Mestranda de Literatura e Práticas Culturais
Universidade Federal da Grande Durados (MS)
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“A única razão para a existência de um romance é a de que ele tente de fato representar a vida.”
Henry James
Se você diz que o romance está morto, não é o romance, é você que está morto", assim escreve Gabriel Garcia Márquez, o grande romancista de "Cem anos de solidão".
O romance não é significativo porque descreve um destino alheio, mas porque esse destino pode representar uma metáfora do nosso próprio destino, ele é um dos constituintes essenciais da apreensão da realidade. A relação do romance com a realidade que nos cerca não se reduz ao fato de aquilo que ele descreve se apresenta como um fragmento ilusório dessa realidade, fragmento bem isolado, delimitado espacial e temporalmente, bem manejável, que se pode, portanto, estudar de perto. A diferença entre os acontecimentos do romance e os da vida não consiste somente no fato de que possamos verificar os últimos, enquanto os primeiros só podem ser atingidos através do texto que os suscita. Eles são também mais envolventes e instigantes do que os reais, devido ao trabalho estético aplicado sobre a referência que o produziu. A emergência e a sobrevivência dessas ficções corresponde a uma necessidade, desempenha uma função que vai além do prazer e de uma possível fuga da realidade. As personagens dos romances preenchem vazios da realidade e esclarecem-nos a seu respeito.
No romance o homem vê e se vê, o que seduz o leitor de um romance é a perspectiva de distanciar-se para encontrar-se. Henry James traz uma excelente definição que servirá como suporte basilar para a discussão neste trabalho. Segundo ele, um romance, em sua definição mais ampla, é uma impressão direta e pessoal da vida a partir da vida, ou seja, da ótica do escritor, isso, constitui seu valor, que é maior ou menor de acordo com essa impressão. Mas não haverá intensidade alguma, e, portanto, valor algum, se não houver liberdade para sentir e dizer. A execução pertence apenas ao autor; é o que há de mais pessoal no romance, a partir da execução, as impressões são potencializadas e multiplicam-se indefinidamente, através do tempo e das sucessivas leituras de “um mesmo” e de “muitos leitores”. A vantagem do artista, o que James chama de luxo, assim como seu tormento e sua responsabilidade, “é a de que não há limites para o que ele quiser tentar como executante - não há limites para seus possíveis experimentos, esforços, descobertas, conquistas.” (James, 1995, p. 26-27). É preciso evidenciar que não só a criação, mas também a leitura de um romance é uma espécie de “sonho acordado” no qual o leitor se liberta das amarras da realidade e vai de encontro à outra dimensão, mesmo que seja uma dimensão diretamente relacionada ao real.
Como gênero da literatura , o romance, é, para alguns, herança da tragédia, para outros, da epopeia, sendo, pois, tipicamente um gênero do modo narrativo Costuma-se dizer que no romance há um paralelo de várias ações acontecendo simultaneamente, o que nos permite associá-lo à vida em si, os destinos são traçados por atos praticados e por atos sofridos, de alguns há consciência, de outros um eterno desconhecimento. No romance, uma personagem pode surgir em meio à história e desaparecer depois de cumprir sua função, na vida acontece o mesmo em relação às amizades, aos colegas de trabalho, à família. No romance o final é um enfraquecimento de uma combinação e a ligação de elementos heterogêneos, não o clímax, o que dizer do final da vida: uma síntese, onde o heterogêneo se combina e resulta no nada. Inúmeras são as semelhanças entre as características da vida e do romance, talvez, e por isso mesmo, ninguém consiga viver sem romance: sem romance vivido e sem romance escrito. Há de notar que o romance tornou-se o gênero preferencial a partir do Romantismo , por isso ficando o termo romance associado a este período.
O romance é a epopeia burguesa moderna, segundo Hegel . Chega à modernidade com Balzac e à plenitude com Proust , Joyce, Faulkner . A partir destes últimos a ordem cronológica é desfeita: passado, presente e futuro são fundidos. Benjamin trata da contribuição valorosa de Lukács, dizendo que para este o romance “é a forma do desenraizamento transcendental” (Lukács, apud Benjamin, 2008, p. 212), o que significaria a desestruturação dos elementos temporais encarregados da linearidade do romance até então. Ao mesmo tempo, segundo Lukács, é a única forma literária que inclui o tempo como um de seus principais elementos constitutivos, mesmo que este se apresente desconexo e fragmentado. Benjamin cita Lukács a esse respeito: - O tempo, diz a “Teoria do romance”, só poder ser constitutivo quando acessa a ligação com a pátria transcendental... Somente o romance... separa o sentido e a vida, e, portanto, o essencial e o temporal; podemos quase dizer que toda a ação interna do romance não é senão a luta contra o poder do tempo... Desse combate,... emergem as experiências temporais autenticamente épicas: a esperança e a reminiscência... Somente no romance... ocorre uma reminiscência criadora, que atinge seu objeto e o transforma... O sujeito só pode ultrapassar o dualismo da interioridade e da exterioridade quando percebe a unidade de toda a sua vida... na corrente vital do passado, resumida na reminiscência... A visão capaz de perceber essa unidade é a apreensão divinatória e intuitiva do sentido da vida e, portanto, inexprimível. (Lukács apud Benjamin, 2008, p. 212)
A partir de meados do século XX intensifica-se a discussão em torno de uma provável crise do romance e sua possível morte. Essa morte teria ocorrido por volta da metade do século XX. Na França, Alain Robbe-Grillet , Claude Simon , Robert Pinget , Nathalie Sarraute , Marguerite Duras e Michel Butor , entre outros, rejeitam o conceito de romance, cuja função é contar uma história e delinear personagens conforme as convenções realistas do século XIX ; transgridem também outros valores do romance tradicional: tempo, espaço, ação, além de repudiarem a noção de verossimilhança, etc. Sartre afirmou que, ao destruírem o modelo canônico de romance, esses escritores, na verdade, renovaram-no. Desde 1880 falava-se em crise do romance, naquele ano foi realizada na França uma pesquisa sobre o tema e muitos disseram acreditar que o romance havia morrido. Numa entrevista recente, Gabriel Garcia-Márquez reitera sua crença no gênero: "se você diz que o romance está morto, não é o romance, é você que está morto". Todorov nos diz que: “A narrativa é igual à vida; a ausência de narrativa, à morte. [...] O homem é apenas uma narrativa; desde que a narrativa não seja mais necessária, ele pode morrer.” (Todorov, 2006, p. 54)
Parece ser nítido que a palavra “romance” sofreu um desgaste através do tempo a ponto de se criarem preconceitos em torno dela. Há pessoas, por exemplo, que acreditam que o fato de não lerem romances é um sintoma de intelectualidade. Na maioria das vezes, entretanto, quando se diz “eu não leio romance” está-se querendo dizer “eu não leio prosa de ficção” e, assim o preconceito se espalha para a literatura em geral.
