quarta-feira, 9 de junho de 2010

A VIDA ARDE NO MÚSCULO DO CORAÇÃO



CRÔNICA DA VIDA (1)

Zanoto*

Deus deu a cada um o dom da vida. Um dom, sem dúvida, intensamente precioso, que devemos cultivar com todo carinho e perfeição. Neste final de ano a chuva caiu com maior gana sobre a terra. Tirando a vida de muita gente cheia de vida. O que aconteceu, por exemplo, em Angra dos Reis, foi de estarrecer. As lágrimas pontilharam os vídeos do país todo. No picadeiro dos dias, o triste espetáculo da morte e da destruição causou furor, um lírio sem perfume brotado da lama, parecendo cenas totalmente apartadas do mundo. Tudo sombrio e as casas necessitando de reformas, tendo os cômodos violados. Cadáveres desaparecidos nas águas dos rios que transbordaram ou engolidos fria e tragicamente pelos montulhos lama e pedra poderosas e imensas. Uma tragédia dantesca. Senhor, tenha piedade dos que foram sem perceber a razão da ida, sem serem notificados com antecedência da tragédia.


Para mim, neste final de ano, não houve as tardes fogosas previstas para minhas andanças pelas ruas de Varginha, não houve o céu delineado para o meu cotidiano não só de escrita, de vida, de momentos de muita alegria na paisagem de uma cidade que vivia, que trabalhava, que compartilhava as nuvens girando pelo seu horizonte. Uma cirurgia avançava dias e noites a dentro, infiltrando-se no meu eu, no meu interior e acima de tudo no meu coração. Era meu coração que claudicava. Dr. Armando Martins viu que ele trazia sinais de uma débâcle iminente. Disse-me ele que eu precisava dar-me o fogo fascinante da vida. Não podia, é claro, naquele momento encerrar o parágrafo de minha vida. No princípio, dominado pela angústia e expectativa, lavado pelas tardes e noites chuvosas, e pelas tardes de sol, temi o martírio dos momentos, mas fortalecido pela necessidade de reagir, reconstruí minha vontade de restabelecer o pleno compasso do coração. E dias antes que a Natal batesse às nossas portas submeti-me à cirurgia desejada e indicada. Hoje, ainda com dores pelo corpo, conto através destas linhas o emocional de que estava possuído. Lutei com todas as forças para que a mensagem da natureza, em dias de festa, não se configurasse vazia e sem nexo. Queria segurar a bandeira da felicidade com todas as forças. A grande esperança era a saúde, timoneira da vida. Queria fechar um parágrafo, ou este duro capítulo, com segurança. E trouxe para mim um dínamo de luz. Caminho agora com as coisas da vida livre de pesadelo pré-operatório. E vejo o céu sem chuvas, levando no seu cotidiano razões maiores para prosseguir e o intento de escrever os meus textos, cantando hosanas e aleluias ao futuro e ao passado desta nossa cidade.

O reveillon 2009 eu passei sentado no sofá da minha sala, vendo os fogos de Belo Horizonte, Brasília e Rio de Janeiro. Abri a janela do meu quarto e vi o colorido dos fogos de Varginha, nos festejos da mina nos Campos Elíseos. Há muitos anos não ficava em casa no dia 31 de dezembro. Mas não vou mexer nos papéis de outros reveillons vem vividos e aproveitados. Reveillons magníficos no Clube de Varginha. Mesmo assim fiz a travessia da grande e festejada noite de toda a humanidade, com certo encanto e escrevendo um poema borrado de solidão.

Muitos amigos conversaram comigo pelo telefone, alguns antes da meia noite, outros no dia primeiro. Antes de cair na cama, cansado de sono, e nas malhas de 2010, li, para repouso, um poema de Fernando Pessoa. E chegou o primeiro dia. Majestoso. Ardente. Dei, então, um bom dia a Carlos Drummond de Andrade, manejando sua máquina do tempo. O sol em seguida me chamou para vê-lo queimar o asfalto da praça. Lembrei-me de Fellini e “la nave va”.

Foi quando me veio a decisão de escrever estas linhas, para formular aos leitores, amigos, poetas e escritores que me escrevem um Feliz Ano Novo.
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*Zanoto, editor da coluna “Diversos Caminhos”, do jornal Correio do Sul”, todas quarta-feiras, há 46 anos. Crônica publicada no jornal “Correio do Sul”, Sul de Minas, Varginh, Minas Gerais, em 06/ 07 de fevereiro de 2010.

2 comentários:

cristal de uma mulher disse...

Amigo Francisco eu vim agradecer suas palavras e falar que aqui me sinto em casa ..Adorei os textos e as poesias..Obrigada querido.

CHIICO MIGUEL disse...

RACHEL OMENA,
Gostaria que visitasse meus blogues, a seguir mencionadas:
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