domingo, 22 de setembro de 2019

A VIDA POSTA...


Francisco Miguel de Moura*

E por chegar setembro,
Com a cara que não se quer
Ali na janela ao lado,
Meu ipê, hoje amarelo, pouco florido,
Lindo, com folhas verdes ao meio.

Meu ipê vence as intempéries
Deste bruto sertão de multo sol,
Poeira, calor, luz e ainda assim,
De amor
Como nós humanos resistimos:
À vida magra, preta, agora colorida...
Como se explicar?

Amamos sempre e para sempre
A beleza das flores, o aroma, os perfumes,
Mesmo onde não há (quando o vento os carrega).

Amar vale a pena. É o melhor milagre!
Este poeta sabe o quanto vale!
E é mister que tudo eu ponha em versos.

_____________
*Francisco Miguel de Moura, poeta e prosador, mora no Brasil, onde nasceu e escreveu cerca de 42 obras já publicadas.

OUTRO POEMA


Teresinka Pereira*

Meu teclado, entre sombras,
acostumado que está à amargura,
tem soberbas cicatrizes.

Entretanto vou pensando sempre
nas profundas paixões
que produzem a morte ébria,
calada e desnuda, quando ataca
a um anjo na solidão.

Tenho meu peito ferido a destempo
com sangrante violência:
arpas clandestinas me roubaram
além das alegrias e tristezas,
meu hábito de perpétuo espanto.
 ___________________
*Teresinka Pereira, poeta e prosadora brasileira, mora nos Estados Unidos, desde a Revolução dos Militares, em 1964, com sua autorização de publicar neste blog

domingo, 1 de setembro de 2019

SE... POEMA DE TERESINKA PEREIRA

Teresinka Pereira*
 (para o amigo Chico Miguel)


Se você não está...
E agora que eu quero
recordar seus olhos,
onde estão seus olhos?

Que cor de vivacidade
positivistas os vestem
hoje?

E quando quero romper
a palavra e o costume,
que inútil me sinto,
se você não está...

Homem como você
não agarram o tempo,
com as mãos ocupadas
na fogueira do calendário...

Por isto me admiro
que consideres
e não te esqueças
de regressar à nostalgia
desta tarde cor de cinza
para sufocar os outros ídolos
de minha paciente ternura.
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*Terezinka Pereira é professora, crítica literária e poeta, além de ativista em favor da 
fraternidade universal, levando seus escritos e dos seus amigos, como eu por exemplo,
por muitas e muitas línguas e países do mundo.

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

RAZÃO, RAZÕES - Francisco Miguel de Moura


Francisco Miguel de Moura*


Na multidão contínua dos segredos,
Antes da nudez, já chora a criança,
E mexe-se entre palmadas futuras,
Que vão lhe selar o bumbum branco.

Os mortos choram antes de morrer,
Depois, já não podem nem sabem...
O que fazer? A inquietude é vã.

Mortos e nascituros se parecem:
Seguindo caminho escuro, mexem
Do princípio ao fim: Que terrível!
Um cria a confiança (olhos não abrem),
O outro, na mais profunda fé, se fecha.

Quer nasçam para o que não sabem,
Quer morram para tudo o que ficou,
São perdas e mais perdas, são vinganças...
Naturais da carne? Ou de onde, então?
São a viva esperança unida, à toa.

Como o puro e o impuro que se bipartem,
Qual seja claro-escuro, ou escuro-claro,
No vai-e-vem da virtude ou do pecado,
Algo há de ficar: - substrato eterno, vida...

Palmas, pois, aos mortos e aos nascituros,
Indo ou vindo, na esperança estão seguros.

____________________ 
Francisco Miguel de Moura, poeta brasileiro, mora no Piauí, tem 42 obras publicadas e outra virão ainda, pois possui muitos livros inéditos. 
Contatos: franciscomigueldemoura@gmail.com

sábado, 27 de julho de 2019

EM OUTRAS PALAVRAS...



 Francisco Miguel de Moura - Poeta


A voz era de deus nenhum,
a vista – do horizonte,
a música – silêncio em ondas.
Andar andei, sem rumo
nem ânsia de chegar.

Com fome – comi algas,
com sede, me bebi.
com medo, me parei,
sem medo, me sumi.

Abracei-me a seguir:
abraço-liberdade.

Nu, sem bolsa, relógio.
nem celular,
livre, liguei-me ao princípio
de todas as coisas,
suavemente como na vida. 
Morrer é inútil!

