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quarta-feira, 9 de novembro de 2011

AS DOENÇAS PSÍQUICAS E A LITERATURA

                
Francisco Miguel de Moura*

Nós, escritores e artistas, gostamos de aparecer, senão em pessoa, pelo menos através de nossas obras. É que o instrumento de trabalho do artista, primeiramente, é ele mesmo, com seus pensamentos e seus atos. E, assim, precisam de atenção e aprovação, como disse o psiquiatra inglês Anthony Storr.  Daí não é difícil responder por que os artistas são excitados quando apresentam (ou escrevem) e têm, em seguida, fases de melancolia, cujo estado se prolonga para muito depois que terminam o seu trabalho.  Eis aí dois sintomas visíveis e significativos. É a bipolaridade – doença daquelas pessoas que se excitam bastante e depois se abatem, ficam tristes, melancólicos, em curto espaço de tempo, um ciclo que se repete: excitação x melancolia.  A bipolaridade (outrora chamada psicose maníaco-depressiva) está no grupo das neuroses.  O outro grupo é o das psicoses. Os especialistas encontram um meio técnico de explicar o que são neuroses e o que são psicoses. Neuroses são as alterações quantitativas dos fenômenos psíquicos. Psicoses são as alterações qualitativas dos fenômenos psíquicos.
São muitos os fenômenos psíquicos de um e do outro lado, misturando-se, de vez em quando, uns com os outros, visto que têm a mesma origem: a psique, a alma. Nome de alguns deles: estresse, ansiedade, depressão, doença do pânico, do sono, mania, hipomania, hipocondria, esquizofrenia, catatonia, epilepsia, etc. Para que não digam depois que estou “inventando”, e também porque não sou médico, sou leigo - um curioso - transcrevo da revista “Mente e Cérebro”, de março de 2008, precisamente do artigo “Escritores famosos e doença bipolar”, algumas indicações e frases que confirmam o que estamos proclamando.
“Doença mental e criatividade não são categorias mutuamente excludentes; ao contrário, frequentemente estão associadas. Afinal, criar significa escapar de padrões habituais, inovar, surpreender. Ora, essas características podem muito bem ser aplicadas à doença mental, a tal ponto que, para alguns artistas, são inseparáveis” - escreve o autor do artigo, o mesmo que se pergunta inicialmente se há um denominador comum entre criatividade e doença mental. Traduzindo: Para ser mais bem entendida: Para ser criador, inventor, bom artista, necessariamente se tem que ser neurótico, psicótico, esquizofrênico, psicopata ou ser portador de qualquer outro transtorno?
Aristóteles já perguntava, em suas elucubrações filosóficas: “Por que razão todos os que foram homens de exceção no que concerne à filosofia, à poesia ou às artes são manifestamente melancólicos?”.
A seguir, enumeramos alguns exemplos de escritores e artistas podem ajudar a esclarecer a coincidência:
Edvard Munch, o grande pintor norueguês, autor do famoso O Grito, era psicótico e admitia a doença. Mas temia tomar drogas, fazer qualquer tratamento, pois não queria perder seu potencial criativo.
Vicent Van Gogh, depois de uma discussão com Gauguin, cortou um pedaço de sua orelha esquerda, fez dois auto-retratos olhando-se ao espelho, depois embrulhou o troféu num lenço e levou para uma prostituta com quem mantinha relações, acompanhado de um bilhete que dizia: “Guarde com cuidado!” Ele sofria de depressão, tinha alucinações, tomava álcool e absinto. Alguns psiquiatras crêem que era também esquizofrênico. Suicidou-se deixando um recado: “la tristesse durera toujours” (a tristeza durará sempre).
“Uma coleção de obras de pintura de pacientes reunida por Nise da Silveira, mostra o processo de elaboração mental da esquizofrenia, com freqüência manifesto nas artes plásticas”, diz a revista citada. E acrescenta que referido processo “parece ser alheio ao da criação literária, já que esta implica uma dificuldade de interação com o mundo”.
De minha parte, não posso concordar inteiramente com a publicação, neste ponto. Basta ver, em nosso meio, o caso de O.G. Rego de Carvalho, portador de esquizofrenia, que não perdeu o contato com a realidade, salvo quando está na crise, e escreveu excelentes obras. Sabe-se que há muitos outros bons escritores daqui e de fora, assim como houve no passado, pacientes de esquizofrênicos. Há ainda os que são apenas psicóticos, portadores de distúrbios de menor intensidade.
Já a respeito da psicopatia, não consegui muito em minha pesquisa. É verdade que nem todos os psicopatas são violentos ou se tornam assassinos. Há os de nível mais fraco, que convivem mais ou menos bem na sociedade, há os de nível médio que nem sempre descambam para a violência e o crime, e destes e que acredito que saem muitos escritores, pintores, atores, políticos, religiosos, militares, etc. Porém há criminosos de vários graus que, para passar bem, tornam-se escritores – ser escritor ficou fácil, mas ainda tem o seu fascínio. E logo agora me lembrei de O. Henry, americano que cumpriu pena num presídio por ter roubado um banco, mas conseguiu libertar-se e tornar-se escritor com alguma fama. Ele foi referido por alguns biógrafos de ser um psicopata. Mas, aqui cabe bem a observação: Nem todo criminoso, nem todo assassino é psicopata. Mas entre nós vivem muitas dessas criaturas, que não são propriamente humanos por seu modo de proceder. E é quase impossível identificá-los, porque eles mentem muito e representam constantemente. Diz a escritora Ana Beatriz Barbosa Silva, perita no assunto, que “o psicopata não trabalha, vai à caça”. Mas, como saber quem é psicopata, no nosso mundo tão cheio de individualismo, interesse pelo dinheiro, sexo e poder?  No nosso tempo, sem os bloqueios moral, ético e religioso que a sociedade até então oferecia?
Voltando à vida dos neuróticos e psicóticos, sejam escritores ou artistas, relacionaremos alguns dos mais célebres:
Voltaire, o grande filósofo propagador do iluminismo francês, declarou: “Rio-me para não enlouquecer”.
Edna St. Vincent Milay (1892-1950), poetisa americana, implorava desesperadamente: “Read me, do not let me die” (“Leia-me, não me deixe morrer”).
Gustav Flaubert declarou, no processo que foi aberto contra ele, por ter representado a sociedade parisiense de modo desrespeitoso, sobre a personagem do seu romance: “Madame Bovary sou eu.” Citamos a frase celebre, sem nos importarmos com o contexto especial. Mais especial é o próprio autor – ele se imprime de modo bem profundo em tudo o que escreve. No caso, só o autor dizê-lo já implica em verdade. Sua personagem principal do romance é ele mesmo. E pronto.
Montaigne, o genial criador do ensaio à moda inglesa, declarou: “Faz muito que não tenho senão a mim como objeto de reflexão, que não examino nem estudo outra coisa que a minha própria pessoa.”.
Emile Zola, autor do famoso Germinal, vivia apavorado com a morte: – tinha todos os tipos de superstições, e via constantemente um morcego em seu redor. E era hipocondríaco.
