sábado, 16 de julho de 2016

PALAVRAS Á ALVORADA

 Francisco Miguel de Moura*

Na noite, os pássaros cantam felizes,
antecipando alvoradas
das manhãs friorentas,
cobertos de pena e ar.

Amam, brigam, mas voam,
voar é ganhar liberdade
plena de todas as misérias:
- A fome vem com pouca sede.
E os desejos voltam aos ninhos,
debaixo das folhas verdes.

Pássaros crianças, meninos
brincalhões no belo que é seu canto,
no formoso que é seu voejo.

Ao calor do astro-rei se aquietam.

E nós?  Dormimos não para cantar,
mas sonhar sonhos de passarinhos,
reaprendendo a pular de tristeza.
                        .
______________
*Francisco Miguel de Moura, poeta brasileiro até morrer. Mora no Piauí, mas podia morar em qualquer lugar, desde que sendo e vivendo poesia.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

EU SOU DE ÁGUA

           Teresinka Pereira*

“Eu sou de água”*.
Sou também de flor
e de sol.
Sou uma corola
mordida de esperança.
Mas se chegas
a ferir a minha alma,
eu me faço de pedra
e me precipito
sem compartilhar
o meu único sonho.


ESTA TRISTEZA


Esta tristeza é como
um calice de vinho vazio,
como uma voz adormecida
que nao alcanc,a a sair de mim
e que não deixa a cintura do tempo
bailar em minha alma
uma nova canção de amor.

Esta tristeza já filtrou
as madrugadas mais sublimes
de imaginadas paixões
com teu corpo sobre o meu,
fogo e doce brisa essencial,
palpitante entrega, delírio clássico
do amor até a morte.
___________
*Teresinka Pereira, poetisa, mora nos Estados Unidos, onde dirige a IWA
(Associação Internacional de Escritores e Artistas)

quinta-feira, 26 de maio de 2016

PAISAGÍSTICA - Poema




 Autor:
 Francisco Miguel de Moura



 
A paisagem e eu somos um.
       Cadê meus olhos?

O verde me envaidece... Vivo!
       Cadê meu pulmão?

Os sons assanham o jardim
        Dizem que ouço
              Canto
              Penso
              E amo.

Amo a réstia de lua
Através da nuvem
Arrumando os céus.

Amo o tudo que cerco
E nesse tudo me amo.
         Partícula.

Não sou Deus nem quero.

_________________
Francisco Miguel de Moura, poeta brasileiro, e-mail: franciscomigueldemoura@gmail.com 

quarta-feira, 13 de abril de 2016

O TEMPO E A CRÔNICA, NA MÃO DO ESCRITOR

Francisco Miguel de Moura
Escritor, membro da Academia Piauiense de Letras


Escrever crônicas é escravizar-se ao tempo, não há cronista que tenha ficado célebre apenas por ser cronista. Quando faz como Machado de Assis, que, aliás, já nasceu feito, inventa, reinventa e entre crônicas e artigos que são mistos faz-se o pintor dos costumes políticos de Império.

Porém, Machado é único, e nós outros penamos entre escrever a nossa crônica – nossa vida, nossa memória, nossa vivência mais que comum – e participar da vida do país, fazendo, acentuando seus vícios, seus pecados, sua miséria. De qualquer forma, presos ao tempo.

Leio no romance “A cidade do sol”, best-seller do escritor Khaled Rossein, autor do famoso “O caçador de pipas”, - uma frase intrigante com relação ao título. Quero destacá-la: “O tempo é o mais inclemente dos incêndios” (pg.161). Acabo de ler o referido romance, como li o primeiro, e gostei imensamente, mas não vou fazer, aqui, uma crítica a ele: Para mim, o romance termina na pg. 328, quando ele conta a execução pelos talibãs da personagem principal: Mariam. O demais, embora tenha eu gostado da leitura, seria dispensável, pois que dedicado a outra personagem, Laila, que considero secundária, aproveitando-se para contar como começou o bombardeamento do Afeganistão, pelos Estados Unidos, logo após a derrubada das Torres Gêmeas pelos terroristas comandados pelo Bin Laden.]

