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domingo, 14 de outubro de 2012

MATÉRIA PRIMA


Poema

Autora: Gisa 
 
Senta, abre os olhos e presta atenção.
Hoje sou o teu foco principal.
Quero-te plenamente consciente. 
Fecho a porta e as janelas. 
Acendo as velas perfumadas do meu cheiro. 
Vou te inebriar de mansinho. Ouve! 
Música suave e lacunosa, 
No meio da qual lanço meus mais doces sussurros. 
Movimento-me diante de ti, 
Na certeza que me queres. 
Tuas vontades incendeiam meus desejos. 
Tiro a roupa pouco a pouco. 
Nua, danço o ritmo de nossas respirações, 
De nossas intenções mais mundanas e depravadas. 
É com desespero que te vejo sucumbir 
Derretido pelo calor do momento. 
Tanto trabalho perdido em um único instante! 
Dou de ombros e recomeço. 
Tratarei de construir-te mais sólido dessa vez. 
A cera, definitivamente, não é uma boa matéria-prima 
Para fazer-te a imagem. 
Tentarei agora a madeira. 
Há de dar um melhor resultado.

____________
*Gisa (Gisela), poeta, tem um blog bastante festejado, cujo título é "Ler, escrever, viver" - um blogue de ideias, pensamentos e sonhos. 

domingo, 7 de outubro de 2012

VEJAS, BEM! – XXX - POEMA

Carmen Silvia Presotto*


                                                 vejas bem xxx
no ventre de meus seres
te sou, perco me encontro...
deslizo InVento, abraço
os nus momentos, choro
nomeio, canto ... te beijo

guardo na saliva
a lembrança, a herança
do verso que fincaste em mim

Poesia , nossa pátria
amado templo, espelho
dedos, regaço, anéis de ti
me esperanço signo, sigo

Vejas, bem!

enquanto nosso animal rasteja
a alma sacoleja...
e quando os dois se encontram
pronto
:
me apronto vooooooo, poemas, amo

ao silêncio, dou- te um túnel
capa recheio texto contexto
me revisto...

Vejas bem, ouço o canto de Pessoa nas Odes de Ricardo Reis, soprando que “a esperança é um dever do sentimento... “. Acredito e sigo em seta de ser feliz, dia a dia esperançosamente!!

________________

 
*Carmen Silvia Presotto, em mais uma série de escrever. Esta traz um tom intimista, um monólogo interior que amo, conversando com Lispector, Woolf , Plath, Cecilia, Quintana, Pessoa, Whitman, Octávio Paz , Mario Benedetti, Baltasar Gracián, Safo, Shakespeare, Anais Nins, Leminski, Goethe e tantas outras mãos que me escrevem…



quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

UM DIA, AO PIAUÍ


Nelson Hoffmann*


Livros e autores revelam a fertilidade literária e cultural do Piauí

Um dia irei ao Piauí. Em lá chegando, vou direto à procura do Adrião Neto. Este eu sei que sabe tudo, conheço-o, com ele me acerto. Abraço-o e batemos um papo. Ele fala-me do Piauí, da geografia, da história, economia, política. Do turismo, é claro, também: do Delta do Parnaíba, do Parque Nacional. De sua querida Luís Correia…

E eu conto-lhe do interesse que a fertilidade do Piauí está provocando por aqui, no Sul.

- Fertilidade?

Isso, fer-ti-li-da-de. Não houve engano, não, está certo, a palavra é “fertilidade” mesmo. Fertilidade, em dois sentidos, até.

Em sentido natural, de solo, terra; e em sentido cultural, de inteligência, arte. Quanto ao natural, daqui, de minha região missioneira, de Santa Rosa e arredores, está havendo verdadeira corrida para os lados do Piauí, para o sul do Estado, para os domínios de Bom Jesus, Uruçuí. Para lá vão os nossos colonos, em nova cruzada de fé e esperança por dias melhores, o que lhes é garantido pela infra-estrutura das agrovilas e opulência das terras.

