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sábado, 23 de outubro de 2010

O ESTADISTA E A OGRA




"Tudo o que vemos é outra coisa."
Fernando Pessoa - Primeiro Fausto

Franklin Jorge*

 Segundo turno. Agora, num embate que deve levar em consideração a biografia dos candidatos, José Serra tem a faca e o queijo na mão para mostrar o seu valor em relação à candidata petista, Dilma Rousseff, ardilosamente escolhida pelo presidente Lula para sucedê-la, não em consideração ao seu valor pessoal, mas à facilidade que teria de continuar mandando numa eventual vitória dos governistas.

Dilma lembra-me muito a ex-governadora Wilma de Faria. Não pelo fato de serem ambas sessentonas recauchutadas, mas pelo despreparo intelectual que se reflete, até, na emissão das palavras e sobretudo no pauperismo vocabular que denota a falta de leitura e o traquejo com a cultura, elementos imprescindíveis a um gestor qualificado.

No caso de Dilma, o coisa se agrava, pois a sua ação se estenderia a um país inteiro e não apenas a um Estado, como o Rio Grande do Norte, que já teve a sorte de ter governantes como Aluízio Alves, que soube valorizar a cultura e empreendeu a modernização do Rio Grande do Norte.

Mas, voltemos ao tema do momento, Serra e Dilma. O primeiro, um presidente com biografia, tem tudo para tornar-se um estadista, ou seja, um governante que no presente planeja o futuro e cria perspectivas de bem-estar para todos e não apenas para alguns.

Há pouco, conversando com um amigo que teve alguma convivência com Serra - quando ambos trabalharam na Eletropaulo -, ele enaltecia em Serra o homem íntegro e o administrador capaz. Para ele, seu grande desafio agora será o de vencer a própria teimosia. Para vencer a ogra petista ele terá de despir as luvas de pelica e enfrentar a sua adversária de homem para homem, acrescento eu, ou seja, sem contemplações pelo fato de estar disputando a Presidência da República com uma mulher que tem como fato mais notável de sua biografia o seu ateísmo e a ferocíssima militância numa facção terrorista que matou e assaltou bancos durante os “anos de chumbo”, relacionados com a ditadura militar. E, embora ela negue, a participação no sequestro do embaixador americano Charles Elbrick, esta dúvida não está de todo esclarecida.

Esquerdistas ambos, até nisso podemos observar a diferença existente entre Serra e Dilma. O primeiro lutou contra a ditadura, mas no plano das ideias, sem pegar em armas e sem colocar em risco a integridade de quem quer que seja. Seu intuito era o de libertar o país do jugo totalitário e o restabelecimento da democracia, banida que fora pela ditadura instaurada com a tomada do poder pelos militares em 1964. Quanto a Dilma, seu intuito era bem outro. Ligada aos extremismos, seu projeto político tinha um foco claro: trocar uma tirania por outra, ou seja, substituir a ditadura militar por uma ditadura stalinista, a mesma espécie de ditadura que arruinou países como a Rússia e Cuba, além de promover o extermínio de milhares de pessoas. Sob este ponto de vista, não é Dilma uma candidata cristã. Seu compromisso não é com a vida, mas com a morte.

Afilhada de José Dirceu, que tem desempenhado importante papel em sua campanha, Dilma foi escolhida por Lula não porque seja a pessoa certa para governar o Brasil, mas por sua ferocidade e facciosismo deletério. Neste aspecto, o presidente Lula fez a escolha certa: não podendo indicar o próprio José Dirceu para sucedê-lo, por causa do famoso escândalo que acabou em pizza, fixou-se em Dilma e  nomeou-a justamente para o cargo antes ocupado por José Dirceu, a Casa Civil da Presidência da República, hoje popularmente conhecida como “Casa Vil” ou “Casa de Mãe Joana”, numa alusão espirituosa à rainha que transformou o seu governo em bordel.

Dilma, mulher sem religião e sem fé, unicamente voltada para o exercício do poder absoluto e do desfrute das benesses que o poder proporciona aos inescrupulosos, tem tudo para fazer tudo aquilo que o presidente Lula gostaria de ter feito, mas acovardou-se quando pressionado pela imprensa livre a rever suas posições absolutistas, voltadas para o amordaçamento dos seus adversários. Afinal, os ditadores não gostam de ser contrariados em seus desígnios. Dilma, não. Com um perfil de terrorista, nada a impediria de colocar em prática as restrições que repudiamos e que não tem nada a ver com democracia.

