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quarta-feira, 26 de outubro de 2011

JAILSON KLEIN - SALOMÃO GRANDE

Jailson Klein*

UM DIA NA VIDA DE SALOMÃO
9 de abril de 1964

          Dezoito anos.
         Foi o que de primeiro pensei quando aterrei os pés no dia em que eu ia ficar de maior. Pra falar a verdade, não apeei da rede, fiquei deitado com os olhos arregalados, esperando o galo cantar. Aí meus pensamentos teimaram de fazer um inventário do meu tempo de vida vivida. Cheguei na questão em que sempre findava meu apanhado do passado: eu tenho gosto na vida como está hoje? Morando numa serra, sem possuir um rádio, Jandira sem me querer pra namorar. Pode ser que Deus me castigue pelo mal-agradecimento, por causa de que de noite vou até quebrar a tigela de minha calça Tropical e de minha camisa moldada por alfaiate de Picos. Então, o que um pobre coitado como eu pode querer mais na vida? Reclamar da vida deve ser um pecado, uma ofensa ao Nosso Senhor, visto que tenho boa saúde pra trabalhar e não sou cruz pesada pra ninguém carregar. Deus que me perdoe pela ingratidão dos pensamentos ruins.

 Ainda deitado de cara pra cima, fiquei caçando os buracos nas telhas velhas de nossa casa, por onde raiava a luz do dia, e matutando sobre os meus gostos não realizados, de novo sem pensar em Deus. Calculei que beirava as cinco horas da manhã. Pra saber de certo, só se Josué estivesse aqui pra ler a horas no seu relógio Seiko, mas ele estava na casa dele ainda dormindo; todo mundo dormia; todo mundo sonhava; mas eu que fazia acordado. Nove de abril, a partir de hoje vou teimar pra ser chamado de Salomão Grande, nada de Saló. São outros tempos pra mim e pro Rodeador, que também vai ter nome novo: Santo Antônio. Pai nunca vai dizer esse nome na vida dele, ia ser Rodeador pro resto da vida.

Espiei pra um lado, pra o outro, e vi os vultos das redes encostadas à minha, uma de cada lado; nem carecia de ver pra saber que agora eram só três que trançavam pelo cômodo grande da frente de casa. Antigamente eram sete redes estendidas aqui na sala e outras, das mulheres, no quarto do santo. Pai e mãe ficavam no quarto grande. Mas isso foi antes de Ezequiel ir pra são Paulo, antes de matarem Jacó, antes de tanta coisa se alterar na nossa família. Podia o amontoado ser maior, se três dos irmãos não tivessem morrido pequenos. Mas os meninos homens que vingaram ficaram mesmo só em sete; ajuntando com as mulheres, aí sim, é que tudo contado dava dez irmãos. Bem pouco, dizia vó Raimunda antigamente, e comprava com outras famílias conhecidas, que tiveram mais filhos vingados que a nossa. E naquela época ainda os irmãos tudo moravam em casa. É, vendo a arrumação da dormida, acho que agora é só um tiquinho de gente em casa, e a sala fica um grande descampado. No passado, antes da minha rede, de um lado tinha a de Jeremias, porque ele é o caçula; essas duas continuam no mesmo lugar. Da outra banda da sala, a primeira era a de Josué, por ser o mais velho. Armada na ponta da sala, ele levava a vantagem de balançar botando o pé na parede. Corri a vista pelos adobes que, no escuro, eu não podia ver direito, mas que conhecia direitinho cada um deles, cada um dos buracos que cavamos pra comer o barro, nos tempos das lombrigas na barriga. Nesses buracos a gente guardava coisas. Castanhas, sementes, brinquedos, tocos de cigarros de palha. Quando a gente era pequeno, eram esconderijos de placas de metal, caixinhas de fósforo, arames, bolinhas de gude — essas custavam de se conseguir uma. 

