quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

CARTA A UM POETA

Querido Poeta,
ROGÉRIO SALGADO*

Li e reli seu livro TRILHAS, revi sua biografia e embora esteja aqui em conflito com a organização de tempo, resolvi lhe escrever, POETA E ATIVISTA, mais 1 nos meus sonhos, que me Perdoe a Virgilene. Gostaria de estar “de papo” com vocês dois para conversar sobre o livro. Mas isso não é possível agora. Vamos ver se será na próxima vez que eu vá a Belo Horizonte. Mas ainda nem sei quando.
Tenho traduzido alguns poemas seus. Quando estiver menos afobada vou traduzir “Letras para uma canção de amor/ou de protesto”, que foi o meu predileto no atual livro.
Você diz que leu o meu “Via Sacra”, quando eu uso uma linguagem religiosa muito significativa para quem (como eu) não crê em nada. Porque a minha vida é a minha religião. É vero. Sua vida também é uma “Via Sacra”, poeta. Eu sempre achei que tinha sido criada e feita poeta por falta de uma família normal, mas você também teve sua quota de peregrinação e suas carências familiares que resultaram positivamente na luta ativista poética. Como vemos o velho ditado “há males que vêm para o bem”, nossa “Via Sacra” o confirma.
As fotografias da capa de TRILHAS são também muito referentes para os dois. Se o livro fosse meu, eu teria posto a foto do Pirulito da Praça Sete na parte de cima, pois foi lá que cresceu minha mentalidade intelectual. Lá me encontrava com Heitor, Silviano, Frederico, Argemiro, Degois, Teotônio e outros membros da “Geração Complemento”, já velha e que continua separada pelo mundo e esquecida. A “Geração Complemento” praticamente desapareceu, confirmando outro problema herdado da Ditadura militar no Brasil de 1964-1985. Ainda bem que vocês estão renovando o idealismo da juventude e sobrevivendo nesse caos que deixaram os milicos.
Outro dia eu estava comentando este fato com uma jovem poeta que chegou recentemente nos Estados Unidos, embora a discriminação e a guerra contra os imigrantes estejam na última moda aqui. A jovem, ao terminar de ler na internet meu poema de homenagem ao aniversário da Revolução Cubana (1-1-1959), me dirigiu uma crítica (provando que ainda não me conhece) em forma de pergunta: “Você já escreveu algum poema dedicado ao Brasil?” Como o sangue me subisse à cabeça em vez de controlar a impulsiva reação escorpiona, respondi: “Não tenho nenhuma obrigação de escrever poemas para o Brasil. Em Cuba havia uma Ditadura e os jovens idealistas fizeram a Revolução e ganharam. No Brasil, nós planejávamos uma Revolução e ganhamos uma Ditadura que deixou a turma toda debandada no estrangeiro e os mais jovens, aqueles que cresceram durante a dita cuja, viraram entreguistas.”
Você, poeta Rogério Salgado, vem provar justamente o contrário do que eu disse. Você me perdoe estar usando o seu livro para fazer essas lembranças e estes desabafos. Mas os versos seus de “Letra para uma canção de amor/ou de Protesto” me inspiraram muito:
“Pode crer / ainda resta uma esperança / já que somos capazes / de nosso próprio destino. // Façamos, então, esse desatino /e vamos à luta / com palavras nas mãos / feito espadas / romper esse silêncio / que nos sufocou por tanto tempo.” (Rogério Salgado, “Trilhas”, p. 182).
A verdade é que dos 3.000 poemas que tenho publicado aí pelo mundo há pelo menos 100 dedicados ao Brasil, a terra que adoro, na qual atuam políticos que eu detesto.
Você, Rogério, e a Virgilene, seu grupo da Praça Sete e do Belô, além de outros como o grupo de “Terça Poética no Palácio das Artes” e “Diálogo a Três”, organizados por Wilmar Silva e Dagmar Braga, e, em separado, o escritor Fabrício Marques, me fazem retirar o que disse à jovem virada personagem brasileira-estadunidense. Vocês estão de pé e de cabeça erguida em Belô, e tomaram de volta a palavra para fazer poesia para todo o mundo. Muito bem. Que o Brasil os conserve e que vocês conservem o Brasil para os brasileiros. Como disse a Ilma Fontes, de Aracaju, editora de O CAPITAL, “lá em Aracaju, uns viajam com os pés e outros com a cabeça.”
Tenho que reconhecer seu estímulo, seus esforços e sua coragem.. E mais do que isto, me atrevo a pedir-lhes que usem a palavra poética, religiosa ou judicial para denunciar a falsa “esquerda” que atualmente anda no poder, no Brasil, fingindo que se esqueceu da Ditadura e se empenha em perdoar os que tomaram parte nela. Os jovens são “entreguistas” porque estão sendo mal encaminhados pela nova onda da esquerda pacifista, inventada pela CIA para lavagem cerebral instantânea. E já que fui por este tema da política do neoliberalismo, aconselho a leitura do texto do grande escritor mineiro Frei Beto, de Belô, intitulado “Dez Conselhos para os Militantes da Esquerda”, publicado na internet e que me chegou pelo “http:// koeyu.blogspot.com
No mais, Rogério e Virgilene, e todos os outros citados nesta carta, continuem a escrever, a publicar, e principalmente a gritar a palavra poética engajada, comprometida, perigosa e subversiva. Me prometam que “Ditadura, nunca mais!” e que o Brasil, a capital Belô e o Pirulito da Praça Sete continuem a ser seu campo aberto para a luta de agora e SEMPRE.
Beijos,
Teresinka Pereira – poeta brasileira, mora nos Estados Unidos, preside a IWA (Associação Internacional de Escritores e Artistas).
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* Rogério Salgado nasceu em Campos de Goytacases – RJ, mas há muitos anos mora em Minas (B. Horizonte) e já publicou cerca de 20 livros, alguns dos quais foram traduzidos no exterior.

Um comentário:

Ana disse...

Gostei muito do seu blogue e da ideia que ele transporta. Parabéns!
Por favor visite o meu
http://www.sulsereno.blogspot.com/

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