Nesse segundo turno precisamos manter olhos e ouvidos bem abertos, para não incorrermos em erro que teria grandes e desagradáveis consequências, entre as quais, a mais grave – a instauração de um regime ditatorial inspirado em tiranos como Mahmoud Ahmadinejad, Hugo Chávez e Fidel Castro, que têm se destacado universalmente como torturadores do seu povo.
                                          (Transcrito do NOVO JORNAL - Natal - RN)
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*Franklin Jorge, jornalista, excelente prosador e poeta, mora atualmente em Natal - RN www.franklinjorge.com/blog

quinta-feira, 9 de julho de 2009

R. LEONTINO FILHO - A GEOMETRIA DO FRAGMENTO

RESENHA*
(Ensaios de R. Leontino Filho, Edições Scortecci),
São Paulo, 2008, 119 páginas).

Trata-se de um trabalho de fôlego da pena do poeta R.Leontino Filho, professor da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte, mas nascido cearense. Além de mestre da literatura, o autor é poeta e crítico literário, desenvolvendo grande atividade em jornais e revistas, principalmente do Nordeste.

Escreve com a maestria de um poeta e a sabedoria de um doutor no assunto, com seriedade e embasamento teórico-filosófico. São dezenove trabalhos que honram a nossa crítica e teoria literária, quer pelo estilo – digamos que bem original – quer pelo valor das informações e dos incentivos com que remete o leitor à obra citada. O último trabalho, a meu ver, não trata de um autor ou livro específico: faz uma análise em profundidade da lingüística, da
filosofia e do fazer literário, com ênfase no sujeito, como bem anuncia: “A linguagem do espelho: o autor em questão”. A obra geral é magnífica, sobressaindo o ensaio que fecha o livro com exemplos de poemas de Foed Castro Chamma, realmente um dos grandes poetas brasileiros contemporâneos.
Se fôssemos julgar estudo por estudo, diríamos que o final é uma chave de ouro do livr
o. Devem ser mencionados, também pela excelência, dois outros: “Dispersão: um livro, um poeta, um destino”, sobre o poeta e a poesia de Edson Guedes de Morais, e “No caminho, a metáfora do gozo insólito”, sobre R. Roldan-Roldan e seu fazer artístico. Sobre alguns autores há mais de um trabalho no livro, porém toda a ênfase fica com R.Roldan-Roldan, digamos que seja este o que mais o influenciou.

Autores contemplados no trabalho, além dos dois que já citamos: Jorge Tufic, Raimundo Herculano Moura, Ascendino Leite, Demétrio Vieira Diniz, Carlos Gildemar Pontes (poesia e ensaio), Tanussi Cardoso, Zeilton Alves Feitosa e Francisco Miguel de Moura.

É o livro mais completo de ensaios sobre poetas e poesia que li nos últimos tempos, principalmente sobre poetas contemporâneos como é o caso.

“A Geometria do Fragmento” é obra para durar muito, o que raramente acontece com livros dessa natureza.



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*Resenha escrita por Francisco Miguel de Moura, brasileiro,
residente em Teresina - Piaui

domingo, 19 de abril de 2009

O MONGE DO HOTEL BELA VISTA


Clauder Arcanjo*

Justa homenagem de Edmilson Caminha, escritor cearense,
radicado em Brasília, aos
80 anos do nascimento do inesquecível
Antonio Carlos Villaça
(1928-2005).




Confesso que pensei em adiar a leitura de O MONGE DO HOTEL BELA VISTA, assoberbado que me encontravade tantos compromissos literários já assumidos: prefácios, releituras, ensaios... Mas quem há de resistir a um belo livro epistolar? Não serei eu, não serei eu. Explico. "O monge do Hotel Bela Vista" reúne as cartas trocadas entre Edmílson e Villaça no período de doze anos (1980 a 1991). Nelas, eles comentam de um tudo e mais um pouco: livros, autores, literatura, vida literária, e aspectos relacionados ao Brasil e ao Mundo.Tudo imerso num tom de confidencialismo, sem vitupérios, nem declarações bombásticas. Missivas
banhadas, isso sim, no caldo da límpida amizade.