Mais um tempinho e alguns dos irmãos iam acordar pra mais um dia de labuta. Pra eles, apenas mais uma quinta-feira de costume, de trabalho na roça; agora pra mim, o único que ia na festa de emancipação de Santo Antônio, ia ser dia de mudança. Um dia que ia ser comprido, pois que tinha muitos planos e problemas pra resolver à noite, por isso o nervoso me atacou desde cedo. Antes que mãe começasse a bater panela pra fazer os beijus e o café, me revirei na rede e tentei me lembrar de como as coisas tomaram o rumo de agora. Acho que a vida da família se alterou depois da morte de Jacó. A rixa com a família Medeiros começou mesmo depois do namoro do primo Zé Preá com a filha de Seu Nonato Medeiros, Rosalva. Pra falar a verdade, o leite só azedou mesmo quando saiu o falatório que ela estava perdida do primo. Esses bestas da família Medeiros sempre foram metidos a valentes e fizeram a vida caçando desculpa pra arrumar uma confusão com a nossa. Bastou a conversa chegar aos ouvidos dos Medeiros de que Rosalva estava desonrada, pra eles quererem começar a guerra de novo. Queriam sangrar Zé Preá ou qualquer um parente pra lavar o sobrenome, porque o velho Nonato dispensou os oferecimentos de tio Augusto de fazer o casório dos dois, querendo dizer que a família deles era mais honrada do que a nossa, e a que tinha homem mais valente do povoado. Nem era uma coisa nem outra. A família Grande provou isso antes e eu vou provar de novo hoje, se precisar. 

O galo cantou bem quando eu me alembrava do tempo que tinha começado o chamego de Zé Preá e Rosalva. Parei com as lembranças e pulei da rede como um homem de maior pra enfrentar as pendengas tudo que eu tinha pra hoje.



Clique nesses links:
http://franciscomigueldemoura.blogspot.com

http://abodegadocamelo.blogspot.com 
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 *Jailson Klein, brasileiro, mora em São Paulo. Já participou na publicação de dois livros de contos e prepara o terceiro, agora este "Um dia na vida de Salomão Grande", do qual apresentamos o primeiro capítulo. Trata-se de um prosador que vai direto ao assunto, numa linguagem saborosa e bem esperta, da maneira como os mais modernos contistas escrevem. Estilo originalíssimo.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