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Francisco Miguel de Moura - Nosso D. Xicote

Francelina Macedo*




Tem amigo que é irmão, tem outro que é só parente,
Uns chegam, outros se vão, ou aparecem de repente.
Xicote é figura terna, para mim é referência
De amor, de lealdade, uma vida de decência.

Um intelecto brilhante, olho clínico em demasia
Com retórica cativante, transforma paisagem fria
Retrata o Angico Branco, sem direito a contradita
E pinta a Vó Francelina, em seu vestido de chita

Francisco Miguel de Moura, grande vulto literário,
Representa o Piauí e faz do nosso ideário
Uma voz altiva e crédula, a ecoar nos rincões

Seu pai, Mestre Guarani, trouxe luz aos sertões
Autodidata convicto a quem devoto carinho
Fez do livro um santuário e da poesia o ninho.
______________
*Francelina Macedo, piauiense, professora, poeta e membro da Academia de Letras da Região de Picos - PI. Poema do seu livro inédito: "Homília Poética".

domingo, 9 de junho de 2019

Sonetos Inéditos de Francisco Miguel de Moura

A BELA E A FERA

                Francisco Miguel de Moura*

Minha santa d’outrora era de prata

loura, de olhos azuis, dos meus anseios,

róseos os lábios, túmidos os seios,

boca cheirando a lua e serenata.



E em corpo e alma, a bela, a insensata,

de olho no sexo, em danças e rodeios,

iluminava os céus com seus meneios,

festa no coração, riso em cascata.



Hoje, minha alegria se destrata,

o calendário se transforma em fel,

não quero mais saber daquela ingrata.



Meu futuro é fumaça e tem venenos...

Sem mais tempo, esvazio o meu tonel,

que um dia a mais é sempre um dia a menos.


A CADA DIA...


A cada dia a gente é um desafio

à grande noite e vai sonhando o mundo

sem tempo... A gente vai chegando ao fundo

da gente mesmo! E o cheio está vazio.


A cada dia a esfinge fere o fio

do medo, da avareza... E, de segundo

a segundo, o buraco é mais profundo

das coisas que passaram como um rio.


A cada dia a gente se amargura

com o futuro mais perto. Uma loucura!

E então desabam as tristezas de antes.


E a cada dia a gente é tão pequeno,

que o próprio doce é mais do que veneno

pois já morreram todos os amantes.



A INTEIRA VOZ


Ser bela e jovem pela vida em fora,

desejo ardente e tanto acalentaste,

não percebendo as horas do contraste.

como o florir da pedra que não flora.


Mas sei quem foste, sei quem és. Demora!

Verás, num instante, a foto que ofertaste,

Descorando, qual flor que caiu d’haste:

És teu pai de ontem, tua mãe d’agora...



Contra as marcas das nossas aventuras

verás, no que inda sou, tuas loucuras,

teu futuro verás no que hei de ser.



Tudo por si se acaba, não tem jeito,

mas tua voz calada no meu peito

há de durar comigo até morrer.



ALADO


Homem do instante  (do amanhã), sangrado

nas decisões e nos contornos,  mais

desesperando que antes do passado,

no vão lutar (sem fé, procura a paz)



qual se não requeresse o de direito,

mas o de tenso e turvo amor parado,

vai na ordem inserido, só desfeito

no que, pelo fastio, põe-se alado.



No dia aterrador, desconhecido,

dura séculos, faz-se em desamor

ou em piedade: Por pedir, perdido



nos olhos e nos lábios, sem a cor

do gesto a rebentar-se. E, ressequido,

o corpo a desejar o que não for...



ALMA TATUADA



Alma estranheza e voz do entardecer,

sem estrelas no céu, nem luz, nem gosto!

Meu olhar cinza - tanto é meu desgosto

que o sol se me apagou antes de ser.



Essa é minha alma, tenho-a sem saber

há quantas eras!  Que princípio deve

voar assim e parecer tão leve,

como para cair e ensurdecer?


Alegria?  Na vida, a desgraçada

nunca teve nem viu em rosto alheio,

por isto seu futuro é quase nada.



Alma inquieta que se quer parada,

finge a vida da carne mas, no seio,

– alma tão alma em dores trespassada.


________________ 
*A foto é de quando eu recebi meu diploma de datilografia, nos anos 1950, que foi minha primeiro diploma recebido.
____________
Acesse também meus demais blogs: http://franciscomigueldemoura.blogspot.com
http: abodegadocamelo.blogspot.com
http://cirandinhapiaui.blogspot.com 
__________

*Francisco Miguel de Moura, poeta brasileiro, membro da Academia de Letras da Região de Picos, 
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