quinta-feira, 27 de maio de 2010

POEMAS OU/TONAIS - POESIA MAIOR




chico miguel - 1991

Por Cunha e Silva Filho*

A criação literária, a produção ficcional e poética são fenômenos culturais nascidos na solidão, para os quais não há fronteiras. As restrições são apenas de natureza biológica, pois os autores envelhecem e morrem. A criação é, pois, um ato absolutamente solitário. A solidão artística nutre-se do intemporal, sua liberdade é maior, sua dimensão transcendental, infinita.

Foi pensando assim que me decidi a comentar esse livro de Francisco Miguel de Moura sob o título Poemas Ou/tonais (Gráfica e Editora Júnior Ltda., Teresina, 1991), uma coletânea de poemas selecionados pelo autor, com a colaboração de seus amigos, também poetas, Hardi Filho, Elmar Carvalho e Rubervam du Nascimento. A obra reuniu poemas do autor escolhidos a partir de 400 poemas escritos nos anos 80. Todos os poemas vêm sem título, excetuados os 9 traduzidos, respectivamente, para o espanhol (1 poema), o francês (4 poemas), o italiano (2 poemas) e o inglês (2 poemas).


Esta análise que aqui empreendo não tem a pretensão de aprofundar a compreensão global da obra poética de Miguel de Moura, mas não poderia deixar de me reportar a um erro de perspectiva crítica que vê a poesia desse poeta como a de um poeta de fácil comunicação. É provável que em livros anteriores sua poesia possa ter sido marcada pela simplicidade, o que redundaria numa fase datada de sua evolução poética. É inegável, porém, que a poesia de Miguel de Moura se inclina para o leitor culto naquele relacionamento tácito entre a mensagem codificada e a recepção atualizadora. Sua poesia tem a cumplicidade intelectual do leitor; este com o poeta é que irão empreender a viagem lírica ou antilírica de sua poesia. Sua leitura poética não se realiza de modo completo sem a participação do leitor, que permanece sempre em tensão dialética com o poema, num saudável e construtivo exercício intelectual.

Há um dado geral e indiscutível que permeia os Poemas Ou/tonais: uma poesia que não reflete apenas a vocação para a atividade poética, mas sobretudo o resultado de um poeta que se constrói com o suor de seu ofício, numa obsessão de virtuosismo da linguagem-objeto.

Miguel de Moura escreve uma poesia que exorciza quaisquer veleidades beletristas ou ranços anacrônicos diferenciadores do poeta menor. Sua poesia revela essa geração de cultores do verso superior que se formou à sombra dos estudos superiores, sem mais aquela espécie de amadorismo intelectual de que nos falava Tristão de Athayde quando comparava a geração dele com a dos novos críticos saídos de importantes centros culturais da Europa e da América. Sua poesia, pois, não se faz de desabafos e de dores de cotovelo, tão justamente malsinados por Drummond. Antes, sua poesia é conseqüência da refinada elaboração consciente de sua arte, conhecedora dos segredos do nosso idioma e de suas virtualidades.
Toda a sua expressão poética se estrutura graças a meticuloso cuidado com a linguagem, elevada sempre à categoria de arte. Poesia que se confunde com a constante exploração em todos os níveis da língua, fonológico, morfológico, semântico e sintático e resultante, portanto, de um incansável trabalho artesanal. Miguel de Moura, a meu ver, é um perfeccionista, está mais na linha do formalismo, sua poesia, quer queira, quer não, é aristocrática, chega mesmo a ser cerebral em alguns poemas. É poeta egresso da universidade, com formação teórica fundamental a quem queira produzir, sendo ele próprio um ensaísta. Não pertence à geração dos improvisadores, tão comuns em nosso país. Não é, por conseguinte, um poeta amadorístico, tem voz própria e nada trai de provincial.