REFÚGIO

CONTO INÉDITO

Vera Vanessa*
   

Lygia encostou a bicicleta na parede e correu pelo terraço trajando um vestido azul já gasto pelo tempo. Nos braços, as mangas traziam babados de filó que davam um ar infantil à menina. E no peito esquerdo, uma flor vermelha mudava de proporção, à medida em que ela respirava.
            Parou na entrada da casa e limpou a boca com as costas das mãos e bateu com os pés no assoalho. Era o sinal.
    - Chegou cedo hoje – disse a idosa.
    A menina hesitou e atropelando a possível pergunta da avó, foi tratando de dizer que a aula terminou mais cedo. Sabia que levaria um sermão se dissesse que pediu para ir para casa antes do sinal bater.
    - O Neco fugiu?
    - Neco? A velhinha perguntou espantada.
    - É. O gatinho.
    - Não. Deve estar dormindo. Já procurou embaixo da cama?
    - Vou ver. Disse a menina e saiu.
    Esquecera o nome do gato. Mais essa! E Neco, que nome engraçado! Onde ele estaria? Um pavor a invadiu, de súbito. Os ratos voltariam. Há uma semana que ela não encontrava um sequer, e isso a acalmava. A respiração ficou descompassada ao lembrar-se daqueles animais de pelos curtos e acinzentados a percorrerem sua casa.
    - Ele não está lá. Disse Lygia enxugando a testa.
    - Será que fugiu? Que não gosta de mim?
    - Os gatos gostam de todo mundo, vovó.
    Aquilo atingiu sua vaidade. Depois que envelhece a pessoa perde a individualidade? Todo aquele charminho que o bichano fazia era farsa? Traiçoeiros. Mereciam a fama.
    - Olhe!
    O corpinho magro da mulher virou-se rapidamente e um sorriso exibindo os dentes brancos e bem cuidados escapou de seu rosto. Uma lágrima tímida escorreu-lhe pela face esgueirando-se e indo se fixar no cabelo da menina que a esta hora a abraçava acariciando-lhe e olhando o gatinho que lentamente se desviava dos vasos de plantas e caminhava em sua direção.
    - Ele não vai mais sair de casa.
    - Vovó!
    - Ora! Ele some, eu fico preocupada. Vai que um dia ele não volta? A fisionomia envelhecida contraiu-se e a menina não pôde perceber que a doçura ainda permanecia ali, na lacuna do silêncio.
            - E os muros são altos. E se ele errar o caminho de casa, se alguém maltratá-lo? – Ela não conseguia esconder o temor de ficar sozinha.
            - Os gatos não se perdem, e sempre caem em pé. A frase saiu atropelada pela vontade de acalmar a avó, que levantando-se da cadeira seguiu para o quarto. Logo à entrada percebia-se o capricho na organização e disposição dos poucos móveis que compunham o singelo visual do cômodo.
            Inclinando-se, a inveterada desfez as dobras da colcha da cama e sentou-se encarando o guarda-roupa.
            - Herdei este móvel da minha mãe. A menina, que alisava os cabelos da companheira como que desejando saber que pensamentos a dominavam, não ouviu.
            - Você vai esquecer-se de mim.
    - O que é isso, vovó? Quis encará-la e os olhos cansados permaneceram fechados por alguns segundos. A neta tocou-lhe as têmporas e deixou-se cair no leito. Procurou a causa deste medo repentino que atingia aquela que desde suas primeiras lembranças era só carinho e dedicação a quem tão pouco conhecia da vida.
    Ficaram abraçadas enquanto na rua os carros cortavam o asfalto e seguiam sua rotina. O barulho que atravessava as paredes e chegava ao aposento lhes era indiferente. Estavam protegidas, seguras e envolvidas pelo carinho que as unia.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

O MÉDICO DAS FLORES - CONTO

Rejane Machado*

Era uma espécie de carruagem antiga. Parecia mesmo é com belo cavalinho! Branco, manchado de marrom e café-com-leite, um toc-toc macio no andar, o carro nem balançava. Devia ser muito gostoso viajar ali dentro.

As crianças correram e se escon
deram atrás de uma moita de azaléias, para deixar passar o estranho veículo. Matheus e Rebeca fizeram silêncio. Por sorte, as meninas pequenas estavam do outro lado, colhendo flores secas, para mamãe fazer um sachet perfumado. Era só colocar tudo dentro de um saquinho feito filó, amarrar uma fitinha, enfeitá-lo com fitas coloridas, e temos um delicado presente para um aniversário de última hora, quando não há tempo para ir às lojas.

A estranha carruagem parou mais abaixo, na curva do caminho. Dela saíram duas figurinhas encantadoramente vestidas com traje fora do comum.

Raquel veio chegando bem devagar, colocou um dedo na boca. Falou baixinho: Caluda! Os dois meninos nem se mexeram.

Um dos homenzinhos, com certeza o mais velhos deles, a quem os outros chamavam Petrus, trazia nas mãos uma maleta. Usava óculos redondos, sem aro, sua barba era imensa, parecia Ter muita autoridade. Seria o chefão daquele bando. Na aba do chapéu escuro desenhava-se uma cruz branca. Virou-se para um auxiliar e lhe recomendou:

- Venha, Alphonsus, não esqueça de trazer o material.


Será que ele agüenta com aquela caixa? – os meninos queriam saber.

Raquel tornou a levar o dedo à boca: psiu! Se eles nos perceberem, poderão ir embora! – falou baixinho.

