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segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

TEMPO E ETERNIDADE

Francisco Miguel de Moura*


Do tempo julgamos saber muito, pelo menos do tempo em que vivemos entre o nascimento e a morte. E o antes? E o depois? Do passado, somente através da história. E do futuro pelas premonições, profecias, etc. Aliás tem um ditado que proclama que “o futuro a Deus pertence”. Eu digo, sem nenhuma intenção de fazer trocadilho: “Se soubéssemos do nosso futuro, então o futuro não teria futuro nenhum”.

Do tempo em que vivemos é que deveríamos saber mais. Mas como, se a maioria da população, do mundo não sabe nada, ou quase nada? Quando você nasceu? Meus pais me disseram e me registraram como sendo em tal data, mês e ano. E eis que chega alguém e pergunta, de chofre, a você: quantos são hoje, qual o mês, qual o ano? Normalmente olha-se no calendário, para ter certeza. E quem fez o relógio? E o calendário? Por que foi feito? Para que o homem não se perdesse no tempo, que para a vida de cada um é limitado, e assim pudesse realizar alguma coisa. Observando o sol, a lua, as estrelas, daí nasceram todas as marcações do tempo que julgamos conhecer, pois há o tempo psicológico, o tempo interno da alma humano, do ego – este muito mais difícil de medir (impossível até), de perceber, de dominar.

Na minha filosofia de poeta, o homem (e a mulher também, é claro) é aquilo que faz. Se nada faz não é nada, se não faz nada não tem nada, não tem história pra contar, perde-se no tempo. É isto ou estou falando besteira?

Neste caso, os maiores homens seriam os poetas porque “poesia”, na sua origem grega, significa fazimento, ação criação. Ou seja, o homem primeiro fez sua casa, sua poesia, seja a caverna de ontem, seja o palácio de hoje. Nós humanos fizemos, no tempo, a língua, as línguas. O poeta usa a língua para fazer poesia. Os homens, em geral, usam a língua para se comunicarem e, assim, vencer a solidão e agarrar o seu tempo, entretendo-se, trabalhando ou pensando. O pensamento sem a palavra física (ouvida, falada, escrita) certamente fica limitado, por mais que os outros órgãos do sentido ajudem.

Entretanto, o homem ganhou consciência do tempo, após o fim do crescimento do cérebro e, através da linguagem e vivência, aprendeu que seu tempo é limitado. Vem a morte, é preciso fazer alguma coisa e deixar aos outros sua memória. Toda a civilização cresceu assim, fez-se dessa forma, em atos comezinhos para nós, hoje.

A marcação do que foi feito sobre o movimento dos astros é prática necessária. Resta saber do tempo da terra, dos planetas, do universo. Lá pelos confins o tempo se acaba, os planetas morrem e começa a eternidade. Como, sem o tempo?
A eternidade é o tempo sem fim. Será mais do que isto?

Aí vem as religiões. E proclamam que há eternidade, quando o homem falece. Mas, se os planetas, as estrelas, o universo se consomem e quando se consomem, para onde vamos nós? Ou a lei de Lavoisier está correta: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. O universo é só natureza ou é mais do que isto?

Se tudo se transforma, então o tempo se transforma, porque ele nada mais é do que a relação entre a matéria e o movimento. Então, a realidade existente se encerra em duas coisas: matéria e movimento. O tempo comum é ficção do cérebro humano, os cientistas sabem disto. Aliás, numa frase irônica, o sábio Albert Einstein, cientista que descobriu a lei da relatividade, encarregou-se de matar a eternidade. A frase é a seguinte:

“Somente duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. E não estou seguro quanto à primeira”.

Bem, creio nem devíamos mais seguir buscando o que é a eternidade, de Einstein. Mas, como sou estúpido, penso que a eternidade se resumo no tempo que gastamos, que também é velocidade, também é nossa relação com nosso corpo e todo o universo, que por sua vez não é eterno. Socialmente, o tempo são as nossas relações com os outros, todos diferentes de nós. Fazemos rotação em torno deles, mas não os invadimos – e quando invadimos é pecado, é crime.
Agora, meu leitor me acorda e cita Dostoiévski:

“Deus existe, porque, se ele não existisse tudo seria permitido”.

A eternidade está em Deus, aquele Deus que não conhecemos porque “somos uma parte infinitamente pequena dele, e a parte jamais conhecerá o todo”. Aqui tento concordar com outro filósofo: Spinoza, - se não me engano, pelo pensamento central de sua obra filosófica.

De forma que o saber vem a ser a acumulação dos conhecimentos da história, do passado no presente, e a eternidade – se é que ela existe mesmo – está onde não estamos e nem sabemos onde ela fica. Se é noutro universo, precisamos descobrir. A ciência não cessa de procurar, mas essa descoberta não vai ser para a gente saber tão cedo, nesta vida.

E há outras vidas? Ou apenas esta? Se somos carne (matéria) e (espírito), para onde vai este último, depois da morte que, como acreditamos, é a separação dos dois?

Não acredito que meus leitores tenham ficado satisfeitos com minha peroração filosófica. Mas, afinal, foi o que pude trazer. Espero continuar estudando o assunto, conhecendo mais, acreditando um pouco e duvidando outro tanto. Também receber as sugestões.

Será que os termos de que tratamos aqui são todos ficção e somente a vida é o que existe? A vida animal? A vida vegetal? E a vida mineral?