Quanto ao lado cultural, eu direi ao Adrião Neto que, antes de conhecê-lo, eu sequer sabia que o Esdras Nascimento, o O. G. Rego de Carvalho e outros, de minha leitura, eram do Piauí. De lá, de tão longe, só mesmo o Assis Brasil; e isto, graças ao Prêmio Walmap, que destacou o fato.

O Adrião Neto, com o seu Literatura Piauiense para Estudantes, fez de mim um estudante do Piauí. Passei a interessar-me, o livro era por demais chamativo. Havia curiosidades muitas, eu estava sendo convidado para um mundo desconhecido. Embarquei. O Adrião guiou-me, mandando o seu Dicionário Biográfico de Escritores Piauienses de Todos os Tempos. E acrescentou-me o seu Dicionário Biobibliográfico de Escritores Brasileiros Contemporâneos. E somou Coletânea de Escritores Brasileiros Contemporâneos em Prosa e Verso. E adicionou Cordéis – Passeio pelo Jardim da História. E remeteu uma “De Repente” atrás de outra. E…

Eu mergulhei fundo na fertilidade dessa Literatura tão pouco conhecida por estas bandas sulinas.

Lá pelas tantas, um dia, encontrei o Herculano Moraes. Este apresentou-me a sua monumental Visão Histórica da Literatura Piauiense, em três tomos e sucessivas, revisadas e atualizadas edições. A obra é um panorama completo da Cultura Literária Piauiense, desde suas origens até os dias de hoje. Cada movimento literário, nacional e mundial, é delineado, a situação local é caracterizada e, a seguir, o autor é enquadrado. Cada autor é biografado, tem um texto selecionado e é criteriosamente analisado. Uma obra definitiva.

Um paralelo? Entre os livros do Adrião Neto e a obra do Herculano Moraes?

Já está nos títulos. Excelentes, cumprem tarefas diferentes.

A tarefa literária é tarefa estética. A estética vincula-se à sensibilidade e busca a perfeição. É uma atividade espiritual. Suprema.

No Piauí, um jovem poeta cumpre essa tarefa com rara competência. Dilson Lages Monteiro é o autor de Colméia de Concreto e Os Olhos do Silêncio. Os dois são livros da mais pura poesia. Um signo, um gesto, um pulsar desapercebido, qualquer existência, tudo é captado e motiva a sensibilidade do poeta. Apreendida a essência, surge a construção nova. Original. Com o mínimo de palavras e o máximo de significados.

Isto é poesia, isto é arte.

Como são da melhor arte, os textos desse grande poeta e prosador que é Francisco Miguel de Moura. A prosa do Chico Miguel, como é conhecido, é das coisas mais saborosas de que se tem notícia por aqui, como vindo de lá, do quase outro extremo desse imenso país. E A Vida Se Fez Crônica e Por Que Petrônio Não Ganhou o Céu são livros que a gente lê de uma assentada só. E se diverte. E se delicia. E se angustia. E se vive.

Francisco Miguel de Moura parece-me o próprio Piauí.

E, olhe, que eu não mencionei o Oton Lustosa, com o seu excelente Meia-Vida, nem o José Ribamar Garcia e o seu belo Além das Paredes. Também não comentei a intensa atividade literária da Presidente da ALVAL, Maria do Socorro de Carvalho, e o entusiasmo sem fim da escritora Francisca Miriam. Ainda…

Sim, sim. Sei. Tem a Literatura de Cordel, a revista “De Repente”, o…

É muito, perco-me. O Piauí é-me tão distante e figura-me tão diverso que desando. Reconheço que preciso conhecê-lo melhor. O jeito é ir até lá, não vejo outro. Preciso ir. Irei, um dia.

Abril/2000 - Página republicada em 30/03/2009, no site LetraSelvagem
__________
*Nelson Hoffmann, escritor brasileiro, contista, cronista, crítico literário e romancista, autor do romance “A Bofetada” EDIURI, Santo Ângelo-RS, 2008. Mora em Roque Gonzalez, RS.
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