Por nada deste mundo eles queriam perder aquele espetáculo. O que aconteceria agora?

Os dois homenzinhos se dirigiram, rapidamente para
uma moita de roseiras, a um canto do jardim. Petrus era dono de uma voz grossa, autoritária:

- Aqui, rápido! Venham! Alguém vá chamar Violet!

Do meio das touceiras vão saindo seres encantadores. Todos pequenino,
Vestindo roupas muito coloridas, chapéus incríveis! – as crianças ficaram encantadas. Raquel teve muita dificuldade para contê-las, queriam ir para o meio deles, conversar, brincar. Explicou-lhes mais uma vez:

- Psiu, calma! Não façam ruído. São criaturas da natureza. Se nos descobrirem, podem desaparecer rapidamente! Quietinhos! – vamos observá-los.


Quem seria Violet?

Não precisaram esperar muito para saber. Do meio da moitinha saíram seis jovens gnomos. Espertinhos, transportando uma cadeira bem pequena. Gritavam ao mesmo tempo:

- Venha rápido, Violet, Petrus falou que o caso é grave.

Atrapalhando-se nas suas perninhas curtas e gordas, ela apar
eceu; rosto
Gorducho, corada, óculos de arco de tartaruga, um coque nos cabelos, no avental azul claro uma cruz branca, igual à da do jaleco de Petrus. Bonita figura, a voz muito fininha e doce:

- De que se trata? Para que tanta pressa?

Petrus, o velho, - a barba a balançar de um lado para outro, veio correndo e quase escorrega no limo das pedras, preocupado e aflito, arrastando-a para um canteiro de roseiras. Com sua voz abaritonada, informava:

- O caso é muito grave, muito grave!


- Petrus, eu não posso correr tanto assim, minhas pernas não agüentam! já tenho duzentos e cinqüenta anos!...

Ele riu: Ho, Ho, Ho! – escondendo idade, hem, minha cara Violet? Que bobagem, isto não é idade avançada! Fiz 320 anos na semana passada...

Afinal de que se tratava? Violet queria saber logo.

- Ela desmaiou...

- Quem desmaiou?

- Uma rosa chá...

Ela ficou muito admirada: Ora, Petrus, a vida das rosas é muito breve, mesmo. Seria bom se elas vivessem como nós, mas o destino delas é este mesmo. Elas têm um tempo muito curto para enfeitar a existência das pessoas, para perfumar o ambiente, para fornecer o pólen às abelhas. Seu destino final é marcar, num livro de menina moça, a poesia mais bonita, a mais sentimental que elas lêem, pensando nos seus heróis. E quando as rosas se vão, outras logo, logo, tomam o seu lugar. Você não sabe disso?

- Sei sim, Violet, mas essa rosa que nós vamos socorrer... – mal saiu do botão... não é o seu tempo, ainda... Podemos revivê-la.

Bem, se é esse o caso, tudo bem. Vamos lá, - disse Violet.

Foram até à rosa. Ela pendia do galho, desanimada, os olhos fechados. Petrus, quase chorando, fez um apelo:

- Violet, querida, faça-lhe massagenns com seus dedos de veludo.

- Oh, Petrus, - ela se emocionou: - meus dedos são de veludo?

- Sim. Você sabe que tudo o que suas mãos tocam, revive. Enquanto isto, eu vou amenizar o Sol, que hoje está muito forte para uma criatura tão enfraquecida como esta pobrezinha.

Deu ordens para que os enfermeiros deslocassem uma das folhas de palmeira, a fim de fazer uma boa sombra. Não muita, porque as rosas amam o Sol, e dele é que vem a sua beleza, seu aroma...

Os gnomos suavam, arrastando a folha da palma, amarrando-a com fios invisíveis a um tronco de acácia.