Honoré de Balzac era um bipolar típico. Nas fases mais produtivas, o escritor jantava às 6 da tarde, dormia até a uma da manhã, levantava, trabalhava durante toda a madrugada, parando para tomar café, descansar e receber visitas. Escreveu a gigantesca obra que é a Comédia Humana. Nos períodos depressivos, contudo, pensava em suicídio.
Virginia Woolf, escritora inglesa, teve uma vida atormentada por surtos depressivos que pareciam não afetar sua criatividade, mas a levaram a entrar no rio Ouse com pedras nos bolsos de seu casacão para se afogar. Suicidou-se.
Ernest Hemingway, autor de O Velho e O Mar, viveu numerosas aventuras pelo mundo, escreveu obras de enorme sucesso, mas tinha de lutar sempre contra a depressão, que também o levou à morte.
Edgard Alan Poe, contista, crítico e poeta de O Corvo, um dos mais inspirados e conhecidos poemas da literatura ocidental, era alcoólatra, teve vida bastante irregular, tentou suicídio, foi encontrado na rua em estado de delírium tremens, em cujas condições morreu. Mas alguns biógrafos acham que ele sofria de uma doença cerebral desconhecida.  Ultima frase dele: Its all over now: write Eddy is no more!”(Está tudo acabado: escrevam, Eddy já não vive!).
E esses não foram os únicos. Entre os escritores diagnosticados – em geral depois de mortos – como bipolares estão Dostoiévski, Hans Christian Andersen, F. Scott Fitzgerald, Maiakóvski, Nicolai Gógol, Graham Greene, Henrik Ibsen, Joseph Conrad, Herman Melville, Mary Shelley e Robert L. Stevenson.
Demos uma relação de estrangeiros, que seria muito mais longa se tempo houvesse de pesquisa e de espaço, nessa ocasião. Agora vamos localizar alguns brasileiros e portugueses famosos:
Lima Barreto, romancista, autor do famoso Triste Fim de Policarpo Quaresma – alcoólatra, tendo lutado muito contra o álcool. Mas por causa disto foi internado várias vezes em hospital, vindo falecer.
Machado de Assis – epiléptico, gago, problemas de cegueira e depressão, os quais foram suavizados por sua força de vontade e também após o casamento pelos cuidados de sua esposa Carolina. “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria” - é a frase com que termina Memórias Póstumas de Brás Cubas, retratando o extremo pessimista que foi.
Augusto dos Anjos, o poeta pré-modernista, autor de Eu (posteriormente acrescentado de outras poesias, depois da morte), era triste e melancólico, a origem desse estado estaria num conflito edipiano de sua infância. Morreu de uma pneumonia e não tuberculoso como é proclamado em suas biografias. Um poeta que escreve - “Toma um fósforo, acende o teu cigarro / O beijo, amigo, é a véspera do escarro, / A mão que afaga é a mesma que apedreja. / Se alguém causa inda pena a tua chaga / Apedreja essa mão vil que te afaga, /Escarra nesta boca que te beija” - tem que ser uma alma cheia de amargura, torturada.
Euclides da Cunha – escritor mor da nossa brasilidade, um dos nossos maiores estilistas. Engenheiro, cientista, sociólogo, poeta e jornalista. Autor de Os Sertões, obra imortal, que o elevou a precursor do modernismo, além de outras obras de grande valia para a formação cultural do Brasil. Foi assassinado estupidamente. Temperamento nervoso e muito tímido, um caso excepcional na literatura do mundial, eu creio, em que o traído é morto pelo traidor. Euclides não poderia ser uma forte espécie sob o ponto de vista psíquico. Ele assumiu a síndrome do homem que é traído por sua esposa, a quem amava apaixonadamente. Um romântico. Um torturado.
Raul Pompéia, romancista e poeta, suicidou-se, deixando O Ateneu, obra grandiosa para a literatura brasileira, tratando da educação e da infância. Foi um torturado da forma e também, naturalmente, pelos problemas psicopatológicos que o assaltavam.
Torquato Neto – poeta e cronista, letrista de música e cineasta, em sua curta vida muito experimentou. Autor de Os Últimos Dias de Paupéria. Um torturado. Suicidou-se.  Certamente, como a maioria dos artistas de sua época, usou droga, mas isto só veio apressar o que já tinha dentro dele: algumas manifestações psicóticas que ainda não foram identificadas. 
O. G. Rego de Carvalho – o grande prosador, romancista, autor de Rio Subterrâneo. É, talvez, o maior estilista vivo da língua portuguesa. Está vivo entre nós. Esquizofrênico consciente de sua doença, toma remédio todos os dias, por isto deixou de escrever muito cedo.
Eça de Queiroz – formado em direito, exerceu as profissões de advogado, jornalista e diplomata. O Crime do Padre Amaro, talvez, seu romance mais conhecido, foi publicado em 1876. Depois, Os Maias, O Primo Basílio, entre tantos outros, tratando, com realismo a vida de Portugal, onde domina o crime e os desmandos do amor sensual, com pessimismo, ironia e humor. Nada se sabe da sua biografia que indique qualquer doença mental. Mas consta que era cheio de manias: por exemplo, escrevia sempre em pé.
Antero de Quental, o grande poeta-filósofo de Portugal...” – era um constante deprimido, morreu com dois tiros na boca: suicídio, logo que passou a morar em casa de sua irmã, Ana de Quental, também portadora de distúrbio bipolar,
Fernando Pessoa foi um poeta fabuloso, criador dos heterônimos. O único livro publicado em vida, além dos Poemas e Sonetos, em inglês, foi o livro Mensagem. O que seus poemas, ou a grande maioria, no levam a crer, entretanto, é que tinha uma personalidade em constante estado de depressão. Sua causa mortis foi associada à cirrose hepática porque ele bebia muito. Mas contesta-se: teria sido uma pancreatite a moléstia que o abatera. A última frase que disse: I know not what tomorrow wil bring (Não sei o que o amanhã trará),
Camilo Castelo Branco, jornalista e romancista de temperamento instável, irrequieto e irreverente, teve uma vida tumultuada por constantes amores e boêmia, metendo-se até em revoltas e revoluções armadas. Formou-se em direito. Suas cartas jornalísticas causavam mal estar aos poderosos, resultando em agressões. Memórias do Cárcere, 1862, quando esteve preso na Cadeira de Relação do Porto e Amor de Perdição, 1862, são as mais famosas, entre as 260 obras que escreveu. Ficara cego e sua cegueira, causada pela sífilis, o impedia de ler e escrever. Em um de junho de 1890, depois de ter sido informado da gravidade do seu estado, desfere um tiro na têmpera direita e morre.
Florbela Espanca – tentou suicídio duas vezes. Morreu por uma superdose de barbitúricos. Grande sonetista. Uma alma sensível e torturada.
Sentimos que a pergunta de Aristóteles, colocado no início, não foi ainda plenamente respondida. Mas aceitar que doença mental e talento são compatíveis já é um grande progresso. Vale, portanto, citar aqui o cientista da alma, Sigmund Freud, como que antecipando um recado aos críticos: É impossível interpretar a obra de arte sem, primeiro, interpretar o artista.
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Bibliografia:
Silva, Valmir Adamor da. Psicanálise da Criação Literária, Ed. Achiamé, Rio, 1984.
Silva, Ana Beatriz Barbosa. Mentes perigosas, Edições Objetiva, Rio, 2008.
Schopenhauer, Arthur. A Arte de Escrever, L&PM Pocket. Porto Alegre, RS, 2010.
Mente e Cérebro. Revista, in artigo Escritores Famosos e Doença Bipolar, mar/2008.
http://www.wikipedia,org – Enciclopédia virtual (Internet).
 

