quinta-feira, 23 de julho de 2009

CHICO MIGUEL: UM LIVRO DE FORTUNA CRÍTICA



TERESINKA PEREIRA*


Toledo, OH, 13.7.2009
USA




O escritor e poeta Francisco Miguel de Moura responde neste livro (1), com detalhes, a pergunta padrão: “Como e por quê sou escritor?” Parece fácil para alguns responder a esta pergunta, mas é importante ir mais além daqueles chavões dos quais já estamos cansados, daqueles que a explicam pela necessidade de ter uma vocação que seja tão imperativa como a necessidade de respirar, etc. Pois vamos ver a resposta de Chico Miguel. Ele foi bancário e já se aposentou. Conviveu com cifras de dinheiro e contas bancárias toda sua vida de profissional. Esta situação é praticamente a mesma que a dos escritores e poetas do mundo inteiro, pois, no Brasil, assim como em outros países, o escritor morreria de fome se seus livros não fossem best-sellers desde a primeira publicação. Que eu saiba, Jorge Amado foi um dos poucos escritores profissionais de nossa geração e da geração anterior à nossa. Guimarães Rosa era médico. Carlos Drummond de Andrade era funcionário público e daí por diante. Nosso contemporâneo e bem best-seller, candidato ao Prêmio Nobel de Literatura, Frei Betto, foi político, e agora que vive só de escrever, mora em um monastério, quando não está viajando, de maneira que se a venda de livros não corresponder ao que eles valem, não lhe falta casa e comida, mas sem o luxo que outros escritores precisam. Final da história: todos temos que ter um ganha-pão para ter o tempo e as comodidades necessárias para escrever, ou seja, de ir adiante com a nossa vocação. Cervantes, Shakespeare, Camões, e outros, outros, outros etc. viveram e morreram sem luxo e quase na miséria.

E é bom acreditar que, para nós, a literatura não é só um hobby, e sim nossa maneira de viver. Para mim, chega a ser minha “mania de viver”. E o Chico Miguel confessa que ser bancário é a melhor opção para quem tem a responsabilidade de sustentar família. Agora que estou reproduzindo do meu amigo escritor brasileiro, e que já me referi ao escritor Frei Betto, vou divagar um pouco e contar uma conversação que teve o Frei Betto com o escritor da República Dominicana, Mateo Morrison, político de profissão. Frei Betto foi convidado para representar o Brasil na feira de livros de Santo Domingo e os dois se encontraram. Provavelmente, Morrison se queixou da falta de tempo, dos compromissos políticos e de todas essas coisas que não deixam a gente escrever quando quer... E o Frei Betto lhe disse: “Faça como eu: deixe o governo!” Quem me contou isso foi o Morrison, não o meu compatrício. Mas, como me dizia ele, Frei Betto, sendo frei não só de nome, mas também de vida e vocação, nunca teve as responsabilidades que ele tem: mulher e seis filhos. Bom para ele! O Morrison, como Chico Miguel e eu também, tivemos que ter profissão avulsa à vida inteira. Eu, responsável por quatro filhos, tinha que me levantar às sete da manhã, para estar toda bonita e “aprontadinha” na frente dos alunos às oito, com boa cara e feliz de ter um emprego universitário, lidando com estudantes pós-adolescentes, de mais de 18 anos de idade em vez dos meninos da “high”, que são muito mais difíceis de se compreender (com exceção de nossos filhos, que são uns anjos, comparados com os filhos dos outros...) Mas este mundo está cheio de poetas que dão aulas nas secundárias ou até mesmo nas primárias, como o fez a chilena Gabriela Mistral. Além da situação financeira boa de um bancário, o escritor piauiense teve outra boa opção: a de poder ficar no seu estado, sem precisar emigrar.
Chico Miguel explica sua vocação de escrever, assim:

“Sou escritor porque tento colocar na arte da palavra os meus sentimentos e interpretar os sentimentos dos meus contemporâneos através do meu estilo e das minhas criações”. (pgs. 290-291).

Entrando na literatura primeiro como poeta, o autor de FORTUNA CRÍTICA diz que sua trajetória de trabalho com a palavra literária vem de anos antes da publicação de AREIAS, em 1966, sua estréia:

“Todo começo vem de muito longe (...) e merece escavação. (O tema? Claro). Procuramos o sentido de todas as coisas”.