Violet movimentava as mãos delicadas em torno da rosa desmaiada. Enquanto isto, cantava uma delicada melodia, cujos versos diziam:

“Acorda, rosa bonita/ reanima teu destino/
porque ainda não é hora/ de partir num desatino.

Um caminho a percorrer/ é o que te resta fazer/
Tens muito que embelezar/ as coisas boas da vida.

A luz do Sol magoou-te/ Isto passa, vive e sonha,/
revive tua alegria/ não fiques assim tristonha.

Nesse momento Petrus abriu sua maletinha de médico e tirou dali um vidrinho cheio de um líquido verde.

- Cheire isso, menina Rosa. Vai lhe fazer muito bem!

Os meninos não ousavam respirar. Não podiam acreditar no que viam. A rosa começou a levantar o longo pescoço, suas pétalas se firmavam; em breve estaria sã. A alegria voltava-lhe, aos poucos. O carinho de Violet, a meia-sombra e a agüinha verde a reanimaram. Petrus ficou satisfeito, beijou as mãos de Violet e lhe declarou, entusiasmado:

Só você mesmo!

Mas apressou-a, de novo.

- Vamos, minha cara enfermeira, não podemos descansar, enquanto não terminarmos nossa tarefa de hoje. Ali adiante um cravo branco brigou com um vermelho, e machucou-se um pouco. É possível, isto? E brigam por causa de uma cheirosa magnólia. Você tem que falar com eles. Neste jardim não pode haver rivalidades. Todos fazem a sua parte na beleza e no perfume do ambiente.

A rosa, completamente refeita, mandava mil beijos para os seus benfeitores. Violet disse que a luz da Lua iria fazê-la mais bonita.

- Ela viverá alegremente o seu tempo. Agora vamos ver estes cravos malcriados.
Lá se foram, apressados. Petrus abriu de novo a maleta, apanhou gaze, esparadrapo, merthiolate...

Raquel virou-se para Matheus e perguntou: você viu como Petrus e a gnoma recuperaram a saúde da rosa desmaiada?

Ele a corrigi: - Gnoma, não, viu, Raquel? Ela tem um lindo nome: Violet. E ainda é mágica, hem?

Uma nova confusão surgiu. Alfonsus veio correndo, esbaforido. Petrus! – gritava ele – venha rápido!

Uma camélia branca chorava como doida. Ela matou a charada:
Violet chegou pertinho dela, com seus dedos de veludo, acariciou-a, e voltou para perto do grupo, que aguardava. O que foi, afinal? – perguntavam todos.

Nenhum motivo importante, explicou. Ciúmes de uma tulipa vermelha, muito importante, com seu pescoço em pé. Segundo a Camélia, a outra é uma orgulhosa, não fala com ninguém, muito antipática...

- Oh! – fez Petrus, com ar aborrecido. E como você acomodou as coisas? Uma flor cheia de soberba... caso difícil de resolver!....

- Nada disso, respondeu Violet. Não é soberba, orgulho, frescura, nada disso! É só um problema de comunicação.

Esclareceu o mistério. A Tulipa, coitadinha, chegou há pouco da Holanda. Não sabe falar a nossa língua, portanto não pode se comunicar com as outras flores. Já tomei providências: a Margarida-rainha sabe um pouco de alemão, que é parecido com holandês. Vai ensinar à Tulipa alguma coisa de português, e depois, ela vai aprendendo aos poucos, pois as flores são muito inteligentes.

Petrus sorriu e comentou com os outros: Violet é danadinha. Sabe falar muitas línguas, além de Ter maravilhosos dedos de veludo... Ela pode conversar não só com as plantinhas, mas também com insetos e pedras.

O pequenino Arthur acordara e batia palminhas, no seu carrinho. Rebecca, Lívia, Juliana. Ciça,, Amanda e Clarice, na ponta dos pés, fazenndo psiu! – uma para as outras, acomodaram o neném, colocando um ursinho na mão dele, e foram seguindo grupinho, sem serem vistas.