Anexos:

1. Noções Básicas:

Id = Fonte de energia psíquica (libido), é formado pelas pulsões, instinto, impulsos orgânicos e desejos inconscientes.  Não faz planos, não espera.

Superego = É inconsciente, faz a censura dos impulsos – que a sociedade e a cultura proíbem (é a crítica interna do Id).

Ego = Desenvolve-se a partir do Id, com o objetivo de permitir que seus impulsos sejam eficientes, levando em conta o mundo externo. É o princípio da realidade, introduz a razão e planeja o comportamento.

2. Sintomas da Psicopatia
- Mentiras constantes (às vezes o tempo todo);
- Insensiblidade e frieza emocional;
- Representam bem (riem, choram, teatralizam como se fosse verdade);
- Crueldade com os animais (quando criança);
- Condutas desafiadoras às figuras dos pais, autoridades, professores, idem;
- Impulsividade e irresponsabilidade;
- Baixíssima tolerância às frustrações, com acessos de irritabilidade e fúria, quando contrariados;
- Tendência culpar os outros por erros que ele mesmo cometeu;
- Preocupações excessivas com seus próprios interesses;
- Ausência de culpa ou remorso (não pedem perdão);
- Falta de preocupação com (ou pelos) sentimentos alheios;
- Falta de constrangimento ou vergonha quando pegos mentindo ou em flagrante;
- Dificuldade em manter amizades;
- Permanência fora de casa até tarde da noite, mesmo com proibição dos pais (quando crianças).   - Muitas vezes fogem de casa por muitos dias;
- Faltas constantes sem justificativa à escola – não são bons estudantes;
- Faltas constantes ao trabalho (quando em idade adulta);
- Violação constante às regras sociais (vandalismo, destruição da propriedade alheia ou danos ao patrimônio público);
- Participação em fraudes (falsificação de documentos), roubos ou assaltos;
- Sexualidade exacerbada, muitas vezes levando outros ao sexo forçado;
- Introdução precoce ao mundo das drogas;
- Nos casos mais graves, podem cometer homicídios.
(in Mentes Perigosas – o psicopata mora ao lado, Ana Beatriz Barbosa da Silva).