Mas, voltando à vaca fria, como diziam nossos avós, se a conversa ficava muito espalhada, lembrando também um provérbio chinês que casa bem ao tema desta matéria, ser cronista é duro. Você não é jornalista, não é protegido pelas mesmas leis da imprensa. E daí, estendendo demais, cai nas esparrelas de mexer com uma e outra personalidade do momento, com fatos que você não prova que aconteceram (você não jornalista investigativo), e daí cai na pior: sem proteção de lado nenhum. O melhor mesmo é ficar na moleza, diz e não diz, diz e desdiz, inventa uma metáfora e enquadra-se bem no provérbio chinês que lhes prometi, meus leitores. É ele assim: “É melhor ficar três dias sem comida que um dia sem chá”. O chá alimenta a alma, o chá é o jeito inocente de fazermos nossas crônicas.
    Se bem lidas e bem observadas, as crônicas não dizem nada e dizem tudo. No Brasil de hoje, então! Quem entende o que está acontecendo nos altos escalões políticos, que, se duvidarmos, estão indo abaixo? Melhor fechar o parágrafo, sem falar em “impeatchment”, cujo nome não sei escrever, imagine interpretar. Sem falar nos que vão votar e julgar... Porque, afinal de contas,os altos escalões de hoje, do momento, são o povo, não eles, somos nós, ora! Mas estamos sofrendo “como couro de pisar fumo”, amassados em impostos e inflação, sem perspectivas para o futuro. E ainda somos obrigados a assistir o blá-blá-blá de partidinhos que nem sabíamos existir, dizendo-se os melhores. Mas nós nem sabemos pra onde vão, o que querem (ou sabemos?) – agarrar um pouco do bolo que os governos atuais já roeram, roeram, fizeram um buraco tamanho, não há mais como tampá-lo a não ser recorrendo ao exterior. O que fizeram com a nossa poupança interna? Além de acabarem com a vaca de ouro que era a Petrobrás, entraram pelos bancos de desenvolvimento nacional como o BNDS e, de posse – ilegítima – sem  amparo da aprovação do Congresso Nacional, de mão de toda essa dinheirama enorme, entregaram-no à Bolívia, à Venezuela, à  Cuba, aos paisinhos da África e ninguém sabe mais aquém.

    Acabou-se! “A Ilha de Santa Cruz”, que outrora se chamou “Vera Cruz”, foi desmanchada inteirinha, afundada no “Mar de Lama”, no “Arquipélago das Tormentas”, pela corrente malvada da corrupção – esta praga que corre desde “o bolsa família”, até as propriedades e empresas da lulada, até o porteiro do Palácio Governo, em Brasília. Talvez? Porque, dos grandes, ninguém sabe nada: “Tudo foi feito corretamente, tudo andou pela forma da lei, não houve desvio nenhum. Todas essas conversas de corrupção é invenção da imprensa – e desse maldoso Juiz Sérgio Moro” – E TOCAM ISTO NOS OUVIDOS DE TODOS E DE TODAS. PODE?

    Ainda, por cima, vem um idiota, do alto escalão da Presidência da República, dizer-nos que “EM POLÍTICA PODE TUDO”.

    Na crônica também, embora não possa tudo, pode dizer tudo. Com nomes supostos ou impostos, com indignação.  O tempo e a crônica, na mão de um bom escritor, são um castigo corporal semelhante às esporas que são usadas para fustigar o cavalo. Se o cavalo morrer de engasgo ou de queda (queda bem do alto), sobram as esporas e o cavaleiro indômito, destemido, decente, que dará um pulo sobre o abismo. Esse cavaleiro seria o cronista, seria o próprio povo? Assim esperamos. A esperança é a última que não morre.  Pode ser também a nossa terra, a terra de Pindorama, sempre à cavaleiro, como no início.

          Perguntas, sim, nós fazemos muitas. Domingo (dia 17/04/2016), quando o efeito ou a leitura desta crônica tiver passado, pode haver tudo de bom e de ruim, ou não haver nada. Mas nesse não haver nada é que começa o Apocalipse, a guerra, onde os justos pagarão pelos pecadores, mas, segundo as profecias e os evangelhos – os justos, os bons terão seu lugar no céu. Distante ainda, mas sempre uma esperança, depois não só esperança: fé mesmo, porque Deus não abandonará os bons pelos maus: esses que nos mentem tanto. A mentira é o maior pecado do mundo. Quem mente, furta, rouba, mata, pratica todos os delitos, é incrível. Mas, é assim.