Isto é o que elas pensavam. Bem que os gnomos perceberam que eram espionados, mas como as crianças não pertubavam, eles faziam de conta que não sabiam de nada.

Ouviu-se um grito. Uma Gérbera reclamava do ataque de um besouro. Rápido como o vento, Petrus apanhou um graveto e espantou dali o insensato. Ele protestou:

- Hei, quê que há? – vai chegando assim, e incomodando os outros? Quem é você – falou o besouro, - para me atacar dessa maneira? Petrus e Violet responderam juntos:

- Nós somos guardiães da natureza. Estamos vigilantes, nada nos escapa. Somos responsáveis pela ordem e pela harmonia deste jardim, porque gostamos muito da dona dele, dona Camilinha e seus filhos, que são crianças muitos bem educadas.

Petrus aconselhou o besouro a voar mais brandamente, deixando de ser espalhafatoso. Você tem um corpo pesado, vôe com cuidado, não fique atropelando os outros...

Justo nessa hora o irmãozinho de Matheus começou a berrar. De fome, com certeza, pois passava um pouco das onze, e nenéns não costumam saber esperar. Eles vão logo botando a boquinha no trombone. Raquel o aclamou e começou a empurrar o carrinho, rápido, e voltar para a cada. E todos vieram atrás, porque iam, tomar um suco de frutas “da pesada.”
Matheus começou a rir, sem parar. Sua mãe queria saber o motivo. Por que você tanto rir, meu filho?

Ele respondeu que logo agora que o Petrus falou em crianças bem educadas, o neném começou a gritar...

- Quem é Petrus? – mamãe estava mesmo curiosa.

E agora? Dizer para mamãe que Petrus é um gnomo, médico de plantas, de flores? Não, ela não ia mesmo acreditar, porque gente grande é assim mesmo... melhor dizer que Petrus é um amigo. O que não deixa de ser verdade, não acham vocês?
_______________
*Rejane Machado é carioca, doutora em Letras, romancista e contista, premiadíssima. Crítica Literário, e como tal recebeu o maior prêmio na categoria, da Academia Bahiana de Letras, com o ensaio “Livro do Osvaldo” Está no prelo um livro de contos e acaba de escrever o romance “Réquiem para Mário”

sábado, 2 de agosto de 2008

CONTO


JOANA D'ARC E OS AMANTES

Nilto Maciel*


Jacques olhou para a cama e sorriu. Isabel despia-se, len­tamente.

— Posso acender a luz? — ele perguntou.
Haviam se conhecido duas ou três horas atrás. Num cine­ma. A história de Joana d’Arc sempre o interessava. Além do mais, gostava de filmes. Isabel, porém, não se lembrava de algum dia ter ouvido qualquer referência à donzela de Orléans.
Logo no início da projeção, trocaram olhares e algumas palavras. Jacques viu certa rudeza em Isabel. Não estava gos­tando da fita. E parecia não ler as legendas. Entendeu perfei­tamente, porém, a cena grotesca em que a famosa ré foi quei­mada viva.
À saída do cinema, Jacques acompanhou Isabel. Per­guntou se tinha compromisso. Poderiam conversar mais. Se ela tivesse interesse, contaria outros detalhes da história de Joana d’Arc. Depois — pensou — iriam a um motel. Afinal, a moça era bonita e parecia disposta a aventuras.
— Jeanne d’Arc é heroína e mártir — explicou.
Pararam diante de uma lanchonete. Cheiro de frituras, gente se acotovelando. Melhor irem a um barzinho.
Jacques se pôs a falar das lutas entre franceses e anglo­-borgonheses, do reinado de Carlos VII, da prisão de Joana no castelo de Rouen, do Tribunal da Santa Inquisição. Quan­do encontraram um bar, Isabel parecia aborrecida.
— Você quer o quê?
Ela olhou para o garçom, como a pedir ajuda. Talvez um uísque. O mais caro que houvesse.
O rapaz percebeu, então, que não precisava mais demonstrar erudição. A moça estava rendida.
— Você defende muito essa Joana — ela se atreveu a dizer. — Para mim a morte dela foi merecida.
Jacques ingeriu, de um gole, a bebida. Não sabia se devia rir ou ouvir o resto da opinião de Isabel.
— Mulher não pode agir como homem — sentenciou a moça.
No meio da segunda dose, Jacques mudou de assunto. Gostava de mulheres ousadas.
— Como você.
Ela sorriu. Também gostava do jeito dele. Parecia fogoso, ardoroso, apaixonado.
Jacques disse adorar as mulheres que se consumiam no fogo, no amor.
E se retiraram, abraçados.
_____________
*Nilto Maciel, romancista, contista e poeta cearense, mora em Fortaleza, edita a revista "Literatura", de circulação nacional