Com "O monge do Hotel Bela Vista", Edmílson Caminha, que já nos brindara com Drummond, a lição do poeta (2002), homenageia o “fraterno amigo” com quem se correspondeu; aquele que, segundo Edmílson, revelou-se “a maior e mais autêntica vocação literária que já conheci”.

E lá fui eu a encostar compromissos, mergulhando completamente nas epístolas desses dois mestres! Como se trata de uma edição limitada, 200 exemplares, tomo a liberdade de dividir com você, caro leitor, algumas passagens da obra. No início, epígrafes de alguns ícones da literatura: Tristão de Athayde, Carlos Drummond de Andrade, Roger Martin du Gard, Gilberto Amado e João Antônio. A de João Antônio me cativou:
“Mostrar cartas é quase tirar a roupa em público.”

Em seguida, a apresentação do próprio Caminha, num texto intitulado: “Cartas interessantíssimas, indiscretas”. “Foi como Antonio Carlos Villaça classificou a correspondência de Guimarães Rosa com o amigo e confidente Moreira Barbosa. Assim também chamo ao que me escreveu o memorialista, de 1980 a 1991: cartas interessantíssimas, indiscretas. Não pelo gosto da maledicência, da difamação, mas pelo prazer com que Villaça fruía a vida literária, tanto quanto a literatura. Autor de um livro intitulado "Literatura e vida", para ele os dois substantivos estreitavam-se necessariamente em sujeito e predicado: literatura é vida.

Interessavam-lhe, pois, não apenas as obras, mas também os homens e mulheres que as escreviam, o cotidiano de uns e outras, as qualidades e fraquezas inerentes à condição humana.” — declara Edmílson.

Caminha conheceu Villaça em Fortaleza: “ele, na plenitude dos 50 anos, consagrado pelo êxito de "O nariz do morto"; eu com 28, jovem professor de literatura em colégios e cursinhos para o vestibular, a escrever artigos para a imprensa local”. Deram início, então, confidencia-nos Caminha, a uma correspondência “que se estendeu por 12 anos, em que lhe escrevi 24 cartas e dele recebi 37.” Não foram publicadas todas, apenas as mais significativas. Em cada página, a presença de um diálogo regido por Villaça: “peço uma opinião e Villaça me diz outra coisa, como se não lhe interessasse a pergunta...” — confidencia-nos Edmílson Caminha.
“Imensamente gordo, barba e cabelos à escovinha brancos, sempre vestido de preto, compunha um tipo eclesiástico, um espécime abacial, a representação do monge que não chegou a ser, pois não passou do noviciado no Mosteiro de São Bento. Pobre, vivia parcimoniosamente, da colaboração em jornais, do
pro labore por conferências e palestras e dos poucos direitos que lhe asseguravam os livros. Por 17 anos, morou no apartamento 304 do pequeno Hotel Bela Vista, na Rua Pascoal Carlos Magno, 5, em Santa Teresa, Rio de Janeiro — cujos empregados, hoje, nada sabem do antigo hóspede.” Assim, de forma precisa e exata, como gostava de afirmar um amigo meu de infância, Edmílson descreve-nos Villaça, além de justificar o título da obra.

Na primeira carta, aos 8 de julho de 1980, Villaça aconselha: “Não force nada. Em arte, como em tudo mais, não devemos forçar.” Para, aos 27 de janeiro de 1981, asseverar-lhe: “Você é um Poeta, um autêntico. Agora, é ousar a contumácia. Ser contumaz. Insistir, persistir.”

Antonio Carlos Villaça era de uma capacidade laboral incrível. “Você leu o Junqueira da coleção Nossos Clássicos, da Agir, ou o Junqueira da Aguilar? Ambos foram feitos por mim. Um, em 1962. Outro, em 1977. Preparei também as edições do Ronald, poesia, prosa, e do Cesário Verde, para a Aguilar. E fiz a introdução à Obra Seleta do Gilberto Freyre.” — revela, aos 18 de novembro de 1980, o autor de Os saltimbancos da Porciúncula.

Na correspondência de 19 de fevereiro de 1981, Villaça discorre acerca da sua visita ao recanto telúrico de Rachel de Queiroz: “Gostei muito de ter ido à fazenda Não me Deixes, Quixadá, um sonho, talvez o único escritor brasileiro a visitar a velha Senhora no seu habitat, no seu refúgio, na caverna mágica da sua infância sertaneja. É preciso ter visto Rachel na fazenda para compreender-se o seu modo de ser, aquela graça muito dela, aquela rude leveza, aquele tom macio, falador e seco. Rachel é áspera, é doce, é direta.”

