E o depois? Do passado, somente através da história. E do futuro pelas premonições, profecias, etc. Aliás tem um ditado que proclama que “o futuro a Deus pertence”. Eu digo, sem nenhuma intenção de fazer trocadilho: “Se soubéssemos do nosso futuro, então o futuro não teria futuro nenhum”.

Do tempo em que vivemos é que deveríamos saber mais. Mas como, se a maioria da população, do mundo não sabe nada, ou quase nada? Quando você nasceu? Meus pais me disseram e me registraram como sendo em tal data, mês e ano. E eis que chega alguém e pergunta, de chofre, a você: quantos são hoje, qual o mês, qual o ano? Normalmente olha-se no calendário, para ter certeza. E quem fez o relógio? E o calendário? Por que foi feito? Para que o homem não se perdesse no tempo, que para a vida de cada um é limitado, e assim pudesse realizar alguma coisa. Observando o sol, a lua, as estrelas, daí nasceram todas as marcações do tempo que julgamos conhecer, pois há o tempo psicológico, o tempo interno da alma humano, do ego – este muito mais difícil de medir (impossível até), de perceber, de dominar.

Na minha filosofia de poeta, o homem (e a mulher também, é claro) é aquilo que faz. Se nada faz não é nada, se não faz nada não tem nada, não tem história pra contar, perde-se no tempo. É isto ou estou falando besteira?

Neste caso, os maiores homens seriam os poetas porque “poesia”, na sua origem grega, significa fazimento, ação criação. Ou seja, o homem primeiro fez sua casa, sua poesia, seja a caverna de ontem, seja o palácio de hoje. Nós humanos fizemos, no tempo, a língua, as línguas. O poeta usa a língua para fazer poesia. Os homens, em geral, usam a língua para se comunicarem e, assim, vencer a solidão e agarrar o seu tempo, entretendo-se, trabalhando ou pensando. O pensamento sem a palavra física (ouvida, falada, escrita) certamente fica limitado, por mais que os outros órgãos do sentido ajudem.

Entretanto, o homem ganhou consciência do tempo, após o fim do crescimento do cérebro e, através da linguagem e vivência, aprendeu que seu tempo é limitado. Vem a morte, é preciso fazer alguma coisa e deixar aos outros sua memória. Toda a civilização cresceu assim, fez-se dessa forma, em atos comezinhos para nós, hoje.

A marcação do que foi feito sobre o movimento dos astros é prática necessária. Resta saber do tempo da terra, dos planetas, do universo. Lá pelos confins o tempo se acaba, os planetas morrem e começa a eternidade. Como, sem o tempo?
A eternidade é o tempo sem fim. Será mais do que isto?

Aí vem as religiões. E proclamam que há eternidade, quando o homem falece. Mas, se os planetas, as estrelas, o universo se consomem e quando se consomem, para onde vamos nós? Ou a lei de Lavoisier está correta: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. O universo é só natureza ou é mais do que isto?

Se tudo se transforma, então o tempo se transforma, porque ele nada mais é do que a relação entre a matéria e o movimento. Então, a realidade existente se encerra em duas coisas: matéria e movimento. O tempo comum é ficção do cérebro humano, os cientistas sabem disto. Aliás, numa frase irônica, o sábio Albert Einstein, cientista que descobriu a lei da relatividade, encarregou-se de matar a eternidade. A frase é a seguinte:

“Somente duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. E não estou seguro quanto à primeira”.

Bem, creio nem devíamos mais seguir buscando o que é a eternidade, de Einstein. Mas, como sou estúpido, penso que a eternidade se resumo no tempo que gastamos, que também é velocidade, também é nossa relação com nosso corpo e todo o universo, que por sua vez não é eterno. Socialmente, o tempo são as nossas relações com os outros, todos diferentes de nós. Fazemos rotação em torno deles, mas não os invadimos – e quando invadimos é pecado, é crime.
Agora, meu leitor me acorda e cita Dostoiévski:

“Deus existe, porque, se ele não existisse tudo seria permitido”.

A eternidade está em Deus, aquele Deus que não conhecemos porque “somos uma parte infinitamente pequena dele, e a parte jamais conhecerá o todo”. Aqui tento concordar com outro filósofo: Spinoza, - se não me engano, pelo pensamento central de sua obra filosófica.

De forma que o saber vem a ser a acumulação dos conhecimentos da história, do passado no presente, e a eternidade – se é que ela existe mesmo – está onde não estamos e nem sabemos onde ela fica. Se é noutro universo, precisamos descobrir. A ciência não cessa de procurar, mas essa descoberta não vai ser para a gente saber tão cedo, nesta vida.

E há outras vidas? Ou apenas esta? Se somos carne (matéria) e (espírito), para onde vai este último, depois da morte que, como acreditamos, é a separação dos dois?

Não acredito que meus leitores tenham ficado satisfeitos com minha peroração filosófica. Mas, afinal, foi o que pude trazer. Espero continuar estudando o assunto, conhecendo mais, acreditando um pouco e duvidando outro tanto. Também receber as sugestões.

Será que os termos de que tratamos aqui são todos ficção e somente a vida é o que existe? A vida animal? A vida vegetal? E a vida mineral?

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Francisco Miguel de Moura, escritor, membro da Academia Piauiense de Letras, e-mail: franciscomigueldemoura@gmail.com

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

O MELHOR POEMA

Manoel de Barros (1916-2014)

O livro sobre nada

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu queria ser lido pelas pedras.
As palavras me escondem sem cuidado.
Aonde eu não estou as palavras me acham.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.
Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
Por pudor sou impuro.
O branco me corrompe.
Não gosto de palavra acostumada.
A minha diferença é sempre menos.
Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
Não preciso do fim para chegar.
Do lugar onde estou já fui embora.


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