quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

“...FLORES E ESPINHOS”



Francisco Miguel de Moura*


Todas as sendas são de flores e espinhos, a menos que o sujeito tenha nascido em berço de ouro. Não é o caso de Adalberto Antônio de Lima, menino matuto do interior (Rodeador, hoje Santo Antônio de Lisboa - PI). Antes foi comerciário em Picos. Depois zanzou como bancário (Banco do Brasil), no interior do Piauí e de Minas Gerais, onde fez parte de sua vida ativa. Hoje, aposentado, mora no Rio, e escreve. Publicou dois livros e organizou dois. Sempre no mesmo tom cronístico e histórico. Suas crônicas mostram sua senda. Como diz o título de sua obra em comento. “SENDA DE FLORES E ESPINHOS” foi prefaciado por Gilson Chagas, escritor também de Santo Antônio de Lisboa, uma grande inteligência que seria muito bem empregada na literatura. Mas correu para a técnica da contabilidade e o magistério. Mora em Brasília.

Adalberto Antônio de Lima escreve com bom humor, sua leitura é fácil e agradável. As primeiras páginas são um documento vivo da história do começo de Santo Antônio de Lisboa. Ele pesquisou e guardou na memória muitas coisas importantes. Mas, sempre que necessário, recorre ao irmão mais velho, De Assis. Duas de suas histórias, a última e a primeira, muito me balançam coração. A última, porque sou citado (surpresa) e a primeira, porque se refere a Candinho de Mariano e a Pascoal Silva, ambos personalidades importantes daquela cidade e município, onde eu também vivi, quando meu pai era mestre escola lá, e morávamos numa casa ao lado da dos pais de Adalberto. De sua irmã mais velha, Neomísia, fui colega na escolinha de Mestre Miguel. De qualquer forma, essas lembranças, mais a dos comerciantes Pascoal Silva (meu primeiro empregador), e Candinho de Mariano, na minha já quase adolescência, me tocam fundo. Como não iria gostar das crônicas de Adalberto? Ele é bancário do Branco do Brasil como eu. Ele é escritor de suas sendas como eu. A senda bancária e outras. Ele é um realista com boas tintas de modernidade, especialmente na frase desataviada, no vocabulário sem receio. Adalberto é um observador de mão cheia e me parece que tem memória de elefante. Assim, por onde passa vai gravando as figuras folclóricas da cidade, fazendo uma espécie de estudo histórico-sociológico dos lugares e cidades onde habitou. Não estou dizendo apenas do valor memorialístico, histórico e sociológico do seu trabalho. Muitas páginas emocionam. Longe do classicismo carcomido, mais perto do popular qual um Fontes Ibiapina. Admito que muitos, como eu, vão gostar. É literatura. Não precisa ser um gênio como Machado de Assis ou Euclides da Cunha para conduzir a escrita na boa senda da língua, da poesia, da imagem e da metáfora. Não cito Machado e Euclides por comparação, mas para lembrar do centenário de morte de ambos, o primeiro ocorrido no ano passado, o segundo, a acontecer neste 2009.

Não resta dúvida de que essas crônicas todas podem virar contos. Ou não. Conto ou crônica, não importa. Hoje, como ontem, a crônica é por demais valorizada e basta um autor ser bom cronista como João do Rio (pseudônimo de João Paulo Emílio Coelho Barreto), para ser entronizado clássico da literatura. O próprio Machado de Assis fez essa caminhada na crônica, terminando por recriá-la à moda brasileira.

O autor de “Senda de Flores e Espinhos”, pelo visto vai chegar ao topo do nosso cronismo como os mestres Rubem Braga e Fernando Sabino, para falar nos mais conhecidos. O que será sua glória aqui iniciada, em cuja senda persistirá certamente e com a mesma gana com escreveu os seus três livros.
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*Francisco Miguel de Moura, escritor brasileiro, mora em Teresina – Piauí – Brasil

2 comentários:

Poeta Bizarreto disse...

Agradecido e pasmo com a crítica do Chico à nossa "Senda de Flores e Espinhos".

Adalbeto Antônio de Lima

Mendez disse...

Declarado possível de se chegar a um Fernando Sabino ou mesmo Rubem Braga, é um elogio e uma expectativa estimulante de ser alcançada!

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