segunda-feira, 14 de julho de 2008

CONTO


AS SURPRESAS DO AMOR

Francisco Miguel de Moura*

Ele veio a pedido de Maria das Graças, Gracinha, como chamava agora. Pediu folga no emprego e mandou que a secretária transferisse para o dia seguinte todos os seus clientes. A visitar no hospital, não havia nenhum. Veio porque não podia faltar. Não queria faltar. Estava mesmo sentindo saudades de sua querida Gracinha. Depois de dois dias sem se encontrarem... Nunca vira mulher mais atraente, mais sedutora, mais gostosa. Sentia-se o máximo. Era paixão. Estava apaixonado, e ainda pouco. Depois de tantas noites deliciosas, o céu se abria, no início de sua vida. O relatório da OMS consumia todo o seu tempo, mas... Como Deus era bom!

- É coisa de rotina - ela disse pelo telefone.

- Pois não, minha filha, não me demoro.

O facultativo examinou-a com todo o cuidado. A recomendação do colega relevava. Pediu os exames de laboratório, entre os quais aquele mais temido.

No dia seguinte, o diagnóstico.

Chamou o Dr. César de modo meio reservado e misterioso e disse:

- Amanhã.

“Amanhã? Não é pouco tempo não, doutor?” – esteve a ponto de perguntar.

Não, não fica bem a um médico, devia ser objetivo, confiar no colega. Embora o outro pressentisse alguma relação afetiva entre Dr. César e sua paciente, Maria das Graças...

Amanhã Gracinha teria de ser internada num hospital especializado, onde exigem completo isolamento. A lógica, onde está a lógica de tudo isto?

Um engano, deve estar acontecendo um engano. Não via nenhum sinal. Apenas uma fraqueza momentânea, umas manchinhas sem valor. Que coisa absurda.

Mesmo sem aceitar, Dr. César começa a diminuir a pressa na colheita dos dados para o relatório da OMS a partir daquele dado estúpido. Um engano do laboratório, a dúvida. Disfarça, ou cai num desânimo, num estado de nervosismo e apatia incomum. Escolhera justamente Gracinha para fechar o relatório, seu nome ia crescer como médico, como colaborador, como cientistas. Há quanto tempo sonhara com uma temporada nos Estados Unidos, uma bolsa, uma especialização? E vinha fazendo um trabalho espetacular. Outra vitória que dele se aproximava. Deus não iria castigá-lo justo agora. Se merecia algum castigo, que viesse depois.

Porém a desconfiança bate, inevitável.

“O doutor não faz mais as minuciosas anotações de antes, tão exigidas, tão apuradas. Mudou de método? Deixa o lápis cair. Tosse, pára, tosse.”

Que está ausente, Dr. César sabe. Por isto faz um tremendo esforço para não transparecer. E não consegue. Ó santo Deus!

Depois de algum tempo, reage, exortar-se, procurando tornar-se razoável, convincente, dedicado, sutil.