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Francisco Miguel de Moura, escritor, membro da Academia Piauiense de Letras, e-mail: franciscomigueldemoura@gmail.com

segunda-feira, 2 de março de 2015

O HOMEM, A LÍGUA E O MUNDO


Francisco Miguel de Moura
 Escritor (Academia Piauiense de Letras)
                                                          

            A Bíblia diz que no princípio era o verbo. Já outras pessoas, inclusive cientistas, acreditam que antes do verbo vem o pensamento. No Último caso está o Dr. Humberto Guimarães, psiquiatra competente, acadêmico da Academia Piauiense de Letras e professor sério, pessoa simples e honesta, que assim externou no início de sua conferência sobre o pensamento, num dos nossos sábados solenes, na APL, para uma seleta assistência. Aliás, uma ótima conferência. Pena que não tenha sido escrita ou gravada para distribuição e leitura, que é uma espécie de audição mais demorada e apreciação em todos os seus detalhes.
          Mas nem sempre os filósofos e cientistas são concordes. Há quem considere que pensamento pressupõe a linguagem e vice-versa. Nascem ambos ao mesmo tempo e têm a mesma origem.
          Com essas considerações, inicio este artigo sobre um livro cujo título é “A Língua e o Homem”, de autoria de Bertil Malmberg, tradução de M. Lopes e edição das Editoras Nórdica/Rio e Duas Cidades/São Paulo, 1976. Com base em anotações feitas há alguns anos, não pretendo nenhuma propaganda das editoras ou livrarias. 
          Trata-se, dizem os editores sobre o livro, de uma rigorosa introdução aos problemas gerais da ciência da Linguística, o que não deve ser alheio aos universitários (professor ou aluno) que tenham ligação com as ciências humanas. Tudo baseado na leitura, pois o autor não nos é familiar e o que sabemos dele é que é um professor de fonética na Suécia e autoridade internacional no assunto.
          Mas não é mais um livro sobre a Linguística como tantos que pululam por aí afora, eivados de estruturalismos doentios e rançosos, de teorias universitárias indigestas até para os próprios professores. É uma obra que tem valor para a vida prática. Poder-se-ia abri-la sem susto, pois lá se encontram informações, comparações, análises e exemplos de quem conhece a matéria e por isto fala de coisas difíceis com linguagem acessível. 
          Entre as inúmeras informações e formulações, exemplifiquemos com esta que se encontra lá na pg. 82: “A onda sonora no ar ou as letras no papel adquirem poder sobre os homens graças a sua característica de portadores de conteúdos. Como já afirmamos, na relação entre um conteúdo e uma expressão está a essência da própria língua. Mas se desejamos não ser enganados pelas próprias palavras, devemos observar as mudanças que se produzem pouco a pouco no conteúdo, juntamente com as modificações de tempo, espaço e ambiente. A Semântica é‚ pois, uma ciência muito útil como aliada na luta contra o poder da língua sobre o pensamento. Não somente dela necessitam os ditadores para poder levar a cabo sub-repticiamente sua arte de sedução. Necessitam-na também todos aqueles que consideram como tarefa mais urgente a luta contra esses ditadores onde quer que eles surjam”.
          Minha opinião sobre o assunto, creio, é de somenos importância. Por isto passo novamente a palavra ao autor de “A Língua e o Homem”: 
          “Um ser incapaz de captar e experimentar conceitos não pode criar uma língua. Língua e formação de idéias são, no fundo, uma coisa só, e constituem expressão de idêntica capacidade. A língua e o pensamento são, em sentido restrito, a mesma coisa. O aparecimento da capacidade linguística se torna igual à ação pela qual o homem se torna homem. Assim, a verdade do primeiro versículo do Evangelho de João, adquire sua confirmação”.
          Aos que acham que a educação linguística é coisa supérflua, Bertil Malmberg afirma que um ser humano sem língua não é propriamente um ser humano. Que uma pessoa com língua pobre é apenas uma pessoa pela metade, o que acontece nas massas dos países subdesenvolvidos. Povo rico tem língua rica, bem desenvolvida. Povo pobre tem língua pobre. Não podemos comparar a riqueza de um inglês, francês ou russo, pelo seu patrimônio língua/pensamento, com um pobre indígena dos confins do Amazonas.
          A respeito do estudo das línguas estrangeiras, o Autor, no livro sob referência, mostra que o conhecimento e uso de mais outra língua faz com que a gente possa sentir os problemas de outros povos, dá mais abertura ao pensamento. O erro está em que foi institucionalizado o estudo obrigatório do inglês entre os povos de língua neolatina, por exemplo, quando deveriam estudar o alemão, o sueco, o russo, de preferência, porque distanciados das suas, pois que, quanto mais distante do idioma materno, outra língua se torna mais fácil de ser aprendida, sem grandes desvios. É exatamente o contrário da opinião comum, corrente. Semelhança não conduz à facilidade do integral pensamento em outra língua. Os suecos, por outro lado, deveriam estudar não o inglês - apesar de sua riqueza, reconhece o Autor - mas o francês, pelo muito que poderia servir também língua rica e flexível, objetiva e clássica, na impossibilidade de um pulo maior, estudando, por exemplo, o chinês, por causa do alfabeto.
           Depois desse estudo, pode-se pensar que, se o mundo todo falasse a mesma língua, o entendimento dos povos (que no caso seria povo), se tornasse mais fácil, mais possível, melhor.  E, como uma palavra leva a outra, um pensamento também leva a outro: o da Torre de Babel, registrada na Bíblia quando da dispersão do povo e da confusão das línguas. Por isto é que um poeta contemporâneo cantou: “minha pátria é minha língua”. como poderia ter dito: “o pensamento não é só meu, é um patrimônio do homem”.

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