    Domingo vindouro é a encruzilhada, quando uma nova história brilhará.

segunda-feira, 14 de março de 2016

HARDI FILHO E SUA BIBLIOTECA, QUE FAZER?

Chico Miguel*
 


Quando um escritor como o poeta Francisco Hardi Filho morre a primeira preocupação dos intelectuais é com o seu legado em obras, sem esquecer as inéditas, e a sua biblioteca.

Hardi Filho era talvez um dos maiores leitores de Teresina, quiçá do Piauí. Lia tudo: as obras inéditas dos neófitos que traziam para que ele desse opinião. Opinião valiosa a sua. Não dava prefácios a obras que não valessem a pena ser publicadas. Às demais, chamava os seus autores para uma conversa e explicava muito calmamente o que era poesia, como se fazia e como não se fazia, o valor do poema, o valor da palavra, na sua linguagem bastante comedida, terna até. Cheia de exemplos de poetas e de poemas que deviam ser lidos e imitados, no início, porém, dos quais deveria desligar-se depois, quando estivessem maduros. 

Ele acreditava que a poesia é um dom, normalmente a pessoa nasce poeta, e depois das leituras diversas é que se aperfeiçoa.

Mas voltemos à sua biblioteca, acredito que composta de mais de 4 mil livros, normalmente recebidos, autografados pelos autores da terra e do resto do país.

Estive, no mês passado, em Picos, onde o poeta Ozildo Batista de Barros que, diga-se de passagem, está formando uma das melhores bibliotecas do interior daquele município, ou melhor, daquela região. Segundo minhas conversas com Ozildo, ele aceitará e até agradece a dádiva do precioso espólio – a biblioteca do poeta Hardi Filho, de quem era amigo e por ser tão amigo, em sua memória, mandou levantar um estátua no espaço reservado a lazer, em seu sítio, ou seja, nas proximidades da piscina.

Ozildo Batista de Barros foi vereador de Picos, chegou a ocupar o cargo de Presidente da Câmara Municipal e depois abandonou a política. Hoje é simplesmente advogado, um dos melhores daquela região, senão o melhor. Mora no seu sítio “Falecido Amor”, que não deixa de ser uma “gozação” dele, pois se trata de uma pessoa bem humorada e inteligente, vive folgadamente do seu jeito e não quer outro. Muitos intelectuais de Picos se reúnem no seu sítio, que fica a meio caminho entre a cidade de Picos e a de Bocaina.

Creio que não haverá melhor oferta para a família de Hardi Filho para desincumbir-se do dever de dar um bom fim ao que ele deixou, pois Hardi vivia do seu emprego de funcionário aposentado do IBAMA, nunca se preocupou com dinheiro nem com coisas materiais. Filosoficamente, era uma personalidade bem diferente: séria, não ria, conversava pouco, recebia a todos que o procuravam como irmãos e como filhos. Mas, em compensação era um crítico feroz da sociedade ignorante, aquela grande maioria que não sabe dar valor às coisas mais importantes, cuja porção de gente entra facilmente para o consumismo e o desregramento social, distanciando-se das coisas da inteligência.

Para ele, a poesia, em primeiro lugar. Era sério demais para viver no nosso mundo tão desonesto, estúpido e que só pensa em dinheiro e riqueza. É preciso que se leia o seu livro “Dia Rio”, crônicas, que deixou inédito, tendo logo a Academia Piauiense de Letras, da qual ocupava uma cadeira, se apressado a publicar na “Coleção Centenário”.

Nos últimos dias, entrou numa profunda depressão. Fui lá e puxei por ele, perguntando se não estava mais fazendo poesias. E ele, com muita insistência minha, levantou-se, foi lá dentro e trouxe um caderno de sonetos como que preparados para publicação.
Mas não era mais aquele que me mostrava satisfeito e perguntava minha opinião, costume nosso, pois eu fazia o mesmo com meus poemas em relação a sua opinião. Quase que não conseguiu ler um ou dois. E pronto. 

Por minha mulher, que foi visitar D. Adélia, a musa inspiradora de Hardi Filho, sua querida esposa, soube agora que a biblioteca tinha sido desmontada e levada para outro cômodo da casa, pois já havia indícios de cupim em algumas peças. É uma pena. 