A re-leitura de seus Poemas Ou/tonais me remete a um traço pessoal de sua dicção: a poesia em estado de mistério. Esse aspecto de sua poesia a torna assim uma pessoa fechada às decifrações fáceis, dado seu alto grau de imprevisibilidade de expressão, caracterizador da poesia superior. Sua leitura exige por parte do leitor ou analista um esforço redobrado. Seu universo poético se constrói de ousadas imagens e está pejado de subjetividades.
Miguel de Moura é dono de uma poesia contida, sua lira é a antilira naquele sentido da poesia drummondiana, que parece tê-lo influenciado em parte. Há certos desfechos em seus poemas de tom visivelmente drummondiano:

alguém me falou em pecado
e eu respondi com meus incestos
(pg. 106)

o tempo se renova

por que nós também não?
(pg. 59)

ou foi meu anjo que baixou?

(pg. 141)

não é impossível voltar o relógio

impossível sou eu.
(pg. 155)

Esse mesmo tom drummondiano se vislumbra igualmente em todo aquele poema da página 131:

chega o tempo de dizer-se
o que não se ouviu.

mas as palavras são mistérios
nem mais soam
como os sinos
nos nossos ouvidos
sonolentos

chega um tempo de dizer-se o impossível
e o impossível já foi dito

chega um tempo de calar
e a gente inventa uma maneira triste
de dizer numa língua estranha
um silêncio amordaçado.

Mas, esse lado de influência não diminui, se é que há influência ou coincidência, o poeta piauiense. Ao contrário, as intertextualidades, visíveis em todos os poetas, são fenômenos comuns à criação poética, assim como as intratextualidades acompanham qualquer criador. Miguel de Moura, como Drummond, faz uma poesia em que os sentimentos e emoções são diluídos. Sua receita é a contenção, sua definição é a indefinição, sua certeza é a incerteza. É uma poesia que não se confessa, por isso é oblíqua, por isso se formaliza, cria imagens por detrás das quais se ocultam o choro e a alegria, a dor e a paixão, o céu e o inferno:

mas as palavras são mistérios
(pg. 131)

Uma outra vertente de seus poemas é a constante preocupação com o fazer poético. Daí tantos poemas com predominância metalingüística. Aqui também ele se aproxima de Drummond:

As palavras não fogem
levemente como os loucos
em seus passos com ritmo
ficam nos interstícios
do corpo
onde sabem a suor
e se guardam
para novos sacrifícios.
(pg. 73)

Miguel de Moura jamais será aquela voz poética derramada e sentimentalista. Sua poesia é o inverso de tudo isso. Sua cosmovisão universalista está mais para a dúvida, o pessimismo e a desesperança, ainda aqui a visão drummondiana, diante da vida, naquela percepção agnóstica, no eterno resvalar entre a certeza e a dúvida, entre a esperança e o desespero. É nesta perspectiva que a poesia de Miguel de Moura se insere na modernidade benjaminiana. Seu universo poético trai o descaminho e as frustrações do homem moderno, impossibilitando-o à felicidade definitiva e completa. Poesia construída da negação, da incerteza e do mistério da vida. Daí sua feição às vezes satírica ou parodística, tendo como resposta o riso, o humor, o trocadilho, o nonsense, a ilogicidade, um levar a vida, um sentir a vida, um comportar-se nela com uma consciência distanciada, com uma espécie de hiper-sensibilidade e lucidez, o que torna sua poesia enganosamente antilírica, às vezes pelo excesso de intelectualismo.

Esta postura poética caracteriza bem aqueles espíritos que fazem da timidez uma resposta poética feita de deliberada contenção e economia de emoções e palavras. Talvez seja essa a forma de Miguel de Moura pôr-se em sintonia com a modernidade onde o calor das emoções e as efusões de amizade não encontram mais aquela antiga e saudosa forma de meditar sobre o cosmo e de cantar os sentimentos do homem, as coisas e os enigmas do Universo.


(Publicado no jornal «O Dia», Teresina, 12.10.1991 e na revista “Lavra-Idéias e Letras”, nº 8, Brasília, 1993.)

_________________________
*Cunha e Silva Filho é professor universitário (inglês, língua portuguesa e literatura brasileira) crítico literário e tradutor, no Rio de Janeiro - Capital. Já publicou "Da Costa e Silva – Uma Leitura da Saudade" livro de ensaio, 1996, além muitos artigos e estudos de crítica literária.

Um comentário:

cristal de uma mulher disse...

Textos e poesias magnicas onde se comunica com nosso eu cheio de conhecimento.
As poesias são jardins presentes.

Abraços amigo.

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