Ao se referir à entrada de Eduardo Portella na Academia Brasileira de Letras, e instado por Caminha quanto ao seu dia de vestir o fardão dos imortais, Villaça expõe: “O Portella elegeu-se. Fui abraçá-lo. E lá fiquei umas três horas. Muita gente. Mas não tenho a mínima ilusão. Acho que jamais me candidatarei. É tudo tão político, tão social, tão na linha das jogadas astutas. O importante é escrever. O resto...”.

Ao elogiar uma carta de Caminha a Carlos Drummond, Villaça o faz de uma forma poética, lírica: “Equivaleu a uma bênção, a uma sagração ou a um batismo. V. está dentro do recinto e canta com os velhos companheiros o louvor da Palavra, o Verbum que se fez carne, caro, o Logos fecundante.”

Como anuncia Edmílson Caminha, em carta a Villaça, aos 11 de maio de 1981: “Se algo divino existe entre os homens é a arte”; então, a leitura das missivas entre escritores é uma bela maneira de sermos, de uma certa
forma, confidentes e testemunhas desse tão sublime ofício.

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*Clauder Arcanjo, professor. Texto publicado no "Gazeta do Oeste", Mossoró-RN, 29.3.2009.

sexta-feira, 28 de março de 2008

ABC DE POUND


Clauder Arcanjo*

Resolvi reler o ABC da Literatura, de Ezra Pound. Vi-me com uma vontade enorme de revisitar os ensinamentos do autor de Os cantos. Meu exemplar é da Cultrix, com tradução de Augusto de Campos e José Paulo Paes. Publicado pela primeira vez em 1934, o ABC of Reading (na versão brasileira, ABC da Literatura) é considerado o manual por excelência da didática poundiana. Tido por Marshall McLuhan como "ao mesmo tempo a mais curta e a mais densa avaliação da poesia inglesa".

Na abertura, uma advertência de Ezra Pound: "Este livro não se destina aosque chegaram ao pleno conhecimento do assunto sem conhecer os fatos." O velho Pound, sempre polêmico, todavia perspicaz e arguto como poucos.
Da parte inicial, "Como estudar poesia", colhi alguns achados que faço questão de ressaltar. Vejamos. "O autor espera seguir a tradição de Gaston Paris e S. Reinach, isto é, elaborar um manual que também possa ser lido 'tanto com prazer como com proveito' pelos que não estão mais na escola; pelos que nunca freqüentaram uma escola; ou pelos que, em seus dias de colégio, sofreram aquelas coisas que a maior parte da minha própria geração sofreu."

