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sábado, 2 de abril de 2022

 

POEMA

    


Francisco Miguel de Moura*


sem vírgula palavra som

alma e silêncio

só ponto final

perfeição

perversão

 

perfeito não houve

haverá

 

desfeito refeito impossível

ele redivive

pela de/mão

 

asas se partem ver/so reverso

letras traços pontos nada

ícaro sem ar

cinzas

ai

coração.

 ____________________

*Francisco Miguel de Moura é poeta experimentalista e, ao mesmo tempo, romântico, sonetista, homem de sete instrumentos.

domingo, 18 de dezembro de 2016

A FLOR E O LIVRO

Francisco Miguel de Moura
Poeta e prosador


Acordei cedinho. Uma flor me viu,
Flor que me dera seu primeiro beijo.

O sol ia alto. Apressei pra livrar-me
Dos raios, e a flor dos meus dedos caiu.
Eu sou uma flor, esqueça meu cheiro”.
Mas ao lugar do crime a gente volta.

Na seguinte manhã, a mesma flor!
Pra meu espanto, solitária e triste.
E eu apanhei-a da beira do caminho,
E a beijei, e o fiz, sem reconhecer.

Ah! que maldade a natureza trouxe!
Enquanto os vegetais nos fazem o bem,
Nós animais - “tidos tão perfeitos” –
Tudo esquecemos... Até flor e beijo!

Ela chorou, chorou, lembrei seu cheiro
E me voltei em lágrimas e enleios.
E agora a guardo, para o meu carinho,
Quando voltar às páginas que leio.

Oh! Guardarei o livro para sempre
E o grande amor que a florzinha me deu!

Agora, todo dia, eu abro aquela página

E ela está me olhando. E lá estou eu.

(Poema inédito em livro)

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

NINGUÉM SABE NADA

Francisco Miguel de Moura*


Ninguém no sonho do outro,
Ninguém nas dobras do outro,
Ninguém no nada do outro.

Ninguém por si leva os passos
Que vão dar n’asas de voo
Para o amor... Muito menos!
Todos se livram de todos.

Quando seremos nós outros?
Quando os outros nus serão?

Nunca somos o que nada...
Somos maus entes dementes
Que nascem para morrer:
        Desconectada(s) mentes?

O mais são mistérios... Céus!
Entre estrelas, ilhas, mares.

Então, viver...  Reviver?
Depois, ir-nos como um raio
Gelado, seco, nos ares,
Sem rota, pista nem pouso...

Triste! Somos só marmotas
Das ilusões mais/turbadas.


_______________
*Francisco Miguel de Moura, escritor e poeta brasileiro, com de cerda de 35  livros publicados, principalmente em poesia, quatro romances, três de contos e crônicas que não acabam mais. Publica atualmente artigos, crônicas e críticas no jornal “O DIA”,Teresina, PI. E-mail: franciscomigueldemoura@gmail.com

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

DESTEORIA DO POEMA

Francisco Miguel de Moura*
Acesse também: 
http://abodegadocamelo.blogspot.com


Objeto, clareza, autobiografia?
Jogue fora, é matéria sem graça...
Comece pelo começo ou pelo meio:
Luz sem espaço, a massa do vento...
Adjetivos, um-por-um, risque-os,
Cale a musa ante a feira-beleza.

Se conseguir um verso na linha dois,
Ainda não é o poema, é um dueto
Donde seres desprendem pensamentos,
Pano sem fundos, cheio de remendos...

Se da linha do lápis ressurge um borrão!
Heureca! O borrão pode ser o começo.
Vomite suas palavras sobre feridas
Triturando-as, antes, uma-por-uma,
Num pilão-fundo com moscas e areia,
Dê uma volta com o “feito” na mão.
Quem for passando  dirá: “É um doido”!
E seja um doido, porém de palavras.

Mas se lhe descer a bruxa-inspiração,
Desista. Vista uma calça ou bermudão
E vá pescar num rio sem água,
Com tarrafa sem linha e anzol sem pontas,
Do pingo do sol do meio-dia à noite.
Se voltar, mais um dia você merece:
Vai ser citado num verso pelo avesso
Até o próximo dia, com sal a gosto.

Eis a dificuldade de fechar o poema,
Como acontece com o fim da vida:
Tudo o que era seu ficou decomposto.

______________
*Francisco Miguel de Moura, brasileiro, poeta e prosador, não cansa nem descansa, é um velho-novo poeta.
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