- “Prossiga, meu amor. É interessante o que está dizendo. Mas, se quer deixar para amanhã...” Faz a sugestão, receando que ela feche a boca e não consiga terminar o documento. Pelo menos isto. Se o resto está perdido...

E como dizer a ela?

Que amanhã? – devolver-lhe-á o enigma, com certeza.

O tempo não existe mais para ele e, no entanto, pesa como chumbo. O espaço é intransponível, sem brechas, sem saída, como se estivesse colado entre barras de ferro descomunais.

Levantam os dois do sofá. Parados, já na porta da saída ele diz, segurando no ombro da companheira.

- Amanhã...

- Amanhã... O quê?

Olham-se longamente. E aquele olhar sem voz tem uma força de penetração da realidade que jamais casal algum produziu. Tão forte e tão triste. E tão aterrador. Em poucos segundos, um paraíso se transformou no inferno.

Coitada!

Por culpa de quem? Dele? Dela? Dos dois?

Não, de Deus.

Sentindo que ia cair – oh, Pai, que fraqueza! – ampara-se novamente no ombro dela, enquanto é colhido por um turbilhão de pensamentos.

É incompreensível a alma das pessoas. De um dia para o outro, de vibrante, de cheia de doçura e vitalidade, de amor para dar, indo até o esgotamento, cai numa queda fragorosa. E não há ciência do mundo capaz de ensinar alguém a sofrer o sofrimento do outro. Os males de cada um são suportados individualmente, até a última gota. A incomunicabilidade causa nojo, tristeza, vergonha, tudo o que há de mais abjeto. E é o que tem o ser humano. Ao mesmo tempo louva-se o que há no homem de único, diferente, exclusivo. Um inferno e um céu na terra, cuja mistura é impossível. A dor é impotência.

Sem poder captar a marcha que Maria das Graças empreendia para dentro de si mesma, olhos pregados no teto sujo de teias de aranha do hospital e de manchas de goteiras das últimas chuvas, Dr. César acompanha sua amada ao calvário e ainda arranja alento para tentar a finalização do trabalho – cujo prazo fatal de entrega é “amanhã”.

- “Céus, tende piedade de nós, de mim e dela”, quase pronuncia, mas em seu lugar solta um suspiro preso, enquanto o barco de salvamento não aparece:

- Querida, lembre mais.

- Oh, bem... Meu bem, não dá mais para lembrar, dá?

- E quem poderá contar o resto de nossa história?

Maria adquiriu um pouco de brilho nos olhos e falou:

- Meu filho – e aponta o ventre, que ainda nada demonstrava, nem podia, porque a gravidez era de pouco mais de dois meses

Dr. César esfriou. Pálido, para não cair virou estátua, sem nenhum sabor. Puro gelo. Parado. Paralítico.

Imediatamente ela retifica a resposta:

- Nosso filho, Dr. César. Não se lembra?

Ele caiu como uma fruta podre. A resposta não o devolver à realidade. Afoga-o cada vez mais no inferno em que se debatia. O reexame do vírus poderia tranqüilizá-lo por alguns dias, colocar a cabeça em situação razoável. Como poderia perdê-lo por completo, para sempre, tão logo... Gracinha era a única criatura de sua vida, seu único amor. E, agora, a mãe de seu filho.

“E se ele nascesse portador...”

O deus que tinha sido Dr. César, dali em diante afunda-se na mais triste humilhação. É uma coisa, um fardo. Nem tem mais sentido a vida, em lugar nenhum. Sem esperar por exames nem por conselhos dos amigos, colegas, familiares, por anda, resolve instalar-se junto com ela, no isolamento dos aidéticos. Deus ajudaria que encontrassem a feliz vacina para o tão rancoroso mal contra o amor.

- Amanhã...

- Amanhã?

___
*Francisco Miguel de Moura, escritor brasileiro, de Teresina, Piauí

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