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*Palestra pronunciada pelo poeta e prosador Francisco Miguel de Moura, na ALERP / Picos, 21/10 /2001, no Seminário de Literatura que Picos realiza anualmente.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

PEBINHA – UM POETA, UMA FIGURA

PEBINHA – UM POETA, UMA FIGURA




Francisco Miguel de Moura*




Mundica
Fontes, artista plástica,filha de Pebinha

 Amanheci com um desejo louco de rever Picos, talvez tenha sonhado com seus morros e suas várzeas. A vontade de voltar a lugares onde a infância e a juventude nos marcaram a vida é natural, na velhice. Não nos damos conta, entretanto, depois de rever esses espaços, que eles estão lá, apenas nominalmente, porque o tempo já se foi, e tempo não volta, e com ele as ligações afetivas, os acontecimentos e boa parte dos nossos, parentes, amigos e colegas. A isto chamo de memória, recordação ou saudade, que, como reflexão passo, neste instante, a Mundica Fontes, escritora, historiadora, teatróloga, pintora, membro da Academia de Letras da Região de Picos (ALERP) – nesta forma suave que encontro para apresentar-lhe meus sentidos pêsames, extensivos à família toda, pela morte de seu querido pai, poeta Pebinha (Antônio de Moura Ibiapina), em Picos, na manhã de 10 de setembro de 2010. Pebinha nasceu a 8-2-1926, em Lagoa Grande, município de Picos. Era o caçula do casal Pedro de Moura Ibiapina e Raimunda Fontes de Moura, de cuja união nasceram quatro filhos, dentre os quais o consagrado escritor piauiense Fontes Ibiapina. (Nonon). Nas famílias Fontes x Moura x Ibiapina, muito interligadas, há outros artistas e intelectuais nobres, inteligentes e pessoas boníssimas.  Para o efeito desta crônica do tempo e da saudade, lembro o senhor João Fontes, um deles. Não sei que parentesco tinha com Fontes Ibiapina e com Pebinha, mas sei que é bem próximo. João Fontes me apareceu em Francisco Santos (Jenipapeiro) e hospedou-se na pensão de “De Moça”, da qual eu era também hóspede, lá pelo comecinho do ano 1950. E, à noitinha, na tertúlia de depois do jantar, ele começou a recitar vários poemas de Hermínio Castelo Branco (“Lira Sertaneja”). Aquilo, para mim, foi uma maravilha, admirei-lhe a memória, o gosto pela poesia. Meu pai me dissera depois que os Fontes eram nossos parentes. Ia eu pelos 17 anos e já começava a escrever poesia. Logo mais publicaria, em Picos, meu primeiro poema e depois, já em Teresina, o livro “Areias” (estreia) com prefácio de Nonon. Àquela altura, Nonon já havia publicado 3 ou 4 obras e era membro da Academia Piauiense de Letras.

Mas esta já é outra história. Voltemos a Picos dos anos 1951/1952, quando me mudei de Jenipapeiro pra cidade e me tornei amante dessa cidade maravilhosa, por meus laços de família, pelo trabalho e pela inteligência dos seus habitantes. Morava na casa de seu Abraão Conrado. Período colegial. Todos os dias, indo para o colégio ou para trabalho (cartório, depois delegacia de Polícia), eu passava em frente da oficina de Pebrinha e não podia deixar de ouvir seus versos, anedotas, piadas, histórias, que ele sabia de cor, numa conversa agradável, bem humorada, de temas variados, pois estava sempre de bem com a vida. Era uma figura – Pebinha! Trabalhador, amigo, exemplar pai de família, grande memória, recitador, poeta (também improvisava as suas poesias, pois era um poeta popular). Ser poeta! Deve ter deixado algo escrito em seus cadernos de anotação. Mas não necessitamos escrever cem livros. Há os poetas que escrevem e os que são poetas na vida. Pebinha é um exemplo destes.

Hoje, lembrando disto, tenho saudades daquele tempo – e por isto, vejo como a morte de alguém com quem convivemos causa tristeza, uma falta impreenchível. É o caso da de Pebinha, que faz muita falta à vida e à gente de Picos. Picos ficou menos alegre, Picos perdeu um dos seus poetas populares mais versáteis, melhores em termo de ética, moral, ciência do povo e humanismo cristão. Pebinha permanecerá na memória e no coração dos familiares e dos picoenses de modo geral como uma figura humanamente histórica e sábia, de um saber que não existe mais.
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*Francisco Miguel de Moura, escritor, membro da Academia Piauiense de Letras (APL) e
da Academia de Letras da Região de Picos (ALERP), email:franciscomigueldemoura@superig.com.br


sexta-feira, 12 de março de 2010

“CLIP” – ANOS 60 - LITERATURA DO PIAUI





Palestra sobre os Anos 60 - Piauí





Francisco Miguel de Moura**




Reunidos aqui, em torno da Literatura Piauiense, onde se encontram participando três dos principais membros do Círculo Literário Piauiense (CLIP) – Francisco Miguel de Moura (este que lhes fala), Hardi Filho e Herculano Moraes, – poetas e prosadores que se destacam no cenário literário do Estado e já com divulgação e crítica em vários Estados e no Centro-Sul do país, é o momento de colocar-se os pontos nos ii. Primeiramente com relação à existência e independência do CLIP.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

PICOS - ACADEMIA DE LETRAS - DISCURSO DE ERISMÁ MOURA



APRESENTA FRANCISCO MIGUEL
DE MOURA


JOÃO ERISMÁ MOURA*

Este momento tão solene e ao mesmo tempo festivo se reveste de muita alegria, gratidão, emoção e reconhecimento, tendo como objetivo a posse de Francisco Miguel de Moura, um dos mais novos acadêmicos eleitos para a Academia de Letras da Região de Picos - ALERP.

Minha missão neste instante é a difícil tarefa de saudar o poeta, escritor, professor, crítico literário e bancário aposentado do Banco do Brasil, Francisco Miguel de Moura eleito democraticamente para ocupar a Cadeira n. 29, nesta Instituição literária, que tem como Patrono desta cadeira o Professor Miguel Borges de Moura.