O novo livro do escritor piauiense nos dá a entender a sua revisão periódica desse “começo” tão importante, porque daí para frente, não há final de linha. Acabo de ler uma entrevista que fizeram ao Augusto Boal, quando já estava condenado à morte por leucemia, na qual ele afirmava assim sobre a carreira de autor e ator, a qual, depois que começa não tem fim, nem com a morte: “Nada termina, podem crer. Creiam em mim. Nada termina. Nunca!” E, seguindo a idéia de que a vida é um caminho, vamos usar um verso de Mateo Morrison, muito apropriado para a ocasião: Seguimos “como um rio, corriendo a pesar de los troncos y las piedras”.

Filho de professor, Chico Miguel ajudou o pai em tudo que podia, foi alfabetizador, roceiro e estudante autodidata. Em suas leituras na biblioteca do avô, aprendeu o sentido da palavra “saudade” e o valor da poesia. Descobriu que a poesia estava em todas as coisas, e mais tarde escreveu:

“ah, esta rua escura
ah, este rio escuro
ah, esta rosa escura.

as coisas estão com medo”.

E descobriu também que tudo o que vive e que se agita no viver tem poesia, como no poema “Passo”: “Colibri / beija-flor / pássaro preto / sabiá. // Canto novo / canto azul / do sonhar / de pisar / do piscar / do revestir. // Sabiá / pássaro preto / beija-flor / colibri.”

Nessas memórias, o poeta confessa que se sentia feio e que achava que “essa condição de feio contribuiu para mais ou para menos na decisão de ser escritor”. Uma revelação sentimental não realista, pois as várias fotos de juventude postas no livro desmentem essa condição. Sua aparência era bastante atraente e o jovem Chico Miguel já tinha cara de poeta romântico. Entretanto, descrevendo sua personalidade, ele diz: “Sou um bicho estranho, contraditório. E essa contradição, esse espírito polêmico ou embirrado e teimoso é que me dá unidade.” (p. 293). Claro, Chico Miguel é também inteligente, impaciente e inconstante, características típicas do seu signo de Geminis, nascido a 16 de junho. E quase todas as pessoas desse signo são criativas, e se são intelectuais, viram poetas. O interessante é que nessa “escavação” de seus princípios de escritor, nos faz comover como as suas certezas de ter uma missão, com todos os seus sobressaltos e aventuras. Ele às vezes diz: “ser é fazer” e outras vezes diz: “não sei se fui feliz, tentei” e “ser escritor, poeta, é um sacerdócio”, ”precisa desprendimento e humildade”... E eu gostei dessa: “O escritor tem que ser livre e descompromissado de teorias, filosofias, partidos e política, principalmente da moral religiosa apegada a padrões sempre caducos e distorcidos.” (p.296).

Francisco Miguel de Moura termina seu depoimento afirmando que nem a própria arte será eternidade porque não há nada eterno. Também concordo com isso. Mas concordo também com uma declaração do escritor mineiro Sebastião Nunes (2), que mencionava a necessidade que o artista tem de mostrar ao mundo a própria existência: “O mundo do artista é seu público.” No final, todos chegamos com uma pitada de existencialismo e há que dar crédito a Sartre (3), que foi discípulo de Nietzsche (4) que dizia que a compreensão dos grandes pensamentos é tarefa dos futuros estudantes da arte. Portanto, esperemos, esperemos, esperemos por nossa imortalidade através de nossos filhos ou, na falta deles, dos discípulos intelectuais que tenhamos.

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NOTAS:
1. Moura, Francisco Miguel de: “Fortuna Crítica”. Teresina, Ed. Cirandinha, 2008;
2. Nunes, Sebastião: Supl. Literário do Minas Gerais, no. 1269, jun.2004, p.13;
3. Sartre, Jean Paul. Teórico do “Existencialismo”, doutrina aparecida na França, na primeira metade do séc. XX;
4. Nietzsche, Friedrich Wilhelm. Filósofo Alemão, autor de Assim falou Zaratustra (1883-1891).

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*Teesinka Pereira - Presidente da IWA - Associação Internacional de Escritores e Artistas - Toledo - Ohio - USA

Um comentário:

Umbelina disse...

Descobri seu blog e agora sou sua seguidora.
Parabéns por tudo o que tem feito para elevar o nome do Piauí.

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