E Adélia contou para minha mulher, D. Mécia, que ele nos últimos tempos não falava, não pedia nada, dizia que não sentia nada, nada. E ela, insistente, olhava-o com carinho e perguntava:

- Hardi, diga-ma alguma coisa! Não suporto seu silêncio. Diga-me o que quer? Diga.

E ele apenas respondeu:

- Tudo o que eu tinha para dizer-lhe está nos meus livros. 
E calou-se.

Eis o homem e o poeta Hardi Filho nos seus últimos dias, neste mundo.

                      (Artigo Publicado no jornal “Meio Norte”, Teresina, de 11-3-2016)

_____________
 *Francisco Miguel de Moura – Escritor, membro da Academia Piauiense de Letras

domingo, 31 de janeiro de 2016

VAIVÉNS: TEMPO E AMOR

Francisco Miguel de Moura*


O que faria não fez 
com o faro do passado.
                       
O futuro não lhe diz nada:
Voa como o vento em serrania.
E passa, e nunca é passado
e leva e lava a gente
na poeira dos olhos,
nas juras negadas.

Tento ser luz aquela luz
que teus olhos me entregaram.
Em vão proclamo:
- Luz, me acende! Ou me cega de vez!
E ela se apaga, deixando-me ver tão só
o único caminho do tempo em naufrágio.
                     
Nego o amor, aquele amor que morde,
que afogaria os afagos desejados
sem colheita sequer
da volta de um olhar
de fogo que seja:

-Quero morrer abrasado.

______________
*Francisco Miguel de Moura, poeta brasileiro como um poema do passado. Ainda bem que o antigo poema sofreu o novo! Será que vale a pena beber águas passadas ou empossadas?

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

A sutil diferença entre autor e narrador


Roberto de Queiroz*


Em artigo publicado no Diario de Pernambuco (18/01/2015), Raimundo Carrero defende a ideia de que o autor de um texto ficcional não é seu narrador. Isso porque, na ótica de Carrero, o narrador é apenas uma personagem, obviamente, eleita pelo autor como a mais importante da obra. Tal importância se deve ao fato de ele ser a voz da narrativa e, consequentemente, atuar como intermediário entre o autor e o leitor. Assim, narrar é incumbência delegada ao narrador. O autor, por sua vez, estará sempre ausente do foco narrativo da obra.
Nesse contexto, nossas opiniões se encontram. O autor de um texto ficcional, certamente, não pode ser seu narrador, mesmo se tratando de um texto pautado no verossímil. A verossimilhança não pode ser confundida com a realidade. Do mesmo modo, o autor de um texto ficcional não pode ser confundido com seu narrador. E Carrero é muito feliz ao afirmar que essa é uma certeza elementar da ficção. Mas, para ele, a maioria dos leitores confunde o autor com o narrador, uma vez que a diferença entre um e outro é sutil.
No dizer de Carrero, quando o autor é o narrador, a obra deixa de ser ficcional e passa a ser biográfica. De modo que, na literatura de ficção, “o narrador pode ser até mesmo o alter ego do autor, mas não é o autor. Tudo porque a narrativa é uma representação e não uma verdade”, posto como é ficcional. Por esse prisma, o narrador pode ser o autor no caso da autobiografia ou, ainda, no caso da autoficção, em que o autor ganha um alter ego, ou seja, deixa de ser ele mesmo e assume outra personalidade.
Porém, a meu juízo, esse “eu” freudiano (ou personalidade secundária), citado por Carrero, pode perfeitamente vir à tona tanto em um texto autobiográfico quanto biográfico. Isso é possível porque, nesse gênero textual, o biografado tanto pode ser seu próprio biógrafo quanto objeto de pesquisa de outro biógrafo. E, em ambos os casos, algum fato da vida do biografado pode ser omitido ou adaptado, caracterizando uma reinvenção da realidade e, portanto, a figuração de outro “eu”.
_______________________
* Poeta, prosador, professor de Português e especialista em Letras. Autor de “Leitura e escritura na escola: ensino e aprendizagem”, Livro Rápido, 2013, entre outros. 
E-mail: robertodequeiroz@yahoo.com.br / Facebook: https://www.facebook.com/robertodequeiroz.2
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