O destino traçou, Deus assim quis e meu pedido foi deferido, com a decisiva participação do acadêmico Francisco das Chagas de Sousa, presidente da ALERP e apoio dos colegas acadêmicos, para que fosse homenageado neste Sodalício, como Patrono da Cadeira n. 29, a figura de um dos maiores professores da região picoense, Miguel Borges de Moura, o Mestre e Violeiro Miguel Guarani, pai do renomado e novel confrade Francisco Miguel de Moura.

Quem sou eu para julgar os homenageados neste momento. No entanto, arrisco com certa convicção, que o discípulo ultrapassou o mestre. É verdade que as oportunidades experimentadas pelo pai e pelo filho foram distintas. Para eles o tempo e as circunstâncias foram completamente diferentes. O primeiro, com certeza enfrentou mais dificuldades que seu primogênito. Não apenas isso: fez de suas veredas caminho para que o filho pudesse trilhá-lo e por ele chegar a um melhor destino.

O professor Miguel Borges de Moura, meu tio, segundo filho do meu avô paterno e padrinho, Feliciano Borges de Moura e Rosa Maria da Conceição, nascido no local denominado Diogo, interior da cidade de Francisco Santos, antigo povoado Jenipapeiro, no dia 18 de maio de 1910, faleceu muito jovem, aos 61 anos de idade, a 07 de agosto de 1971, em Santo Antônio de Lisboa.

Ainda criança, Mestre Miguel recebeu as primeiras lições do nosso avô, Feliciano, o popular Sinhô do Diogo, com o objetivo de disseminar tais conhecimentos aos seus irmãos mais novos. E assim o fez com maestria. Foi, por pouco tempo, aluno do meu outro avô materno Cícero Clímaco da Silva. Com o tempo adquiriu mais experiência e saber, mesmo tendo enfrentado as dificuldades da época e do local onde residia, além da carência de bons livros didáticos. Viveu como um andarilho, ensinando a todos àqueles que necessitavam do estudo e informações. Brilhantemente, soube transferir esses conhecimentos aos seus inúmeros discípulos espalhados por toda a redondeza do Rio Guaribas e seus afluentes. Assim, foi no campo educacional que se destacou e desempenhou, por décadas, o ofício do magistério, como professor particular em diversas cidades e lugarejos da microrregião de Picos, recebendo um salário que mal dava para sobreviver. Chegou a trabalhar como professor contratado pelo Estado por alguns anos, não obtendo a necessária e merecida aposentadoria por entraves burocráticos e políticos. Uma injustiça jamais corrigida.

No meio artístico recebeu o nome de Miguel Guarani, vindo a produzir importante obra na literatura de cordel, tendo sido violeiro afamado em toda a região. Esta segunda profissão parecia ser o seu lenitivo para esquecer um pouco as agruras que enfrentou. Não rendia dividendos, só prazer e alguma fama. É verdade que o artista necessita muito disso.

Sua vida foi um rosário de obstáculos e sofrimentos. Viveu numa época em que o professor ainda era menos valorizado do que hoje. Tinha uma saúde bastante frágil. Ficou viúvo e no final da vida morava sozinho. Criou a família com dificuldades mais deu a todos os filhos a herança maior que um pai pode transmitir: o saber.

A imagem derradeira que guardo do meu tio é aquela de um homem um pouco amargurado, solitário, esquecido e conformado com o sofrimento e as dificuldades encontradas no decorrer de sua vida. Apesar disso, sempre foi admirado por todos pela sua capacidade e inteligência.

Depois de sua morte, como acontece com a maioria dos brasileiros ilustres, fora reconhecido por alguns pelo cabedal de conhecimento transmitido aos seus alunos, muitos deles hoje doutores e figuras importantes nascidas em nossa cidade e municípios circunvizinhos. Infelizmente não fui alfabetizado por ele, não tive este privilégio de ter sido seu aluno, pois muito cedo fui residir na Capital Federal. Entretanto, aprendi a admirá-lo e reconhecer os seus notáveis atributos humanos.

Assim, ao ultrapassar tantos obstáculos, jamais perdeu a ternura, a educação, a calma e a paciência. Dentre as suas marcantes virtudes destacamos, principalmente, a honestidade, ser humilde, verdadeiro e amigo, além da competência e dedicação à educação de base e à formação intelectual de seus alunos. As pessoas que lhe conheceram consideravam-no um verdadeiro educador. Não aquele que só pensa em ter uma ocupação, um emprego. Foi um mestre na expressão máxima da palavra, um homem dedicado ao próximo, preocupado em ensinar tudo aquilo que sabia aos mais necessitados, sem pensar em obter um lucro fácil ou prestígio junto a algum político ou pessoas de posse da região. Se pudesse tinha alfabetizado toda a população local da época.

Na literatura espanhola, destacou-se outro Miguel; este de Cervantes, autor de uma das principais obras da literatura mundial. Seu clássico “Dom Quixote de la Mancha”, escrito há pouco mais de 400 anos, narra a fábula de um Cavaleiro Andante que encontrara muitas barreiras em seu caminho, mas que não desanimara diante da luta da inteligência contra a estupidez, da luz contra a escuridão. Princípios básicos da vocação, altruísmo e vontade de quem quer ensinar o próximo.

Nosso humilde Mestre Miguel Guarani foi assim até seus últimos dias de vida. Cavaleiro Andante que enfrentou poderosos moinhos de vento sem jamais desanimar frente a esses obstáculos que a vida nos oferece. Boa parte da população de Francisco Santos, Santo Antônio de Lisboa, Monsenhor Hipólito, Alagoinha, São Julião, Bocaina, Itainópolis, Aroeiras do Itaim e outros locais, tais como: Angico Branco, Carnaíbas, Diogo e Curral Novo, num gesto de gratidão e reconhecimento, embora tardio, deveria agradecer sempre a este homem o aprendizado que do mesmo foi recebido.

