segunda-feira, 10 de março de 2008

A PAINEIRA DE CAMPO DO MEIO

Diversos Caminhos
Por Zanoto*

Tão logo cheguei a Campo do Meio, a primeira coisa que fiz foi caminhar por toda a casa de Vaninha. Era um final de tarde ensolarada. Vaninha acabara de limpar a piscina, Galvão, Leila, eu e ela pusemos roupa de banho e caímos na água. O calor estava com força total. Uma mangueira, carregada, dava colorido especial ao quintal. Passarinhos de várias espécies, inclusive pombas e rolas, esvoaçavam pelas árvores. Havia plantas, flores e parasitas espalhadas por toda a área. Gostei muito das frutas, do mel, do queijo cremoso, do lombo, da leitoa, da macarronada e da broa de milho. Vi o Cruzeiro no topo do morro, era o Cristo benzendo a paisagem, mostrando que ali perto estava Campo do Meio.

Havia no ambiente uma conspiração de coisas boas, gostosas, e a noite chegava com a gente no alpendre, ao lado da cozinha. De manhã, eu e Galvão fazíamos o cuper, indo pela avenida à beira da represa de Furnas. Na minha cabeça caíam raios de sol, e uma chuva de poesia me afagava. Deu vontade de tirar a camiseta, mas o sol, pela sua rudeza e força, impedia. Quando chegávamos à praça da igreja do Padre Chico, descansávamos sentados diante de uma paineira deslumbrante. Uma paineira belíssima, As pessoas da cidade disseram ter mais de 120 anos. A paineira nos cativou de pronto. Eu e Galvão ficamos boquiabertos diante de tanta beleza. Altaneira, diante de nossos olhos. Espetacular, maravilhosa, dourada, amiga. Sob sua sombra nos refrescávamos do calor e nos escondíamos do sol ardente.

Não preciso olhá-la hoje, para saber que ainda está lá, talvez mais bonita. Nem concentrar-me intensamente nas recordações para revê-la hoje, amanhã e sempre. Praticamente debaixo daquela paineira passei minha primeira manhã em Campo do Meio.

Eu me encantei, paineira, com você. Por isto estou falando já com uma nesga já de saudade no coração. Vi em seus galhos, maravilhosa paineira, a vida de um século, e as folhas pedindo carinho. Compartilhe comigo tudo aquilo que você viu e viveu nesses cento e vinte anos de existência. Só os poetas, minha cara, poderão dar conta de abraçá-la e sonhar os seus segredos. Na sombra e na quietude da praça entrevi o rosto cativo da população da cidade examinando sua opulência e a gloriosa lição de vida dada por você. Eu ansiei, nos momentos em que fui visitá-la, ouvir sua palavra através dos passarinhos, pacientes e felizes, que cantavam e saltitavam em seus galhos. A criação do mundo lhe deu beleza e imponência. Olhe, de pronto comecei a amá-la como se ama a família e uma mulher bonita. Aceitei, com todo prazer, o canto dos pássaros que, nos seus galhos, se amam e revoam. O sol pelejando para inundar a sua sombra. No banco, estávamos nós, eu e o Galvão, apaixonados por você. Tenho certeza de que, à noite, a lua a beija do cimo celeste, envolta de estrelas. Você é tão aconchegante que um esperto joão-de-barro construiu, num galho seu, sua morada.

Na manhã do dia 31 de dezembro, ganhei de dona Tereza, (...) estampada num cartão, a pintura perfeita e artística da frondosa paineira.

Tenho certeza de que a paineira da praça da igreja do Padre Chico – que vela o túmulo do saudoso e caridoso sacerdote, reza por ele, reza por nós, ao som da música sacra dos pombos e pássaros – vai transformar-se numa marcante e delicada lenda. Sem dúvida, a altivez da paineira de Campo do Meio é eterna.

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*Zanoto, poeta e cronista, editor da coluna “Diversos Caminhos”, no jornal “Correio do Sul”, mora em Varginha-MG, de onde divulga a poesia e os poetas brasileiros.

Um comentário:

Zezé disse...

e de mentes tão brilhantes como a sua,desta maravilha de comentario
não poderia de deixar de me expressar a minha grande gratidão,
que quando era criança, sempre sentava embaixo de sua sombra,
que saudade,,,,,,
parabens pela sua senssibilidade
abraços de um filho desta ciddade de Campo do meio, que hoje reside em ~São Paulo - como diz a letra da música hó Campo do Meio quem te conhece não acha tão feio, ho Minas gerais quem te conhece não esquece jamais.
obs; procurei a musica da cidade de campo do meio - feito pelo saudoso luis de castro e não encontrei, gostaria muito de poder ouvir , esta tem tudo a haver com a cidade.

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