quarta-feira, 20 de maio de 2026

 


O MAU LEITOR

        Francisco Miguel de Moura*

 

Poesia é uma cousa muito ingrata,

só o poeta que é bom não renuncia.

Porém o mau leitor desaprecia

E esbraveja gritando: “Coisa chata!”

 

Se o poeta se estende, sem bravata,

Como a água que cai dentro da pia,

O leitor logo invade uma outra via,

E, o que era sonoridade, desbarata.

 

Pois quer discurso, história ou teoria,

Quer exemplo, uma história morta ou fria,

Fingindo-se orador... E grita e cora.

 

Perde a letra e o som do que retrata

pra receber aplausos, quando mata

o melhor do poema. E se devora!

 ___________

 *Francisco Miguel de Moura, poeta brasileiro.

 

 

 

quinta-feira, 9 de abril de 2026


 

O TEMPO SEMPRE VAI

 

           Francisco Miguel de Moura*

 

O tempo sempre vai, tempo não volta,

pois do futuro faz sua grande meta.

Caminha sem volteios como atleta,

não anda devagar nem sob escolta.

 

Veja o tempo da moça, ou do poeta:

Precisa sempre da cabeça solta...

Mas se em dado momento se revolta,

não volta atrás, na linha se completa.

 

Se o tempo humano desse para trás

seria um desmantelo em tudo mais,

a matéria em fumaça tornar-se-ia.

 

E, loucos, os filósofos e os poetas

trocariam as curvas pelas retas,

e nesse passo a mundo acabaria.

__________

 *Francisco Miguel de Moura, poeta brasileiro

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

 


ESSA CHUVA

 

            Francisco Miguel de Moura*

 

Essa chuva a bater no meu telhado,

pelas bicas descendo em borbotão,

tangida a raio, a ronco de trovão,

dá-me um sono tranqüilo e temperado.

 

Essa chuva matando a sede ardente

dos animais, das árvores, da terra,

dá pinceladas verdes sobre a serra,

cai-me no peito carinhosamente.

 

Essa chuva tão forte e barulhenta,

que não é “chuva de resignação”,

vem da lira de Deus que se arrebenta.

 

Essa chuva engravida, com certeza,

a semente do amor no coração...

Abre-se em flor e fruto a natureza.

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*Francisco Miguel de Moura, poeta. Este soneto está

em “Areias”, minha estreia, reeditado agora, depois de

tantos anos.

domingo, 25 de janeiro de 2026

 


AMO E ODEIO

 

         Francisco Miguel de Moura*

 

A manhã é meu espelho:

- Odeio as coisas feitas,

quero-as todas por fazer.

Odeio o que é eleito,

quero é constrangê-lo.

Odeio o preço de mercado,

quero a liberdade sem recado.

Perfeição, repetição, alienação...

Odeio o único e o todo,

amo apenas o singular

entre tantos e outros.

Quase morro de tédio

por ter criado objetos, abjetos

porque não tinham arte.

 

Amo ser pleno e livre,

com uma felicidade sem remédio.

 

Ou o dia que não se repete.

___________

*Francisco Miguel de Moura, poeta brasileiro.

 

 

sábado, 10 de janeiro de 2026

 


A PARTIDA

 

             Francisco Miguel de Moura*

 

 

Na partida, os adeuses, gume e corte

dos prazeres do amor, quanto tormento!

Cada qual que demonstre quanto é forte,

lábios secos mordendo o sentimento.

 

Do ser brotam soluços a toda hora,

as faces no calor do perdimento,

olhos no chão, no ar, por dentro e fora,

pedem forças aos céus como alimento.

 

Ninguém vai, ninguém fica, e se reparte

no transporte que  liga e que desliga!

Confusão de saber quem fica ou parte.

 

Não se explica tamanha intensidade

amarga, e doce, e errante, que interliga

os corações perdidos de saudade.

 

_______________

*Francisco Miguel de Moura, escritor brasileiro, mora em Teresina,PI

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

 O SEGREDO

            Francisco Miguel de Moura*


 

Foi ontem mesmo a cena que componho,

me está presente, e ainda sou feliz.

Aconteceu-me a mim como aprendiz

do amor, aquele que me quero e imponho.

 

Posso contá-la?  Nem de pé me ponho!

Tinha um jovem feitiço e o olhar  contente,

uma fenda entre os dois dentes da frente

e o seio farto entremostrando o sonho...

 

Logo tomou-me as mãos, deu-me um sorriso.

Lembrando, então, de antiga namorada,

beijei-lhe o rosto, sem perder o juízo.

 

E ela abraçou-me acarinhando a tez...

Hoje relembro a cena apaixonada

como se houvesse uma segunda vez.

 

___________

*Francisco Miguel de Moura, poeta e prosador brasileiro, mora em Teresina, Piauí. E-mail: franciscomigueldemoura@gmail.com


quarta-feira, 26 de novembro de 2025

 


TERCETOS

 

     Francisco Miguel de Moura*

 

 

Porque dormi ao lado

de alguém só-ridente,

senti-me ser alado.    

 

Porque sonhei deitado,

num sonho imprevidente,

rolei-me ao outro lado

           

Caí no chão, pelado,

mas levantei contente,

ainda assim cansado.

           

É que dormindo amado

amei imensamente

mais do que acordado.

___________

*Francisco Miguel de Moura, poeta brasileiro

 

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