Na verdade, viveu até falecer enfrentando a pobreza e outras carências materiais. Seus parcos ganhos como professor davam mal para o sustento de sua família. Quando mais precisou foi desamparado pelos Poderes Públicos. Mesmo assim nunca perdeu a sua dignidade e coragem para o trabalho. Jamais abandonara a luta e dedicação ao magistério. Nos últimos anos de vida, com problemas de saúde e já cansado, viveu num mundo de ostracismo, solidão e visível desamparo.

Em meu discurso proferido na década passada, mais precisamente no dia 27 de dezembro de 1999, por ocasião da inauguração da Praça em homenagem póstuma ao meu avô Francisco Rodrigues de Sales, o nosso Chodó, sugeria aos mandatários de Francisco Santos a criação de um Teatro com o nome de Miguel Guarani. Mais uma vez renovo a sugestão a quem de direito. Quem sabe uma escola, uma rua, uma praça, uma biblioteca, enfim. A nossa Academia já fez a sua parte em destinar-lhe uma cadeira como patrono. Agradeço à ALERP por este significativo gesto.

Feliz daquele pai que deixa a herança do saber aos seus herdeiros. Vem-me à lembrança o legado que o maior poeta piauiense Da Costa e Silva (Amarante-PI – 1885 e Rio de Janeiro-RJ -1950) repassou ao seu filho, diplomata e intelectual Alberto da Costa e Silva, membro da Academia Brasileira de Letras, seu ex-presidente no período de 2002/2004.

Até aqui falamos do passado, vamos virar uma página da história sem, no entanto, esquecê-la.

II


Tive a satisfação de tomar posse na Cadeira n. 13 desta Academia de Letras da Região de Picos, cujo patrono é Francisco Lopes dos Santos e seu último ocupante fora o escritor, poeta, cantor e artista Francisco de Moura Barbosa, em memorável noite de 27 de agosto de 2005. Até o momento só tive satisfação pessoal e acolhimento por parte dos meus confrades. É uma nova família, uma grande escola de intelectuais e artistas. Uns mais distantes por motivos relacionados aos seus afazeres, outros mais próximos, companheiros de todas as horas.

A Academia de Letras da Região de Picos – ALERP foi fundada em 22 de outubro de 1989, tendo como instituidores um grupo de intelectuais e admiradores das letras, artes e cultura, residentes em Picos. Tivera como ícones os escritores “teresinenses” Francisco Miguel de Moura e Hardi Filho, num evento que teve como organizadora a professora Rosa de Lima Araújo Lima, eleita sua primeira presidenta, contando ainda com a colaboração de outros mentores da literatura, vários deles eleitos para ocuparem vagas na futura Agremiação, como o nosso atual presidente Francisco das Chagas Sousa, Chaguinha e outros aqui presentes.

Durante essas duas décadas a ALERP passou por dificuldades de toda ordem. Privou-se de uma sede própria por muito tempo, careceu de ajudas financeiras e apoio das iniciativas públicas e privadas, enfim, resistiu ao tempo somente pela dedicação e trabalho de alguns de seus abnegados membros, dos quais, de público, quero parabenizá-los neste momento.

É óbvio que, hoje, a situação é outra. Temos nossa sede, munida de um razoável auditório, recebemos da instituição total apoio quando da produção de trabalhos literários. Por intermédio da ALERP são realizados Seminários, Encontros e Ciclos literários. Em seu prédio tão bem localizado está funcionando uma biblioteca que dispõe de centenas de livros colocados à disposição do público, estudantes ou pesquisadores. Por fim, é notória a divulgação e amadurecimento da arte, cultura e produção literária picoense, que tem amparo da Academia em várias manifestações artísticas e culturais. Devemos reconhecer que a ALERP hoje é uma instituição respeitada e que presta relevantes serviços de utilidade pública e cultural para a comunidade.

III

Ler a biografia de alguém deixa de ser interessante quando repetitiva ou o biografado é por deveras conhecido. Obviamente, agora ocorrerá o segundo caso. Sendo assim, peço minhas escusas pela omissão dos principais dados do vasto e rico curriculum vitae do homenageado nesta noite, fazendo apenas uma síntese da sua vida literária, em consideração aos presentes, mesmo porque certamente o mesmo fará sua breve apresentação. Falar do acadêmico Chico Miguel é reconhecê-lo, sem nenhum favor, como o maior escritor piauiense em atividade. É poeta, contista, romancista, cronista e intelectual dedicado à cultura e à literatura mundial. Acompanho, há muito tempo, a trajetória percorrida pelo escritor, desenvolvida em diversas vertentes da literatura. É um homem das letras. Na verdade, vive e se alimenta das letras. É a sua seiva física e mental. As palavras correm por suas artérias. A maior parte da sua vida dedicou e ainda dedica às atividades de ler e escrever.