"Uma palavra especial para os professores e lentes se encontra no final do volume. Não estou semeando espinhos frivolamente em seu caminho. Eu gostaria até de fazer com que os seus encargos e a sua vida se tornassem mais alegres e de preservar até a eles próprios de inútil caceteação numa sala de aulas." - adverte Ezra. Pound tem a preocupação de "separar drasticamente o melhor, de uma grande massa de obras, que têm sido consideradas válidas há muito tempo, que têm oprimido todo o ensino e que são responsáveis pela idéia corrente, extremamente perniciosa, de que um bom livro deve ser necessariamente um livro chato". Logo depois ele vocifera: "Precisa-se de uma boa poda, se é que o Jardim das Musas pretende continuar a ser um jardim.”
Um livro é clássico, segundo Pound, "devido a uma certa juventude eterna e irreprimível". Defende o método comparativo para separar o
joio do trigo na poesia, método esse tão afeito aos biologistas, contudo é sabedor, por sua vez, que "um manual não é lugar para nada que possa ser bem ou mal interpretado como uma queixa pessoal". Cada obra, por si, apresenta e dá crédito a um autor, é um dos credos de Ezra. "A referência de um escritor é o seu 'nome'. Depois de certo tempo ele passa a ter crédito". Este pode ser sólido ou não, dependendo da qualidade do que produz.
Trata-se
de um livro recheado de bons preceitos. Simples, diretos, elucidativos. "Literatura é linguagem carregada de significado. Grande literatura é simplesmente linguagem carregada de significado até o máximo grau possível." Logo depois, declara: "Literatura é novidade que PERMANECE novidade."
Pound volta-se basicamente para a poesia inglesa, teme sobremaneira os maus vates, e anuncia
sua presença universal: "A poesia medíocre, no fim das contas, é sempre a mesma em toda parte." "A má poesia é a mesma em todas as línguas"; bem sabemos.
Ezra Pound defende a importância da literatura para uma coletividade. "A linguagem é o principal meio de comunicação humana. Se o sistema nervoso de um animal não transmite sensações e estímulos, o animal se atrofia." Em um de seus cred
os, ele sentencia: "Um povo que cresce habituado à má literatura é um povo que está em vias de perder o pulso de seu país e o de
si próprio." E advoga que "os bons escritores são aqueles que mantêm a linguagem eficiente. Quer dizer, que mantêm a sua precisão, a sua clareza. Não importa se o bom escritor quer ser útil ou se o mau escritor quer fazer mal". E arremata: "Se a
literatura de uma nação entra em declínio a nação se atrofia e decai." Ao tempo em que conclama "o homem lúcido" a não “permanecer quieto e resignado enquanto o seu país deixa que a literatura decaia e que os bons escritores sejam desprezados, da mesma forma que um bom médico não poderia assistir, quieta e resignadamente, a que uma criança ignorante contraísse tuberculose pensando que estivesse chupando bala". Há também ensinamentos para os que laboram na crítica. Dentre muitos, alguns me causaram espécie. Em especial: "O crítico que não tira suas próprias conclusões, a propósito das medições que ele mesmo fez, não é digno de confiança. Ele não é um medidor, mas um repetidor das conclusões de outros homens." "O mau crítico se identifica facilmente quando começa por discutir o poeta e não o poema." "O crítico honesto deve contentar-se em encontrar uma parcela MUITO PEQUENA da produção contemporânea digna de atenção séria; mas deve também estar pronto para RECONHECER essa parcela, e para rebaixar de posto uma obra do passado quando uma nova obra a supera." "A preguiça está na origem de muitos erros de opinião." "O ignorante de uma geração se põe a baixar leis e os meninos crédulos da geração seguinte tratam de obedecê-lo." Ao passo em que os classifica, Pound tem uma certeza: "Há uma qualidade que une todos os grandes escritores: escolas e colégios são DISPENSÁVEIS para que eles permaneçam vivos para sempre." Ezra enumera alguns autores tidos como fundamentais para quem quer conhecer a grande literatura. "Vocês devem ler tudo o que quiserem. Mas em vez de esperar que eu ou qualquer outro lhes diga o que há numa página, vocês devem aprender a ver por si próprios" - pondera. Dificilmente é peremptório, como quando se refere a Ésquilo, "penso que todo homem animado de uma razoável curiosidade literária há de ler o Agamenon de Ésquilo." Mas, enquanto "MATERIAL DE LEITURA", Pound não crê que "os dramaturgosgregos cheguem aos pés de Homero". Quando o tema é versificação, defende: "O meio de aprender a música do verso é escutá-la."Para logo depois proclamar: "A música apodrece quando se afasta muito da dança. A poesia se atrofia quando se afasta muito da música." Ou seja, o leitor deve buscar a "límpida musicalidade", e tão-somente poderá encontrá-la "com ouvidos e olhos atentos". Se não descobri la sozinho, "explicação alguma o fará compreender". Pespontando o pequeno tomo, brilhantes ensinamentos, infelizmente ainda desprezados por muitos homens de letras. "A incompetência se manifesta no uso de palavras demasiadas." "O homem que realmente sabe pode dizer tudo o que é transmissível nalgumas poucas palavras." "O problema de usar a maneira ou 'estilo' de outro homem é muito simples. O bom estilo coincide com o pensamento do escritor; tem a forma do pensamento, a forma do modo por que o homem sente seu pensamento." "Quem perde suas palavras perde seu tom."
Ezra Pound, no ABC da Literatura, universalizou um dos seus credos mais conhecidos: "Os artistas são as antenas da raça." Pois os "artistas e os poetas indubitavelmente ficam excitados e 'super-excitados' pelas coisas muito antes do público em geral".
Enfim, leitor lúcido, "olha dentro do teu coração e escreve", e lê, pois graças a Pound, ficamos mais conscientes de que não há nação soberana com literatura medíocre.

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*Clauder Arcanjo – Professor

clauder@pedagogiadagestao.com.br

(Texto publicado no jornal Gazeta do Oeste (Mossoró-RN), caderno Expressão,
edição de 24 de fevereiro de 2008).

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