Francisco Miguel de Moura nasceu em Francisco Santos, antigo povoado Jenipapeiro, sendo filho de Miguel Borges de Moura e Josefa Maria de Sousa, nascido aos 16 de junho de 1933. Fez seus estudos primários com seu pai, Mestre Miguel Guarani, antigo ensino ginasial e técnico em contabilidade nesta cidade de Picos - Piauí. Casado com D. Maria Mécia Morais Araújo Moura, tem os seguintes filhos: Franklin, Laudemiro, Francisco Jr., Fritz e Mécia. É formado em Letras pela Universidade Federal do Piauí e pós-graduado pela Universidade Federal da Bahia. No início da sua vida exerceu diversas atividades profissionais, sendo aposentado do Banco do Brasil, instituição mantenedora das suas necessidades financeiras básicas. No Brasil, infelizmente o escritor não vive dos lucros de suas obras. Noutras vertentes foi radialista, professor de língua portuguesa e literaturas brasileira e portuguesa. Atualmente se dedica exclusivamente a ler, escrever e cuidar dos filhos e netos, em Teresina, cidade que a elegeu como o seu paraíso terreno, no dizer de Manuel Bandeira, a sua Pasárgada querida. Sempre foi cultor da leitura. Desde menino já gostava de ler e de escrever, rabiscando seus primeiros versos, assinados em papel de embrulhar mercadorias. Seu primeiro livro de poemas, "Areias," foi editado tardiamente, em 1966, para quem produziu tantas obras depois. Daí para frente sua produção literária não parou, chegando atualmente a casa de mais de 30 (trinta) obras publicadas. Seus livros já foram traduzidos e editados em várias línguas e muitos são objeto de estudos acadêmicos.

Apesar de primo carnal, nossos pais são irmãos, quis o destino que nos conhecêssemos pessoalmente somente em 29 de dezembro de 1978, em Teresina, ocasião em que recebi de presente o livro "Pedra em Sobressalto". Nessa época, de passagem pela capital piauiense, quebramos as amarras de um distanciamento que não haveria nenhum motivo para acontecer, passando, a partir daí, a conservar uma amizade, cada vez crescente e sólida.

Chico Miguel desenvolve um projeto literário em Teresina de tamanha magnitude que a Academia Piauiense de Letras o tem como o maior operário das letras no Estado do Piauí. Sua produção é muita extensa e diversificada. São escritos livros, crônicas, poesias e artigos literários de toda natureza. Ele não tem hora para escrever. Pode ser até mesmo na madrugada. Sua mais recente obra chama-se "Fortuna Crítica de Francisco Miguel de Moura", resumo de artigos, resenhas, citações e cartas escritas por grandes escritores e críticos literários brasileiros, relativos à sua respeitável obra.

Dias atrás publicou em seu blog um interessante artigo em homenagem ao centenário de falecimento do escritor Euclides da Cunha (Cantagalo-RJ 20.01.1866 – Rio de Janeiro 15.08.1909), autor do épico "Os Sertões". Curiosamente, neste mesmo ano faleceram os ilustres Afonso Pena, ex-presidente da República e Cesare Lombroso, velho conhecido da área jurídica, considerado o maior antropólogo criminal de todos os tempos. Em compensação, nasceram em 1909, há um século atrás, Dom Hélder Câmara, Roberto Burle Marx. Ataulfo Alves, Carmem Miranda e o nosso saudoso Patativa do Assaré. No próximo ano o mundo literário certamente homenageará o centenário de nascimento da nossa imortal Rachel de Queiroz; e nós, aqui na ALERP, comemoraremos os cem anos de nascimento do Mestre Miguel Borges de Moura, patrono da Cadeira n. 29.

Estimado primo e insigne confrade, a partir de agora nossa Academia se sente honrada com o seu ingresso e constante presença neste Sodalício, contando com a sua importante contribuição para a cultura brasileira, fato que só vem engrandecer nossos quadros e elevar cada vez mais o nome da ALERP no cenário nacional. Seja bem vindo e que Deus lhe reserve ainda muitos anos de vida, e que este tempo não seja como diz sua obra de poemas, em co-autoria com Hardi Filho, intitulada “Tempo contra tempo”, para nos oferecer um profícuo e produtivo convívio nesta Casa de Cultura.

Por fim, quero dedicar a todos os presentes lendo uma das obras primas do homenageado, transcrita nos belos versos do poema intitulado: "Não me negues..." – Soneto:

Ai, não me negues teu olhar, senhora,
Não me negues ouvir-te, sei que falas,
Não me negues teu rosto quando calas,
Não me negues o dia, o tempo e a hora.

Não me escondas o vulto que conduzes
Tão bem de frente, de perfil, de costas.
Teu seio arfante, em busca do que gostas,
Faz-me lembrar mamãe, me acende luzes.

Não me negues!... Qualquer gesto me importa.
Sinto o sabor pular da tua língua...
Não me mostres teus lábios como porta,
Dispenso o beijo de que vivo à mingua.

Mas não me negues, flor, teu santo riso
Que abre à minha alma eterno paraíso.

Para finalizar, como membro da família Moura, quero agradecer a presença de todos que abrilhantaram com as suas presenças esta solenidade, em especial a família do homenageado na pessoa de minha amiga Mécia, filhos, noras e netos.

Picos – PI, 04 de setembro de 2009.
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*JOÃO ERISMÁ DE MOURA, funcionário público aposentado (Tribunal de Contas da União), escritor, membro da Academia de Letras da Região de Picos, mora em Brasília-DF

quinta-feira, 29 de maio de 2008


POR QUE PETRÔNIO NÃO GANHOU O CÉU

Ozildo Batista de Barros*

Se este artigo demora um pouco mais, não seria o 18º mas 19º ou o 20º livro de Chico Miguel. Aliás, em outra oportunidade já falei da intensa produção literária de Francisco Miguel de Moura, este picoense de quatro costados, nascido a 16 de junho de 1933, no povoado Genipapeiro (hoje município de Francisco Santos), onde estudou o primário com seus pais. O seu pai, Miguel Guarani, como se sabe, foi um Mestre-Escola, que naquelas épocas era quem distribuía o saber em Picos e arredores. Esta instituição, o Mestre-Escola, por si só, merece artigos e mais artigos. Já o Mestre-Escola Miguel Guarani, de seu turno, foi objeto de crônicas do filho escritor. Mas só isto não basta. A história da educação do povo sertanejo precisa ser melhormente contada. E nesta ocasião há de se dar o devido reconhecimento a professores como o pai de Chico Miguel. Este, como eu ia dizendo, fez o primário antigo na escola doméstica e apenas com 21 anos retomou os estudos, já agora na cidade de Picos, no Ginásio Estadual Picoense, depois na Escola Técnica de Comércio de Picos, e, finalmente, em Teresina, na Faculdade Católica de Filosofia do Piauí. Fez curso de pós-graduação em “Crítica de Arte” pela Universidade Federal da Bahia, em Salvador. Quando cursou a Faculdade já era funcionário do Banco do Brasil e havia servido em Picos, no interior da Bahia e no Rio de Janeiro, nesta última cidade por mais ou menos um ano. Aposentou-se por tempo de serviço, como bancário, em Teresina e, ali, lecionou língua e literatura e escreveu a maior parte dos seus livros, tendo recebido prêmios importantes em poesia, conto, crônica, romance e crítica. Não é jornalista mas colabora com artigos nos jornais da terra, semanalmente. Participou de diversas antologias de poemas, do Ceará ao Rio Grande do Sul, e também em Portugal, Espanha e Estados Unidos. Até então é mais conhecido como poeta e crítico literário, tendo sido incluído no livro “A Crítica Literária no Brasil”, de Wilson Martins, e em “A Literatura no Brasil”, organizada por Afrânio Coutinho, e em vários dicionários e enciclopédias de literatura. Membro da UBE, da Academia Piauiense de Letras e, por três mandatos, eleito para o Conselho Estadual de Cultura. Dirigiu a revista “Cadernos de Teresina” por algum tempo e editou a revista “Cirandinha” – ambas de feição literária.

Falando das obras, apenas por enumerar: – Areias, poemas, Ed. Correio de Timon, Maranhão, 1966; – Linguagem e Comunicação em O. G. Rego de Carvalho, ensaios, Ed. Artenova, Rio, 1972; 2ª edição, Editora da Universidade Federal do Piauí, 1997; – Pedra em Sobressalto, poemas, Ed. Pongetti, Rio, 1974; – Universo das Águas, poemas, Ed. Cirandinha, Teresina, 1979; – A Poesia Social de Castro Alves, ensaio, Ed. do Escritor, São Paulo, 1979; – Piauí: Terra, História e Literatura, estudo e antologia, Ed. do Escritor, São Paulo, 1980; – Bar Carnaúba, poemas, Ed. Univ. Federal do Piauí, Teresina, 1983; – Os Estigmas, romance, Ed. do Escritor, São Paulo, 1984; – Quinteto em mi(m), poemas, Ed. do Escritor, São Paulo, 1986; – Eu e Meu Amigo Charles Brown, contos, Projeto Petrônio Portela, Teresina, 1986; – Sonetos da Paixão, poema, Ed. Cirandinha, Teresina, 1988; – Laços de Poder, romance, Projeto Petrônio Portela, Teresina, 1991; – Poemas Ou/tonais, poemas, Gráfica e Editora Júnior, Teresina, 1991; – Ternura, romance, Ed. Universidade Federal do Piauí, Teresina, 1993; – Poemas Traduzidos, poemas, Gráfica e Editora Júnior, Teresina, 1993; – E a Vida se Fez Crônica, ficções, Gráfica e Editora Júnior, Teresina, 1996; – Poesia in Completa, poemas, Fundação Cultural Mons. Chaves, Teresina, 1997.

“Por que Petrônio não Ganhou o Céu”, contos, Edições Cirandinha, Teresina, 1999. Este é o 18º livro de Francisco Miguel de Moura. Mas não é o último. Já está no prelo Literatura do Piauí, história e crítica, Edição da A. P. L., Teresina, que será lançado ainda no decorrer deste ano. E por aí já vem o romance XICOTE. É o que tenho dito: – Francisco Miguel de Moura é um escritor em franca atividade; um patrimônio vivo da cultura nacional, com atuação eminentemente piauiense. E, para gaudium dos que amam a terrinha, ainda por cima é picoense. Que bom para a nossa auto estima!

“Por que Petrônio não Ganhou o Céu” , 144 páginas, contém 18 contos. Coincidência apenas? Disse-me o autor que sim, aliás, nem havia atentado para a simbologia do número: dezoito livros, dezoito contos. Cada livro uma história contada, um conto. Dezoito também é a maioridade. Há os que querem com apenas dezesseis. Desligado destas particularidades, Chico vai escrevendo e publicando. E trabalhando diuturnamente. Agindo sempre em prol da cultura. Agora mesmo está de malas arrumadas para viajar a Cuba, integrando grupo de escritores da América Latina, de cuja excursão resultará a publicação de uma antologia em espanhol e português.

Diz Massaud Moisés que “a Literatura, caminhando antes da vida, lhe vai insinuando os rumos que pode trilhar. Deste modo, o homem se aperfeiçoa com as experiências ficcionais antecipadoras ou reveladoras de dimensões e situações para além de seu mundo comum.” Desse modo, quem pratica literatura, mesmo como simples leitor, se aperfeiçoa com a assimilação de experiências ficcionais antecipadoras ou reveladoras de dimensões e situações para além de seu mundo comum. A Literatura Piauiense, e particularmente a obra de Francisco Miguel de Moura, é um exemplo do que afirmou Massaud Moisés: antecipou e revelou, através de experiências ficcionais, a crise de Estado que o Piauí está vivendo. Assim, ler não é apenas viver. É, literalmente, nos dias de hoje, uma questão de vida ou morte.

A obra de Francisco Miguel de Moura é uma revolução cultural.

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*Ozildo Batista de Barros, advogado, professor, poeta e cronista brasileiro, nasceu em Picos – PI, onde hoje mora, porém já exerceu a política, tendo sido vereador em sua cidade. Autor de vários livros entre os quais dois de poesias.

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